quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O sujeito que ninguém tolera.


O inconveniente.

Há pessoas que não percebem: São evitadas. Os outros fogem quando as veem. Ninguém gosta de seus hábitos. São costumes que incomodam. São sujas: Enfiam o dedo no nariz enquanto falam. Falam quando comem e cospem quando falam. Não usam guardanapos. Não cortam as unhas. Não usam desodorantes. Seus cabelos são ensebados. Suas peles gordurosas.

 

São pessoas que evitamos encontrar. Fugimos se os destinos nos colocam a ponto de nos encontramos. Sempre disfarçamos e nos afastamos, pois falam de mais. Apertam as mãos quando já estamos à mesa e estão sempre com as mãos úmidas de suor, gordura ou graxa. Talvez creme, vaselina  ou algo que enoja: Lambuzadas, melecadas, molhas. Costumam nos abraçar como se houvesse atração recíproca, pois ficam longos minutos apertando seu peito no deles e te obrigando a sentir o odor de seu paletó surrado.

 

Quando conversam tiram remelas dos olhos ou ceras dos ouvidos. E sempre dão uma olhadela no material que se fixou nas unhas e dedos. Atendem o telefone móvel quatro ou cinco vezes durante a fala e impedem que saia de seu redor. São despossuídos da delicadeza do trato. Falam alto quando deveriam sussurrar e bem baixinho, quando nas longas e intermináveis conversas, deveriam ter a postação teatral.












 

Falam pelos cotovelos, joelhos e orelhas. Falam intimidades que não estamos interessados. Fazem comentários e referem-se aos outros com desdém. São pessoas que cansam por estarem próximas. Fofocas é o prato do dia. Da noite. Do ontem e do amanhã. Não tem assuntos relevantes, mas insistem em contar, afirmar e jurar que Elvis não morreu. E provam.

 

Sempre repetem que estiveram nas últimas férias em Paris, ou que fizeram um cruzeiro saindo de Santos em direção a Ilhabela e não enjoaram. Repetem que não aguentam morar no Brasil por isso e por aquilo, mas por isso e por aquilo vivem e sobrevivem do Brasil que menosprezam.

 

Minuciosos leem bulas de analgésicos, de balas para gargantas e até dos esparadrapos. Contam detalhes da última vez que estiveram almoçando num restaurante qualquer e experimentaram um prato saudável e delicioso que sempre recomendam: Macarrão ao pepino japonês. E não param por aí, pois contam como é que se prepara o tal macarrão. Também contam que foram à praia ou o que é pior, que dormiram com fulana ou beltrano... São minuciosos ao extremo com assuntos que não interessam. São indiscretos a ponto de mencionar que você precisa lustrar os sapatos, mudar o corte de cabelo ou mesmo, ir ao dentista pois está com tártaros expostos.

 

São exigentes: Afirmam que deixaram de ir ao cinema desde que as salas se instalaram nos shoppings. São contra esses centros comerciais. Explicam com eloquência e sabedoria impar o último filme iraniano que assistiram e se comoveram com a luminosidade que o diretor soube imprimir, dando o realce que não se tem nas produções caliofornianas.  Falam do time que torcem;  do jogador que foi expulso e da mulher do massagista como se fosse pertinente para os ouvintes. Descrevem com perfeição as regras oficiais de esportes qualificados:esgrimas, hóquei sobre patins e dardos. Gostam de jogar Damão e não conseguem admitir que no máximo você joga dominó. E também tecem considerações a respeito no novo código civil da Islândia. Há! São enfáticos em afirmar que detestam jogos de cartas, principalmente buraco e paciência...

 

O inconveniente hospeda-se na sua casa. Não vem te visitar, mas vem para ficar, tirando seu conforto, por longos e intermináveis trinta dias. Contrata seus serviços e não sugere pagar na data aprazada. Adia. Enrola e tenta dar o drible que todos já sabem: Mais que um chato, é caloteiro e te persegue. E o pior: pensa que é teu amigo.

 

Fica horas numa lenga-lenga explicando que não poderá ir aos festejos de final de ano da empresa em que trabalha por que isso e por que aquilo. Senta ao seu lado no ônibus e fala da sujeira e da falta de educação dos outros. Senta ao seu lado  no avião e conta histórias macabras que lembram atentados, acidentes e até sequestros.  Quando tem chance, faz questão de papear durante toda a fila do caixa, cujos quinze minutos se tornam horas de suplício.

 

Gosta tanto de orientar o próximo que se atreve a ensinar a garota do pedágio a preparar o troco. Chama os sobrinhos, netos e crianças da redondeza para ensinar a melhor técnica de empinar pipa. Não se contém e dá a deixa melhor para que se evite o fumo. Mas não larga do cachimbo, nem nas salas de espera do teatro, do barbeiro e da coletoria federal. Se acha um sabichão.

 

O inconveniente não tem educação básica. Nem mínima. Nem um pouco, pouquinho ou réstia que assimilou pela cultura do lugar. É grosso, grosseiro e enfadonho. Pensa que o mundo é dirigido por ele.Que comanda ou dá ordens. Pensa que suas falas são decretos e não percebe que aos vinte anos já está decrepto.

 

Gosta de falar ao telefone fixo e móvel: Fala no trânsito quando está dirigindo; na igreja enquanto os outros rezam e fala na ante-sala do chefe, fazendo com que este o aguarde, quando o convoca.

 

Seu automóvel tem instalado potente aparelho de som cujo valor supera o do próprio veículo onde se encontra. São milhões de decibéis lançados aleatóriamente para o ar, obrigando a toda Comarca ouvir o que não quer. Tem péssimo gosto musical.

 

Pensa que é bom motorista. E segue seu caminho sempre achando que está certo e não incomoda. Nunca dá passagem na estrada, permanecendo há 50 Km. por hora na faixa da esquerda, vendo os outros ultrapassarem pela direita e reclamarem. Ou esquece o pisca-pisca ligado durante quilômetros enganando a todos que seguem atrás. Ou dirige com a mão para fora. Ou breca de repente por que lembrou que irá dobrar à esquerda.

 

O inconveniente é conhecido por CHATO, PÉ NO SACO, XAROPE, BITOLADO e SEM DESCONFIOMETRO. A maioria das vezes é um parente do cônjuge e em alguns casos, é o próprio ex cônjuge. Mas também é aquele que pensa que é amigo, que é de casa, que é a pessoa que você pode confiar ou até, o salvador da pátria. Por circunstancias, além de inconveniente, homem ou mulher e o que é pior, o indiscreto indeciso, é burro, pois pensa e não raciocina. Pensa alto e fala sozinho para que todos ouçam. Pensa alto ao seu lado e sempre quer sua opinião. Também exige que ouça a própria  opinião.

 

Também conta piadas. Lorotas longas inexplicáveis e sem graça. Conta trechos do livro que você irá ler ou passagens do filme que irá assistir. Só um pedacinho, tão restrito, porém o bastante para quem entende e sabe interpretar, perca a surpresa da obra em cartaz. O chato de galochas para alguns é também conhecido por mala sem alça. Mas na verdade é um contêiner de cansaço.

 

Quando criança berra sem parar. Chama o pai, ou a mãe, ou seja quem estiver ao seu lado, interrompendo conversas e pedindo absurdos. Não limpa as narinas. Não limpa a boca. Não lava as mãos e bate nas outras crianças porque não sabe porque. Desde criança se torna inconveniente a pedido dos pais que mandam recitar trechos de Eça de Queiroz para os padrinhos que não tem o mínimo interesse cultural. Também não empresta seus brinquedos para os amiginhos que não consegue conquistar.

 

Enfim, o inconveniente, na melhor das hipóteses sempre é inconveniente. Principalmente se for o cunhado, a sogra ou o chefe da repartição. Ele sempre esquece a carteira e tem alguma desculpa na ponta da língua para não rachar o jantar, o churrasco ou o aluguel da casa de praia. Nunca chega na hora combinada para ir ao futebol. E não pode ver uma estrela global que quer tirar fotografia ou contar um trecho da novela que assistiu muitos anos atrás... Ele realmente é chato. Um chato que vale por dois, três, quatro...

 

Observe.  ( de longe )

 

Roberto J. Pugliese
Autor de Terrenos de Marinha e seus Acrescidos, 2009 – Letras Jurídicas.
Membro da Academia Itanhaense de Letras
Titular da Cadeira nº35 da Academia São José de Letras.

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