domingo, 18 de dezembro de 2011

Estatuto do Homem - Thiago de Mello

ESTATUTOS DO HOMEM
– Thiago de Mello - ( dedicado a Carlos Heitor Cony )

“ Fica decretado que agora vale a verdade, que agora vale a vida e que de mãos dadas trabalharemos todos pela vida verdadeira.
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Fica decretado, que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem como a palmeira confia no vento, como o vento no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
O homem confiará no homem como o menino confia em outro menino.
Fica decretado que os homens estão livres do julgo da mentira.
Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa com o seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.
Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridão, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar amor a quem se ama sabendo que é a água que dá à planta o milagre da flor.
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que, sobretudo, tenha sempre o quente sabor da ternura.
Fica permitido a qualquer pessoa a qualquer hora da vida, o uso do traje branco.
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que é belo.
Decreta-se que nada será obrigado, nem proibido.
Tudo será permitido, sobretudo brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.
Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal, para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.
Fica proibido o uso da palavra liberdade a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, ou como a semente do trigo, e a sua morada será sempre o coração do homem. “

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