sábado, 11 de fevereiro de 2012

José Bento Monteiro Lobato, membro do Conselho Editorial

Monteiro Lobato, membro do Conselho Editorial do blog


Criado em um sítio, Monteiro Lobato foi alfabetizado pela mãe Olímpia Augusta
Lobato e depois por um professor particular. Aos sete anos, entrou em um
colégio. Nessa idade descobrira os livros de seu avô materno, o Visconde de
Tremembé
, dono de uma biblioteca imensa no interior
da casa.

Leu tudo o que havia para crianças em língua
portuguesa
. Nos primeiros anos de estudante já escrevia pequenos contos para os
jornaizinhos das escolas que frequentou.

Aos onze anos, em 1893, foi transferido para o
Colégio São João Evangelista. Ao receber como herança antecipada uma bengala do pai,
que trazia gravada no castão as iniciais J.B.M.L., mudou seu nome de José Renato
para José Bento, a fim de utilizá-la. No ano seguinte, os pais o presentearam
com uma calça comprida, que usou bastante envergonhado. Em dezembro de 1896 foi para São Paulo e, em janeiro de 1897, prestou exames das matérias estudadas na cidade natal,
mas foi reprovado no curso preparatório e retornou a Taubaté.

Quando retornou ao Colégio Paulista, fez as suas primeiras incursões
literárias como colaborador dos jornaizinhos "Pátria", "H2S" e "O Guarany", sob
o pseudônimo de Josben e
Nhô Dito. Passou a colecionar avidamente textos e recortes que o interessavam, e
lia bastante. Em dezembro prestou novamente os exames para o curso preparatório
e foi aprovado. Escreveu minuciosas cartas à família, descrevendo a cidade de
São Paulo.
Colaborou com "O Patriota" e "A Pátria". Então, se mudou de vez para
São Paulo, e tornou-se estudante interno do Instituto Ciências e Letras.
No ano seguinte, a 13 de junho de 1898, perdeu o pai, José Bento
Marcondes Lobato, vítima de congestão pulmonar.

Decidiu, pela primeira vez, participar das sessões do Grêmio Literário Álvares de
Azevedo
do Instituto Ciências e Letras. Sua mãe, vítima de uma depressão
profunda, veio a falecer no dia 22 de junho de 1899.
Tendo forte talento para o desenho, pois desde menino
retrata a Fazenda Buquira, tornou-se desenhista e caricaturista nessa época. Em
busca de aproveitar as suas duas maiores paixões, decidiu ir para São Paulo após
completar 17 anos.

Seu sonho era a Escola de Belas-Artes, mas, por imposição do avô, que o tinha como um sucessor na administração de seus negócios, acabou ingressando na Faculdade
do Largo de São Francisco
para cursar Direito. Mesmo assim seguiu
colaborando em diversas publicações estudantis e fundou, com os colegas de sua
turma, a "Arcádia Acadêmica", em cuja sessão inaugural fez um discurso
intitulado: Ontem e Hoje. Lobato, a essas alturas, já era elogiado por
todos como um comentarista original e dono de um senso fino e sutil, de um
"espírito à francesa" e de um "humor inglês" imbatível, que carregou pela vida
afora.

Dois anos depois, foi eleito presidente da Arcádia Acadêmica, e colaborou
com o jornal "Onze de Agosto", onde escreveu artigos sobre teatro. De tais estudos surgiu,
em 1903, o grupo O Cenáculo, fundado junto com Ricardo Gonçalves, Cândido Negreiros, Godofredo
Rangel, Raul de Freitas, Tito Lívio Brasil, Lino Moreira e José Antônio
Nogueira.

Era anticonvencional por excelência, dizendo sempre o que pensava, agradasse
ou não. Defendia a sua verdade com unhas e dentes, contra tudo e todos,
quaisquer que fossem as consequências. Venceu um concurso de contos, sendo que o
texto Gens Ennuyeux foi publicado no jornal "Onze de Agosto".

Em 1904
diplomou-se bacharel em Direito
e regressou a Taubaté. No ano seguinte fez planos de fundar uma fábrica de
geleias, em sociedade com um amigo, mas passou a ocupar interinamente a
promotoria de Taubaté e conheceu Maria Pureza da Natividade ("Purezinha"). Em
maio de 1907 foi
nomeado promotor público
em Areias, e
casou-se com Purezinha, a 28 de março de 1908. Exatamente um ano
depois nasceu Marta, a primogênita do casal. Insatisfeito com a vida bucólica de
Areias, planejou abrir um estabelecimento comercial de secos e molhados.

Em 1910
associou-se a um negócio de estradas de ferro e
nasceu o seu segundo filho, Edgar. Viveu no interior e nas cidades pequenas da
região, escrevendo paralelamente para jornais e revistas, como A
Tribuna
de Santos, Gazeta de
Notícias
do Rio de Janeiro e
a revista Fon-Fon, para onde também
mandava caricaturas e desenhos. Passou a traduzir artigos do Weekly Times
para o jornal O Estado de São
Paulo
, e obras da literatura universal, também enviando artigos para um
jornal de Caçapava. Contudo, era
visível a sua insatisfação com a vida que levava e com os negócios que não
prosperavam.

No ano seguinte, aos 29 anos, Lobato recebeu a notícia do falecimento de seu
avô, o Visconde de Tremembé, tornando-se então herdeiro da Fazenda Buquira, para
onde se mudou com toda a família. De promotor a fazendeiro, dedicou-se à
modernização da lavoura e à criação. Com o lucro
dos negócios, abriu um externato em Taubaté, que confiou aos cuidados de seu
cunhado.

Em 1912
nasceu Guilherme, o seu terceiro filho. Ainda insatisfeito, mas desta vez com a
vida na fazenda, planejou explorar comercialmente o Viaduto do Chá, na
cidade de São Paulo, em parceria com Ricardo Gonçalves.

Em 12 de novembro de 1912, o jornal O Estado
de São Paulo, na sua edição vespertina (O Estadinho), publicou o seu artigo
Velha Praga. Era véspera de Natal quando o mesmo jornal
publicou um conto daquele que mais tarde seria o seu primeiro livro,
Urupês. Na Vila de Buquira, hoje município de Monteiro
Lobato (São Paulo)
, nessa mesma época, envolveu-se com a política e logo a
deixou de lado. Sua quarta e última filha, Rute, nasceu em fevereiro de 1916, quando iniciava
colaboração na recém fundada Revista do Brasil. Era uma publicação nacionalista
que agradou em cheio o gosto de Lobato.

Somente em 1914,
como fazendeiro em Buquira, um fato definiria de vez a sua carreira literária:
durante o inverno seco daquele ano,
cansado de enfrentar as constantes queimadas
praticadas pelos caboclos, o fazendeiro escreveu
uma "indignação" intitulada Velha Praga, e a enviou para a seção Queixas
e Reclamações do jornal O Estado de S.
Paulo
, edição da tarde, o "Estadinho". O jornal, percebendo o valor
daquela carta, publicou-a fora da seção que era destinada aos leitores, no que
acertou, pois a carta provocou polêmica e fez com que Lobato escrevesse outros
artigos como, por exemplo, Urupês, dando vida a um de seus mais famosos
personagens, o Jeca Tatu.

Jeca era um grande preguiçoso, totalmente diferente dos caipiras e índios idealizados
pela literatura romântica de então. Seu aparecimento gerou uma enorme polêmica, em todo o país, pois o personagem era símbolo do atraso e da miséria que representava o
campo no Brasil. Monteiro Lobato conheceu apenas o caipira caboclo, e generalizou o
comportamento destes para todos os caipiras, causando então muita polêmica. Foi
apoiado por Rui Barbosa e contraditado
pelo especialista em caipiras, o folclorista Cornélio Pires, que
explicou que Lobato só conheceu o caipira caboclo:
Coitado do meu patrício! Apesar dos governos os outros caipiras se vão
endireitando à custa do próprio esforço, ignorantes de noções de higiene... Só
ele, o caboclo, ficou mumbava, sujo e ruim! Ele não tem culpa... Ele nada sabe.

Foi um desses indivíduos que Monteiro Lobato estudou, criando o Jeca Tatu,
erradamente dado como representante do caipira em geral!

- Cornélio
Rui Barbosa, em 20 de março de 1919, em uma conferência
sobre a Questão Social e Política no Brasil, durante a útima eleição
presidencial que disputou, disse sobre Monteiro Lobato:
Conheceis, por ventura, o Jeca Tatu, dos Urupês, do Monteiro Lobato, o
admirável escritor paulista? Tivestes, algum dia, ocasião de ver surgir, debaixo
desse pincel de uma arte rara, na sua rudeza, aquele tipo de uma raça, que,
"entre as formaduras da nossa nacionalidade", se perpetua, "a vegetar, de
cócoras, incapaz de evolução e impenetrável ao progresso"?!

— Rui
Barbosa

A partir daí, os fatos se sucederam: a geada, (sobre a qual deixou uma
crônica), e as dificuldades financeiras levaram-no a vender a fazenda Buquira,
em 1916, e a partir com a família para São Paulo, com o intuito de tornar-se um
"escritor-jornalista". Fundou, em Caçapava, a revista
"Paraíba", e organizou, para o jornal "O Estado de São Paulo", uma imensa e
acalentada pesquisa sobre o saci. Lobato percorreu o interior
de São Paulo, durante a Grande Geada de 1918, escrevendo um importante
crônica a respeito, impressionado que ficou com a queima dos cafezais paulistas.

Ainda em 1918, ano dos 4 G (Geada, Greve, I
Guerra Mundial
e Gripe espanhola),
Lobato, escrevia no jornal "O Estado de S. Paulo", o mais importante jornal da
capital, e, como todos os editorialistas acabaram pegando a gripe espanhola,
vários editoriais do jornal "O Estado", daqueles dias, foram escritos unicamente
por Lobato.

A Fazenda Buquira, a qual Lobato visitava na infância quando pertencia a seu
avô, o Visconde de Tremembé, e onde Lobato viu a geada, conheceu o caipira
caboclo, e teve inspiração para seus personagens e paisagens de seus livros
(como a pequena cachoeira que inspirou o Reino das Águas Claras), é atualmente
centro de visitação, sendo que a casa-sede da fazenda ainda se encontra em seu
estado original, situada à margem da rodovia atualmente denominada "Estrada
do Livro", que liga a cidade de Monteiro Lobato à Caçapava.

Em 20 de dezembro publicou
Paranoia ou Mistificação, a famosa crítica desfavorável à
exposição de pintura de Anita Malfatti, que
culminaria como o estopim para a criação da Semana de Arte
Moderna
de 1922.

Muitos passaram a ver Lobato como reacionário, inclusive
os modernistas, mas hoje, após
tantos anos, percebe-se que o que Lobato criticava eram os "ismos" que vinham da
Europa: cubismo, futurismo, dadaísmo,
surrealismo, que ele achava
que eram "colonialismos", "europeizações", assim como ocorrera com os acadêmicos
das gerações anteriores.
Lobato era a favor de uma arte devidamente brasileira, autóctone, criada
aqui. Por isso criticou Anita Malfatti, embora admitisse que ela fosse
talentosa. Isso tudo gerou o estranhamento entre ele e os modernistas mas, no
fundo, todos eles tinham razão, apenas viam as coisas de ângulos diferentes.


Mesmo assim Oswald de Andrade
continuou a ser um profundo admirador de Lobato: quando ocorrera a Semana de
Arte Moderna, as provas de Urupês ficaram dois dias em cima do sofá da
garçonière onde Oswald de Andrade se encontrava com os amigos.
Monteiro Lobato defendia a eugenia
por acreditar que a miscigenação era
um fator prejudicial na formação do povo brasileiro.

Seu livro, O Presidente
Negro
, descreve um conflito racial no futuro, após a eleição
de um negro para a presidência
dos EUA
.

Em carta a Renato Kehl,
ele afirma:
A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha."

Em 1918, Monteiro
Lobato comprou a Revista do Brasil e passou a dar espaço para novos talentos, ao
lado de pessoas famosas. Tornou-se, dessa forma, um intelectual engajado na
causa do nacionalismo, a qual
dedicou uma preocupação fundamental, tanto na ficção quanto no ensaio e no
panfleto. Crítico de costumes, no qual não faltava a nota do sarcasmo e da caricatura, de
sua obra elevou-se largo sopro de humanidade e brasileirismo. Nas mãos de
Monteiro Lobato, a Revista do Brasil prosperou e ele pode montar uma empresa
editorial, sempre dando espaço para os novatos e divulgando obras de artistas
modernistas.

Lobato também foi precursor de algumas ideias muito interessantes no campo
editorial. Ele dizia que "livro é sobremesa: tem que ser posto debaixo do
nariz do freguês". Com isso em mente, passou a tratar os livros como
produtos de consumo, com capas coloridas e atraentes, e uma produção gráfica
impecável. Criou também uma política de distribuição, novidade na época:
vendedores autônomos e distribuidores espalhados por todo o país.
Primeiro seus livros foram publicados pela Editora da Revista do Brasil.
Assim, o livro Urupês, em sua sexta edição em 1920, está registrado "Ed. da
Revista do Brasil, São Paulo, 1920". Na última capa consta: "Director Monteiro
Lobato, Secretario Alarico Caiuby", "A venda em todas as livrarias e no
escriptorio da Revista do Brasil".


Logo fundou a editora Monteiro Lobato & Cia., depois chamada Companhia Editora
Nacional
, com a obra O Problema Vital, um conjunto de artigos sobre a
saúde pública, seguido pela tese O Saci Pererê: Resultado de
um Inquérito. Privilegiava a edição de autores estreantes como a senhora
Leandro Dupré, com o sucesso "Éramos Seis".

Traduziu também muitos livros e
editou obras importantes e polêmicas como "A Luta pelo Petróleo", de Essad Bey,
para o qual fez uma introdução tratando da questão do petróleo no Brasil.
Em julho de 1918, dois meses depois da compra, publicou em forma de livro
Urupês, com retumbante sucesso e alcançando grande repercussão ao dividir
o país sobre a veracidade da figura do caipira, fiel para alguns, exagerada para
outros. O livro chamou a atenção de Rui Barbosa que, num
discurso, em 1919,
durante a sua campanha eleitoral,
reacendeu a polêmica ao citar Jeca Tatu como um "protótipo do camponês
brasileiro, abandonado à miséria pelos poderes públicos". A popularidade fez com
que Lobato publicasse, nesse mesmo ano, Cidades Mortas e Ideias de
Jeca Tatu.

Os Faroleiros serviu de argumento para um filme dirigido pelos cineastas
Antônio Leite e Miguel Milani. Meses depois, publicou Negrinha e A
Menina do Narizinho Arrebitado, sua primeira obra infantil, e que
deu origem a Lúcia, mais conhecida como a Narizinho do Sítio do
Picapau Amarelo. O livro foi lançado em dezembro de 1920 visando aproveitar
a época de Natal. A capa e os desenhos eram de Lemmo Lemmi, um famoso ilustrador da
época.
Em janeiro de 1921, os anúncios na imprensa
noticiaram a distribuição de exemplares gratuitos de A Menina do Narizinho
Arrebitado nas escolas, num total de 500 doações, tornando-se um fato
inédito na indústria editorial. Fora atendendo um pedido do presidente de São
Paulo, Dr. Washington Luís que
Lobato era admirador, que fizera o livro. O sucesso entre as crianças gerou
continuações: Fábulas de Narizinho (1921), O Saci (1921), O
Marquês de Rabicó (1922), A Caçada da Onça (1924), O Noivado de
Narizinho (1924), Jeca Tatuzinho (1924) e O Garimpeiro do Rio das
Garças (1924), entre outros.

Tais novidades repercutiram em altas tiragens dos livros que editava, a ponto
de dedicar-se à editora em tempo integral, entregando a direção da Revista do
Brasil a Paulo Prado e Sérgio Millet.
A demanda pelos livros era tão grande que ele importou mais máquinas dos Estados
Unidos
e da Europa para aumentar seu parque
gráfico. Porém, uma grave seca cortou o fornecimento de energia elétrica,
e a gráfica só podia funcionar
dois dias por semana.

Por fim, o presidente Artur Bernardes
desvalorizou a moeda e suspendeu o redesconto de títulos pelo Banco do Brasil, gerando
um enorme rombo financeiro e muitas dívidas ao escritor.
Lobato só teve uma escolha: entrou com pedido de falência em julho de 1925. Mesmo assim não
significou o fim de seu projeto editorial. Ele já se preparava para abrir outra
empresa, a Companhia Editora Nacional, em sociedade com Octalles Marcondes e, em
vista disso, transferiu-se para o Rio de
Janeiro
.

Os "produtos" dessa nova editora abrangiam uma variedade de títulos,
inclusive traduções de Hans
Staden
e Jean de Léry. Além
disso, os livros garantiam o "selo de qualidade" de Monteiro Lobato, tendo
projetos gráficos muito bons e com enorme sucesso de público.
A partir daí, Lobato continuou escrevendo livros infantis de sucesso,
especialmente com Narizinho e outros personagens, como Dona Benta, Pedrinho, Tia
Nastácia
, o boneco de sabugo de milho Visconde de
Sabugosa
e Emília, a boneca
de pano
.

Além disso, por não gostar muito das traduções dos livros europeus para
crianças, e sendo um nacionalista convicto, criou aventuras com personagens bem
ligados à cultura brasileira,
recuperando inclusive costumes da roça e lendas do folclore.

Mas não parou por aí. Monteiro Lobato pegou essa mistura de personagens
brasileiros e os enriqueceu, '"misturando-os" a personagens da literatura
universal, da mitologia grega, dos quadrinhos e do cinema. Também foi
pioneiro na literatura paradidática, ensinando história,
geografia e
matemática, de forma
divertida.


Em 1926, Lobato
concorreu a uma vaga na Academia
Brasileira de Letras
, mas acabou derrotado. Era a segunda vez que isso
acontecia. Na primeira vez, em 1921, iria concorrer á vaga de Pedro Lessa, mas desistiu
antes da eleição, por não querer fazer as visitas de praxe aos acadêmicos para
pedir seus votos. Desta vez, estava concorrendo à vaga do renomado jurista João Luís
Alves
. Na primeira, recebera um voto no terceiro escrutínio, e, na segunda,
dois votos no quarto. Em artigo à imprensa, Múcio Leão chegou a
afirmar que esse "escritor de talento fora duas vezes repelido". No mesmo
ano saíram em folhetim os livros O Presidente Negro (1926) e "How
Henry Ford is Regarded in Brazil (1926).
Depois, enviou uma carta ao recém empossado Washington Luís,
onde defendeu os interesses da indústria editorial. O presidente, reconhecendo
nele um representante promissor dos interesses culturais do país, nomeou-o adido
comercial nos Estados Unidos, em 1927.

Lobato escreve confirmando a
tese de Washington Luís de que "Governar é abrir Estradas", as quais
Lobato atribui o progresso dos Estados Unidos. Lobato ficara impressionado com a
quantidade e qualidade das estradas norte americanas. Monteiro Lobato mudou-se
para Nova York e deixou a Companhia
sob a direção de seu sócio, Octalles Marcondes Ferreira. Entusiasmado com o
progresso material que viu nos Estados Unidos, passou a acompanhar todas as
inovações tecnológicas estadunidenses e fez de tudo para convencer o governo
brasileiro a propiciar a criação de atividades semelhantes no Brasil. Com
interesses voltados no que diz respeito às questões de petróleo e ferro, planejou a fundação da
Tupy Publishing Company.

Em Nova York escreveu Mr. Slang e o Brasil (1927), As Aventuras de
Hans Staden (1927), Aventuras do Príncipe (1928), O Gato Félix
(1928), A Cara de Coruja (1928), O Circo de Escavalinho (1929) e
A Pena de Papagaio (1930). As obras infantis que datam dessa época foram
publicadas no Brasil e reunidas num único volume, intitulado Reinações de
Narizinho (1931).
Foi para Detroit no ano seguinte e, em
visita à Ford e a General Motors, organizou
uma empresa brasileira para produzir aço pelo processo Smith. Com
isso, jogou na Bolsa de Valores de
Nova York
e perdeu tudo o que tinha com a crise de 1929.
Para cobrir suas perdas com a quebra da Bolsa, Lobato vendeu suas ações da
Companhia Editora Nacional em 1930. Voltou para São Paulo em 1931 e passou a defender
que o "tripé" para o progresso brasileiro seria o ferro, o petróleo e as estradas para
escoar os produtos.

Entusiasmado com Washington Luís e com seu candidato a presidente, em 1930, o
Dr. Júlio Prestes, que,
como presidente de São Paulo, realizara explorações de petróleo em território
paulista, Lobato dá apoio irrestrito ao candidato Júlio Prestes nas eleições de
1930.

Em 28 de agosto de 1929, em
carta ao dr. Júlio Prestes, Monteiro Lobato transmite-lhe votos pela "vitória na
campanha em perspectiva", afirmando que:
Sua política na presidência significará o que de mais precisa o Brasil:
continuidade administrativa!


Com a deposição de Washington Luís e o impedimento da posse de Júlio Prestes,
começa a antipatia de Lobato por Getúlio Vargas e seu
infortúnio.

Após implantar a Companhia
Petróleos do Brasil
, e graças à grande facilidade com que foram subscritas
suas ações, Monteiro Lobato fundou várias empresas para fazer perfuração de
petróleo, como a Companhia Petróleo Nacional, a Companhia Petrolífera Brasileira
e a Companhia de Petróleo Cruzeiro do Sul, e a maior de todas (fundada em julho
de 1938) a Companhia Mato-grossense de Petróleo, que visava perfurar próximo da
fronteira com a Bolívia, país vizinho que
já havia encontrado petróleo em seu território.

Com isso Lobato prejudicou os interesses de gente muito importante na política
brasileira, e de grandes empresas estrangeiras. Começava a luta que o deixou
pobre, doente e desgostoso. Havia interesse oficial em se dizer que no Brasil
não havia petróleo. Tendo-os como adversários, passou a enfrentá-los
publicamente.

Por alguns anos, seu tempo foi dedicado integralmente à campanha do petróleo,
e a sua sobrevivência garantiu-se pela publicação de histórias infantis e da
tradução magistral de livros estrangeiros, como O
Livro da Selva
, de Rudyard Kipling (1933),
O Doutor Negro, de Arthur Conan
Doyle
(1934), Caninos Brancos
(1933) e A Filha da Neve (1934), ambos de Jack
London
, entre outros. Teimava em dizer que era preciso explorar o petróleo
nacional para dar ao povo um padrão de vida à altura de suas necessidades.

Tentou, sem êxito, organizar uma companhia petrolífera mediante subscrições
populares.
Muitas dificuldades apareceram e, mesmo assim, sua produção literária
manteve-se e chegou ao ápice. Em América (1932) publicou as suas
primeiras impressões sobre a luta na qual se engajara. Em seguida vieram
História do Mundo para Crianças (1933), Na Antevéspera e Emília
no País da Gramática (1934), na qual defendia uma gramática normativa
revisada. Meses depois, seu livro História do Mundo Para Crianças sofreu
crítica, censura e perseguição da Igreja Católica. O
padre Sales Brasil escreveu um libelo contra Lobato chamado "A literatura
infantil de Monteiro Lobato ou comunismo para crianças".

Aceitou o convite para ingressar na Academia
Paulista de Letras
e, com isso, apresentou um dossiê de sua campanha em
prol do petróleo, O Escândalo do Petróleo (1936)
no qual acusava o governo de "não perfurar e não deixar que se perfure".
O livro esgotou várias edições em menos de um mês. Aturdido, o governo de Getúlio Vargas
proibiu e mandou recolher todas as edições. Em seguida, morreu Heitor de Moraes,
seu correspondente e grande amigo.

Com isso, criou a União Jornalística Brasileira, uma empresa destinada a
redigir e distribuir notícias pelos jornais. Em fevereiro de 1939 morreu Guilherme, seu terceiro
filho. Abalado, Monteiro Lobato enviou uma carta ao ministro de Agricultura, que
precipitara a abertura de um inquérito sobre o petróleo. Recebeu convite de
Getúlio Vargas para dirigir um ministério de Propaganda, mas Lobato recusou.

Numa outra carta ao presidente, fez severas críticas à política brasileira de
minérios .
O teor da carta foi tido como subversivo e desrespeitoso e isso fez com que
fosse detido pelo Estado Novo,
acusado de tentar desmoralizar o Conselho
Nacional do Petróleo
, ironicamente presidido à época pelo general
Horta Barbosa
que foi o responsável por colocar Lobato atrás das grades do
Presídio
Tiradentes

e que, abraçando as ideias de Lobato, se tornaria em 1947 um dos maiores líderes
da nacionalista Campanha do
Petróleo
.

Lobato foi condenado a seis meses de prisão, e permaneceu
encarcerado de março a junho de 1941.
Uma campanha promovida por intelectuais e amigos conseguiu fazer com que
Getúlio Vargas concedesse o indulto que o libertaria,
reduzindo a pena de seis para três meses na prisão. Apesar disso, Lobato
continuou sendo perseguido e o governo fazia de tudo para abafar suas ideias.

Foi então que passou a denunciar as torturas e maus tratos
praticados pela polícia do Estado Novo.

Curiosamente o petróleo no Brasil seria encontrado, por uma ironia da
história, em um local chamado Lobato (Salvador), em
1939, e, justamente pelo então ministro da agricultura Dr. Fernando de Souza
Costa
, que fora justamente o secretário da agricultura do Dr. Júlio Prestes,
que, na década de 1920, procurara petróleo em São Paulo.

Mesmo em liberdade, Monteiro Lobato não teve mais tranquilidade, e seu filho
mais velho, Edgar, morreu em fevereiro de 1942, exatamente três anos depois
do falecimento de Guilherme.

Em 1943 foi
fundada a Editora Brasiliense
por Caio Prado
Júnior
, que negociou com Lobato a publicação de suas obras completas. Logo
em seguida, por ironia do destino, recusou a indicação para a Academia
Brasileira de Letras. Entretanto integrou a delegação paulista do I Congresso
Brasileiro de Escritores reunidos em São Paulo, que divulgou, no encerramento,
uma declaração de princípios exigindo legalidade democrática como garantia da
completa liberdade de expressão do pensamento e redemocratização plena do
país.

Suas companhias foram liquidadas e a censura da ditadura faz com que Lobato se
aproximasse dos comunistas, chegando a receber
convite do Partido Comunista para integrar a bancada de candidatos. Foi na
prisão, no Estado Novo, que Lobato fez
seus primeiros contatos com os comunistas. Lobato recusou o convite para entrar
na vida pública, mas enviou uma nota de saudação que foi lida por Luís Carlos
Prestes
num grande comício realizado em 1945, no estádio do
Pacaembu
. Meses depois foi publicado Nasino, edição italiana de
Narizinho, ilustrada por Vincenzo Nicoletti. Em maio A Menina do
Narizinho Arrebitado foi transformada em radionovela para crianças pela Rádio
Globo
no Rio de Janeiro.

Tornou-se diretor do Instituto Cultural Brasil-URSS, mas foi obrigado a se
afastar do cargo em setembro de 1945, quando foi levado para ser operado às
pressas de um cisto
no pulmão. A entrevista que
concedeu ao Diário de São Paulo causou grande repercussão e, em 1946, muda-se para Buenos
Aires
, na Argentina, "atraído pelos
belos e gordos bifes, pelo magnífico pão branco e fugindo da escassez que
assolava o Brasil", conforme declarou à imprensa. Antes de partir, tornou-se
sócio da Editora Brasiliense a convite de Caio Prado Júnior
que, na sua editora, preparava as Obras Completas já traduzidas para o espanhol e
editadas na Argentina. Em outubro fundou a Editorial Acteon, com Manuel
Barreiro, Miguel Pilato e Ramón Prieto. As obras de Lobato caem em domínio
público em 2018.

Voltou em 1947 por
não se ambientar ao clima local e, em entrevista aos repórteres que o aguardavam
no aeroporto, classificou o
governo de Eurico Gaspar Dutra
de "Estado Novíssimo, no qual a constituição
seria pendurada (suspensa) num ganchinho no quarto dos badulaques". Dessa
indignação surgiu o seu último livro Zé Brasil, publicado pela Editorial
Vitória, em que Lobato mais uma vez reelaborava o seu personagem Jeca Tatu,
transformando-o em trabalhador sem-terra e esmagado pelo latifúndio. Diante da
proibição das atividades do Partido Comunista em todo o país, determinada pelo
ministro da Justiça, escreveu A Parábola do Rei Vesgo para um comício de
protesto, lido e aclamado pela multidão reunida no Vale do
Anhangabaú
, na noite de 18 de junho.

O texto
refletia o desencanto de Lobato com a democracia restritiva do general Dutra. Em
dezembro foi a Salvador assistir a opereta
Narizinho Arrebitado. Lobato escreveria novo libreto para o espetáculo,
considerado a sua última criação infantil. Publicou O Problema Econômico de
Cuba, também a sua última tradução.

Em abril de 1948
sofreu um primeiro espasmo vascular que afetou a sua motricidade. Mesmo assim,
afiliou-se à revista Fundamentos e publicou os folhetos De Quem É o Petróleo
na Bahia e Georgismo e Comunismo.
Dois dias após conceder a Murilo Antunes
Alves
, da Rádio Record, a sua
última entrevista,
na qual defendeu a Campanha de O Petróleo é
Nosso
, Monteiro Lobato sofreu um segundo espasmo cerebral e faleceu às 4
horas da madrugada, no dia 4 de julho de 1948, aos 66 anos de idade. Sob forte
comoção nacional, seu corpo foi velado na Biblioteca
Municipal de São Paulo
e o sepultamento realizado no Cemitério
da Consolação
.

O Repórter Esso, na voz
de Heron Domingues, assim
anunciou sua morte, depois de um pequeno silêncio:
..E agora uma notícia que entristece a todos: Acaba de falecer o grande
escritor patrício Monteiro Lobato!
— Heron
Domingues
Sua vida e sua obra ainda hoje servem de inspiração e exemplo para milhares
de crianças, jovens e adultos do Brasil.

Em 1996, os
herdeiros de Monteiro Lobato tomaram a iniciativa de sugerir à Editora
Brasiliense, até então detentora única das obras (conforme acordo assinado entre
Lobato e Caio Prado Júnior em 1945) a reformulação dos livros e da coleção
infantil, a fim de que apresentassem um aspecto moderno com relação a
ilustrações coloridas e nova paginação.

Essas tentativas continuaram em 1997 e fracassaram, simplesmente
porque a editora não efetuou o investimento necessário, continuando a publicar
os livros com ilustrações em branco e preto como fazia há décadas e continuou a
fazer. Com isso, desde 1998, a obra de Monteiro Lobato
virou centro de uma polêmica entre a Brasiliense e os herdeiros, que a acusam de
negligenciar a obra. Há o desejo de uma divulgação maior e edições melhores.
Entre os editores há o desejo de reciclar o texto dos livros.

São várias as ações movidas pelos herdeiros contra a Brasiliense, como
contrato de cessão a terceiros (no caso à Editora Saraiva) e a
publicação de um livro falsamente atribuído a Monteiro Lobato, que a editora
intitulou Contos Escolhidos, sem autorização da família. Por outro lado,
a Brasiliense alega ter um contrato ad infinitum assinado por Monteiro
Lobato quando vivo.

Em setembro de 2007, por meio de acordo com os
herdeiros, o STJ
estabeleceu a rescisão contratual definitiva e concedeu à Editora
Globo
os direitos exclusivos sobre a obra de Monteiro Lobato, até 2018, ano
em que o legado do autor deverá entrar em domínio
público
, pois se passarão 70 anos de sua morte.


Livros infantis
O livro que lançou Lobato foi "A menina do narizinho arrebitado", em 1920,
nunca reeditado, exceto em uma pequena edição fac simile em 1981, e hoje
considerada uma obra rara tanto a primeira edição quanto a edição fac
simile. A maioria das histórias de seus livros infantis se passavam no Sítio do
Picapau Amarelo
, um sítio no interior do Brasil,
tendo como uma das personagens a senhora dona da fazenda Dona Benta, seus netos Narizinho e Pedrinho e a
empregada Tia Nastácia. Esses
personagens foram complementados por entidades criadas ou animadas pela
imaginação das crianças na história: a boneca irreverente Emília e o
aristocrático boneco de sabugo de milho Visconde de
Sabugosa
, a vaca Mocha, o burro Conselheiro, o porco Rabicó e o
rinoceronte Quindim.

No entanto, as aventuras na maioria se passam em outros lugares: ou num mundo
de fantasia inventados pelas crianças, ou em histórias contadas por Dona Benta
no começo da noite. Esses três universos são interligados para a histórias e
lendas contadas pela avó naturalmente se tornarem cenário para o faz-de-conta,
incrementado pelo dia-a-dia dos acontecimentos no sítio.

Os livros infantis de Monteiro Lobato foram transformados em cinco séries de
televisão
de bastante sucesso. A primeira delas, na TV Tupi de São Paulo, foi
exibida de 3 de junho de 1952 a 1962, ao vivo, pois não havia ainda
o videotape. Foi adaptada pela
escritora Tatiana Belinky, sendo a
mais fiel ao original de todas as adaptações para a televisão.

Nada restando
desse programa, exceto algumas fotos, pois seus episódios não eram gravados. Em
1957, a TV Tupi do Rio de Janeiro também transmitiu um Programa Sítio do
Pica-Pau Amarelo, diferente do programa paulista, pois não havia, na época,
transmissão em rede nacional, nem transmissão de imagens via tronco de
micro-ondas da Embratel. Participaram do Sítio
no Rio de Janeiro: Cláudio
Cavalcanti
e Daniel Filho.

A segunda série foi ao ar pela TV Cultura de São Paulo, em
1964. A terceira,
pela Rede Bandeirantes, em
12 de dezembro de 1967. A quarta
série
, exibida na Rede Globo, de 7 de
março
de 1977 a
31 de
janeiro
de 1986,
é considerada como a de maior repercussão e sucesso. Também na Rede
Globo
, foi ao ar de 12 de outubro de 2001 até 2 de Dezembro de 2007, a quinta série
chamada Sítio
do Picapau Amarelo
.

Ambas as séries da Globo misturam histórias originais de Monteiro Lobato com
textos inspirados em temas atuais.

Enfim, o curriculo de Monteiro Lobato é, sem dúvida, de um grande paulista que amou sua terra e seu povo.

Robero J. Pugliese
www.pugliesegomes.com.br

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