terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A briga. ( Memória nº 64 )


Memória nº64

Itanhaem Iate Clube: a briga.

 

O Iate Clube foi fundado em 1959 por ideia de um grupo de frequentadores da cidade  que adquiriram o Bar e Restaurante Santo Antonio, situado no Porto Novo, que dispunha de um pequeno salão de bailes e estratégicamente estava plantado à beira do rio.

 

Com o passar dos tempos o  clube foi crescendo e ampliando suas instalações. Lourenço pai fora um dos fundadores e desde então, todos familiares o frequentavam com bastante assiduidade.

 

Já adulto Lourenço colaborou na regularização junto ao Patrimônio da União – SPU de áreas lindeiras ao rio e, por ser quase vizinho da casa da família, sempre o tinha como uma extensão da casa, distante cerca de 100 metros.

 

Quando Lourenço mudou-se para o Tocantins, por força dos Estatutos pediu licença que lhe foi concedida pelo então Comodoro, cumprindo as regras estabelecidas tradicionalmente, desde que  foram idealizadas por um grupo de juristas capitaneados pelo professor Miguel Reale, sócio e frequentador da cidade.

 

No entanto, com a mudança de Comodoro, quando pediu a renovação da licença, esta lhe foi negada, sem qualquer argumento plausível. A pedido, o pai de Lourenço pessoalmente tentou convencer o Comodoro truculento que não deveria proceder desse modo, porém não teve êxito na empreitada.

 

Assim, foram emitidos boletos para cobrança e Lourenço teve que ingressar na Justiça contra o Clube. Foi algo muito doloroso e bem  pensado, pois  como assinalado, o Iate era parte de todo sentimento  que curtia por Itanhaém. Parte considerável de sua infância e juventude fora vivida na cidade no Clube...

 

Durante os anos que vivera na cidade fora por 3 mandatos seguidos secretário da OAB e 1 vez Tesoureiro, motivo que pediu a um ex presidente da Ordem, que não era sócio do clube e assim não haveria constrangimento, que ingressasse com as medidas judiciais para corrigir o ato arbitrário.

 

Nessa altura, constrangida e envergonhada, sua mãe deixara de ir ao final da tarde, como até então, no cantinho em que junto com outras sócias jogavam baralho e faziam fofocas...

 

Passado alguns dias Lourenço foi surpreendido por uma ligação de Fausto, seu advogado, que o Magistrado concedera liminar a seu favor, e que pedia um terminal de fax para mandar o texto. Gurupi, àquele tempo tinha um aparelho na Associação Comercial e assim, foi com Lourenço Jr. buscar.

 

O filho estava a par do que acontecia e nos seus dez anos de idade ponderou:

 

- Bom esse juiz. Ele poderia se manter neutro, pois você está aqui, longe e ele pode frequentar o Clube e ficar numa situação delicada na cidade... mas foi justo. (... )

 

A despeito da liminar o truculento e ignorante nas coisas da lei, cruzou com Lourenço pai e disse, que no Iate Clube quem mandava era ele e não iria deixar de emitir e cobrar os valores correspondentes à anuidade...

 

(...)

 

Ciente desse fato, Lourenço explicou ao pai que não iria endurecer e pedir a abertura de procedimento criminal por desobediência ao julgado, pois no fundo o Comodoro era ignorante, mas não era delinquente...

 

Ocorre que o Conselho Deliberativo tomou conhecimento dos fatos e deve ter alertado ao Comodoro que aí, caiu em si, e soube que poderia ser processado, condenado etc... Enfim, teria inúmeros aborrecimentos à sua frente.

 

Jhonn Berner o Comodoro correu à casa de Lourenço pai, que sem dar muita atenção, do terraço, distante uns dois metros do portão da rua, sem mandá-lo entrar, foi dizendo:

 

- Eu não tenho nada com isso. Não vou dar recado nenhum. Se quiser algo com ele, vá procurá-lo. Ele mora em Gurupi e não tenho autorização para dar outras informações.

 

O aprendiz de ditador, Comodoro  do Clube se desesperou. Procurou Fausto que também não deu muita trela...

 

Marson, Juiz de Direito em São Paulo, frequentador do Iate Clube e amigo de Lourenço foi incumbido de telefonar e tentar um armistício. E  num dialogo franco, Lourenço aquiesceu impondo três cláusulas:

 

- Primeiro expressas desculpas ao Lourenço pai, mãe e a mim. Depois quitação das dividas infundadas. Terceiro a licença de direito. Tudo em ata da diretoria para ser entregue por cópia ao pai e ao advogado para juntar nos autos.

 

(...)

 

Meses depois o Comodoro adoeceu e veio a falecer. Talvez pela vergonha que passou.

 

Roberto J. Pugliese


Presidente da Comissão de Direito Notarial e Registros Públicos –OAB-Sc

Membro da Academia Eldoradense de Letras

Membro da Academia Itanhaense de Letras

Titular da Cadeira nº 35 – Academia São José de Letras

Sócio do Instituto dos Advogados  de Santa Catarina

 

 

 

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