quarta-feira, 23 de outubro de 2013

LEMBRANÇAS DE ODILA PEREIRA ! ( memória nº 31 )


Memória nº 31

Odila Pereira. Enigma.

Poderia ser adolescente ou mulher já feita. U’a mulher menina. Tinha vários nomes de batismo e  apelidos: Missaca, Juju, Peninha e  outros, mas todos elegeram a chamar simplesmente de Odila, numa alusão a uma delas. Poderia ser Maria José, a negra ou Dedé, a morena, poderia ser qualquer uma delas. Mas Odila se tornou a referencia. Talvez a mais bonita ou mais charmosa ou simplesmente a que melhor atendia quando a procuravam... Nem todas eram caiçaras, nem todas eram de lá, algumas aloiradas outras oxigenadas e a maioria colorida pelo sol e o sal das praias ainda preservadas de Conceição de Itanhaém.

Enigmática, Odila Pereira existia após as 21 horas. Uma fada que surgia na calada da noite. Antes não. Ignorada pelos mesmos que a cortejavam, sempre a encontravam na solidão e às escuras das praças e vielas perdidas espalhadas pela cidade.

Surpreendente era o brinde que procuravam. Era a paz das noites escuras e a sombra das enluaradas.

Não se fazia de rogada. Sempre muito generosa estava à disposição e com muita disposição se aventurava nas caronas escondidas, direto para o Cibratel ou para o Suarão. Não interessava para onde, valia a companhia e o interesse que lhe dedicava quem a cortejava. Mas se estivesse à pé, a pedida era à Praia do Tombo, ou a beira do rio, ou para qualquer lugar que abreviasse a chegada.

Sempre alegre e convidativa, ora era seduzida pelos meninos amantes. Ora era quem na verdade seduzia. Sorria, ria, cantava e se deixava levar. Sua alegria, talvez, era saber que o menino homem ou o homem menino a convidara passear no carro do pai ou no próprio fusquinha tala larga e volante estreito, no topo da moda 65. Mas valia também o charme de ser acompanhada para casa, mesmo à pé, se o galanteador fosse de fora...

Raramente a levavam à Santos. Muito pouco à Praia Grande. As vezes levavam à Peruíbe passar à noite e degustar o charme do  jantar dançante. Mas sempre às escuras, no silencio, às escondidas...

Longe das rodas sofisticadas das debus do Iate Clube não se ofendia ou negava a esses convites escusos. Sabia que seria assim. Tinha que ser assim.  Era Odila Pereira a anfitriã das noites enluaradas nas quebradas daqueles guetos silentes. Era simplesmente Odila, a rainha cheia de charme a rolar sob o manto de estrelas pontilhando o céu da prainha dos Pescadores ou da Praia das Saudades, desde que na mais restrita discrição do anonimato.

Amassos daqui e dali com as filhas meninas das  tradicionais famílias que tinham casas de praia, e passavam dias sonolentos ou fogosos  em Itanhaem. Meninas que se mantinham recatadas  no cumprimento de regras hipócritas e levavam os galantes persuadores após os namoricos ingênuos, bailinhos e festinhas de bolinações escondidas e beijinhos furtados, aos braços, amassos e duetos pecaminosos com Odila Pereira. Delírios surdos ao som do silencio. Silencio de espumas do mar em noites de luas e de estrelas. Discretos encontros às escuras das madrugadas geladas e úmidas.

Sempre Odila a interpretar com o corpo a solidão da alma.

Sempre Odila para as noites quentes e enluaradas de verão. Sempre Odila também nas frias e chuvosas madrugadas. Não importava quando. Tão pouco a onde. Havia Odila para todos os gostos: Com sotaque de caipira, com jeitos e trejeitos das professorinhas concursadas; silentes e carentes; com ternura e frases monossilábicas das  orientais hospedadas no Miami do Sul e as ousadas e sabidas  vindas de lugares distantes: Londrina, Buenos Ayres, Rio de Janeiro... E adjacências. Mas a verdadeira Odila era caiçara, filha de Itanhaém, de trajes simples e fáceis de serem despidas. Enigma guardado às setes chaves na sociedade e palco de considerações, às vezes exageradas e inverídicas, daqueles que do  trato carinhoso de Odila se orgulhavam dessas conquistas escuras.

Foram muitas as Odila’s em Itanhaém. Serão sempre inesquecíveis as Odila´s de Itanhaém. As noturnas Odila´s espalhadas nas praias, esquinas e lugares esquecidos de todas as férias, feriados e finais de semana em Itanhaém.

Passados anos que se foram,  Lourenço e os amigos da velha Conceição de Itanhaem nas casuais recordações falam com carinho e saudades da generosa Odila Pereira.

Odila que não se importava em não tomar sorvete, em não comer pipoca e não ir ao bang bang bagunçado do Cine Jangada...

Odila inesquecível Pereira de sempre!

Roberto J. Pugliese
www.pugliesegomes.com.br
Membro da Academia Eldoradense de Letras
Membro da Academia Itanhaense de Letras
Titular da Cadeira nº 35 – Academia São José de Letras

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