sábado, 20 de abril de 2013

Memória nº7 - Abril de 1983.

Memória 7
Abril de 1983 x Abril de 2013 –
Foi numa sexta feira. Talvez dia 30 que no prédio,  ao lado da agencia do Banco do Estado, Banespa, que por volta das dezenove horas, subiu a estreita escadaria de madeira do prédio histórico, acompanhado de familiares e foi para a Sessão da Câmara.
Dias antes, no mesmo Abril de 1983, o vereador popularmente conhecido por Charles, proprietário do restaurante Senzala,àquela época o mais elegante da cidade, cuja comida era inigualável, e de um pequeno hotel bem precário e mal conservado, havia sido preso em fragrante na cidade de Registro portando quantidade expressiva de maconha.
Preso, não podia freqüentar a Câmara de Vereadores, licenciando-se por razões que justificou cujo deferimento de pronto foi concedido pela mesa. Com a vaga aberta, o primeiro suplente, deveria assumir.
E assim, foi convocado para tanto, tomando posse naquela noite, na presença de seus pais que foram para solenidade para prestigiá-lo, seus saudosos e tão queridos tios Maneco e Landa igualmente vindos de São Paulo, bem assim, seu então pequeno filho Betito, com apenas quatro anos de idade e Cláudia sua mulher. 
Nas galerias, que na verdade eram apenas algumas cadeiras postas para acomodar freqüentadores das sessões da Câmara, alguns curiosos e seus amigos Gorgone, o tabelião e Jacy, saudoso contabilista, ex vereador, também do mesmo Partido.
Naquela noite, inesquecível para ele, lhe foi dada a palavra e, emocionado, discursou para os presentes, esclarecendo porque se motivara a se-lo e que pretendia executar enquanto o fosse e exercesse o elevado cargo de Vereador à Câmara da Estância Balneária de Cananéia, a velha cidade que disputa com São Vicente a primazia de ser a mais antiga do Brasil.
Na fala, concluiu seus agradecimentos, à mulher, aos pais e ao filho, pelo período de campanha que no ano anterior, tumultuou bastante a rotina da família.
Esse detalhe foi bem salientado por seu tio, posteriormente, que sugeriu fosse guardado o texto, para que posteriormente, quando seu filho crescesse e viesse a entender melhor o que se passava e o que ocorrera, tivesse um documento expresso da gratidão do pai.
Seu mandato se exauriu no dia do seu aniversário. Foram apenas quatro meses. Maio e Junho por inteiro, Julho no recesso e os dez dias do último mês, quando em sessão bastante tumultuada e secreta, o vereador Charles foi absolvido por 6 votos a 2, do processo de cassação de seu mandato.
Nesse dia dez de agosto de 1983 ele não compareceu à Câmara: Sabia com antecedência qual seria o resultado e também não poderia votar.
Ele e o grupo que o apoiava sabiam que dada a sua impertinência, dedicação e postura junto ao Prefeito Municipal e aos seis vereadores do Partido da situação, levariam a admitir o ex vereador, e te-lo como um sétimo edil à serviço da situação, fazendo com que o impertinente e combativo suplente se afastasse do núcleo deliberativo político municipal.
Durante o período que exerceu o cargo, até hoje, não foi superado em volume de serviços e atividades pertinentes. Foi quem mais elaborou projetos de lei, indicações à diversas autoridades federais, estaduais e municipais e demais atos administrativos e políticos próprios dos vereadores. Em apenas dois meses de exercício.
No período, numa sessão extraordinária realizada em um sábado de manhã, foram votadas as contas do ex prefeito e sob a liderança do vereador recém empossado, a minoria do PMDB conseguiu impedir a aprovação das contas e assim conseguiu que se remetesse para o Ministério Público.
Outras ações desse porte, sob sua liderança, no período foram ultimadas. O prefeito e os vereadores da situação tinham por ele um grande incomodo.
Eram tempos difíceis. O país ainda não se democratizara. O general de plantão, João B. Figueiredo, filiado a Arena, mesmo Partido Politico do Prefeito que detinha a maioria na Câmara local, com seis dos nove vereadores, ainda era o grande manda chuva de Pindorama.
Mas mesmo nessas condições, com a ajuda de seus pares e equipe de filiados no MDB, teve atuação singular e movimentou muito a pequena cidade que tinha, então, na zona urbana, apenas três mil habitantes.
A absolvição de Charles, pela Câmara Municipal, do ilícito político e ético, na verdade, foi a sua cassação política, assim reconhecida pelos mais esclarecidos. Absolvendo-se o vereador acusado de prática de crime e delito ético, na verdade, era a forma que se tinha de calar a boca e a liderança do suplente...
O vereador Charles anos depois faleceu ainda no exercício do mandato e seu nome foi dado ao plenário da Casa de Leis, em homenagem póstuma dos seus pares.
Novamente convocado a assumir a vaga aberta, abriu mão, pois não mais residia na cidade. De lá, para os dias atuais, passaram-se trinta anos, mas o dia 30 de Abril e todo o período que exerceu o mandato foram inesquecíveis. Permanecem e serão preservados em sua memória. 
Roberto J. Pugliese
membro da ACADEMIA ITANHAENSE DE LETRAS
membro da ACADEMIA ELDORADENSE DE LETRAS

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