domingo, 27 de outubro de 2013

Os latoeiros que passeiam nas nuvens.


Os latoeiros que passeiam nas nuvens

Vitor Hugo Noroefé

“...o menino sentia um desespero sem limites e chorava em silêncio, pensando na pobre casa despojada de toda a sua infância.”

- Albert Camus (‘O Primeiro Homem’)

para o  Nino, amigo de infância, que já se foi

Os latoeiros da minha infância batem suas latas, agora transformadas em bacias copos canecas.

 Os latoeiros berram pelas ruas da minha terra de pó e fome – bicho-de-pé e areia.  Lá vou eu para dentro dos escaninhos do mundo, feito um grito um gemido um ronco.

E os latoeiros não dão trégua. Como eu,cheiram a banha rançosa, como é o cheiro da miséria. Como eu, fedem a picumã, como é o fedor da fome.

Esses latoeiros que vejo, pelas frestas da madeira podre do casebre, que gritam o pregão de seus artefatos, são laços que revigoram meu sonho. O sonho impróprio de gritar quando a fome esgoela, quando o  tempo gela e gelado fica fincando na marra seu prego enferrujado.

Ricardo Reis , esse negrinho mirrado, Micróbio mesmo, é meu parceiro de dias e noites sobre um frio vendo estrelas. Micróbio que conversa com os latoeiros da minha infância é quem traz eles até o  nosso poço. E me chama para distribuir água. A única graça é dar o balde cheio de graça e ouvir o riso de quem um dia foi meu susto.

Depois disso, divido com os latoeiros da minha infância as carnes velhas de churrascos passados. Esmolas latifundiárias de um tempo roto, vazio de esperança.

Lá vou com eles, pelas ruas de uma cidade morta. Eu ali, sentado na frente da padaria a torrar com os olhos o cheiro do pão; eu ali, no meio do mato, a esperar uma preá – ou será periá? – pra comer na noite.

E lá vamos todos nós, correndo por uma sanga altiva & engenhosa, que corta a cidade de cabo a rabo. Molhados de esgotos. Vestidos de dejetos.

Um cheiro de óleo & merda no ar: Micróbio, eu e os latoeiros-crianças acompanhamos, em correria, o mundo férreo da RFFSA. Roubamos lingüiças, melancias, arroz-de-leite – e dividimos o roubo entre vagões entupidos de soja.

O mundo é vasto? Pode ser. Mas o imposto não é o mesmo para todos.

Ricardo Micróbio nada teme. Tem o corpo franzino e a alma valente. O peito ronrona, mas a boca berra.

O ranho sempre escorrendo pelo nariz são nossos uniformes, sempre reconhecidos. Pousamos de marginais pelas ruas do centro. Dentro de um lugar de pouco mais de dez mil almas viventes,

se tanto.

Ainda assim, estamos acima dos latoeiros nos números da indigência presente e futura.

Essa decifração de miséria vem da boca vermelha de Ataliba:

“Torrando a merda, pra comer o torresmo”.

Com o frio doendo em cada pedaço do corpo, um dia eu e Ricardo Micróbio acompanhamos os latoeiros de minha – e nossa – infância. Equipados de blusões esfarrapados e congas rasgadas entramos em suas casas.

- A miséria tem cheiro e fedor –

A pampa é o sertão com frio.

Um caldo de ossos e sal. E isso é muito, roendo.

Ainda hoje, olhando o céu-chumbo, vejo os latoeiros da nossa infância cruzando as nuvens.

E Ricardo Reis batendo palmas e rindo, vai na frente carregando a gamela da vida perguntando sem parar:

- Tu tem Medo do quê? Eles são como a gente.

(Fortaleza, CE, 01.11.2012/13.09.2013)

Roberto J. Pugliese
presidente da Comissão de Direito Notarial e Registros Pùblicos

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