sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O ladrão. ( memória nº 67)


 

Memória nº67
A caneta, o dinheiro e a quebra de confiança.
 
O 22º cartório de notas da Comarca de São Paulo era administrado de forma exemplarmente liberal. Dr. José de Arruda Botelho, o tabelião, deixava aos cuidados do oficial maior, Pedro de Castro que delegava aos cinquenta escreventes as funções notariais para que, mediante comissão, praticassem os atos de estilo, permitindo que a remuneração obtida pelos emolumentos fosse dividida à razão de meio a meio e os extras, decorrentes de serviços praticados pelos escreventes destinassem apenas a quem executasse.
 
Desse modo quem mais trabalhasse mais ganhava e dentro da ordem jurídica, da ética e do bom direito os escreventes buscavam trazer serviços para o cartório e assim eram remunerados e o cartório arrecadava bem... Aliás, essa prática é adotada nas grandes cidades de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná...
 
Para Lourenço o patrão era um sujeito que não incomodava e bom camarada o prestigiava bastante, a ponto de nomear-lhe para representa-lo nas reuniões do Colégio Notarial...
 
Com apenas 22 anos de idade e menos de dois no exercício das funções Lourenço era da gama dos escreventes um dos que ficava na ponta entre os cinco que mais arrecadava. E também se destacava por mais conhecer a matéria.
 
Dentro dessa forma de trabalho mantinha aos seus cuidados um auxiliar que era seu datilógrafo exclusivo e um ofice boy. Rony, filho do advogado do cartório diariamente corria os registros imobiliários, as repartições fiscais e prestava alguns outros serviços, tendo certa intimidade com Lourenço. Sabia, por exemplo, onde guardava dinheiro vivo que não fora depositado e que na gaveta de sua mesa, além de dinheiro havia a caneta tinteiro que ganhara de seu pai e outros objetos de valores que ficavam trancados.
 
Numa segunda feira ao chegar para trabalhar percebeu que a gaveta fora arrombada, que a caneta sumira e o dinheiro que guardara na sexta feira também sumira... Avisou a direção do cartório e foi recomendado não chamar a policia.
 
O tempo passou. Nada de aparecer os valores. Rony sumira. Não vinha trabalhar... ( tornara-se o suspeito nº 01 )
 
Na quinta feira saiu à cassa do ofice boy pelas bocas do crime da Capital. Foi à salão de bilhares, inferninhos, locais de jogo onde sabia ou suspeitava que poderia encontrá-lo. Lugares que tinha conhecimento que a mãe, separada do advogado, também frequentava e não encontrou ninguém que pudesse dar alguma informação. Não estava em casa e não voltara ao cartório.
 
O dinheiro não era tão importante, mas a caneta que ganhara de seu pai queria de volta. Deu uma ordem na direção do cartório, no sentido de que iria a polícia caso a caneta não retornasse, pois sabia que fora o malandro do seu funcionário e não aceitaria quieto o roubo. ( houve arrombamento )
 
(... )
 
Na segunda feira a direção do cartório o chamou entregou a caneta e pediu para perdoar os  cruzeiros roubado.
 
Noutra ocasião, já na condição de advogado, seu ofice boy durante um mês falsificou os cheques que emitia para depósitos e pagamentos.
 
Lembra-se que seu escritório era à Rua Tabatinquera e o banco nas imediações da Rua Barão de Itapetininga, em razão do gerente, seu amigo.
 
Desconfiado do ofice boy, armou um  fragrante e assim que o rapaz ingressou na agencia, foi trancado a porta e ele detido.
 
( ... )
 
A família pediu que não chamassem a policia e celebraram o acordo, pagando os cheques emitidos em algumas prestações.
 
Roberto J. Pugliese
Presidente da Comissão de Direito Notarial e Registros Públicos –OAB-Sc
Sócio do Instituto dos Advogados  de Santa Catarina

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