quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Aos que virão depois de nós

AOS QUE VIRÃO DEPOIS DE NÓS
Bertolt Brecht
( Remetido pelo jornalista Vitor Hugo Noroefé )


Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ri, é porque
ainda não recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar de flores é quase um crime,
pois significa silenciar sobre tanta injustiça?

Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está, então, inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?


É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas, acreditem: é por mero acaso.
Nado do que eu faço
me dá o direito de comer quando tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
[Se a minha sorte me abandona, estou perdido!]

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas, como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
Se o copo de água que bebo, faz falta a quem tem sede?
Mas, mesmo assim, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo
que se tem para viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!


Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens
no tempo da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a Terra.

Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a Terra.

Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países
que de sapatos, desesperados!
Quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar
o caminho para a amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão.


Nenhum comentário:

Postar um comentário