sábado, 9 de maio de 2015

Confisco da poupança e meios circulantes. ( memória nº 116)


Memória nº 116
Collor –

 

Lourenço chegara de mudança no início de janeiro de 1990. Viera com a família se estabelecer no Estado criado pela Constituição Federal, no qual o fluxo migratório era bem grande, com pessoas vindas de todos os cantos do país que chegavam trazendo entre outras bagagens muita esperança.

 

Comprara duas casas na cidade. Uma delas reformara para acomodar a família. Casa grande, com ótimo quintal, quatro dormitórios, térrea, próxima ao centro da cidade, que anote-se, não tem um centro verdadeiro, mas apenas uma região mais central.

 

A outra mais distante, porém uns cinco ou seis quarteirões à oeste, em direção à rodovia federal.

 

Estava se acomodando na cidade, no Estado, na vida nova bem diferente de Itanhaém, de onde viera; de São Paulo onde nascera, enfim, do sudeste onde sempre vivera, quando dois ou três dias antes de dar posse ao sucessor, o então presidente da República José Sarney decretou feriado bancário.

 

Collor de Melo assumiu e tomou medidas radicais, entre outras bloqueando  os depósitos bancários e aplicações em investimentos financeiros e outros ativos, de forma a deixar a população brasileira perplexa e sem dinheiro.

 

Para Lourenço, fora de seu habitat, sem movimento e clientela no escritório que recém instalara, foi dramático. Não tinha a quem se socorrer e isolado, no meio do país, a solução era enfrentar com coragem e dignidade a surpresa que fora o golpe do presidente  irresponsável.

 

Sem recursos hábeis, pois de surpresa teve bloqueado os guardados para enfrentar o início de nova vida no Estado do Tocantins, dedicou-se mais às aulas da Fafich onde fora lecionar e se empenhou no desenvolvimento de sua banca de advocacia.

 

Sem dinheiro se quer viajar e visitar familiares em São Paulo poderia faze-lo, pois distante 1.300 km o custo dessa movimentação não era pouco...

 

Saudades.

 

Muitas saudades dos pais, dos amigos, do mar, da Mata Atlântica...quando numa manhã recebe no seu escritório telefonema de Tambaú, na qual o escrivão de polícia da delegacia local o intimava a comparecer para esclarecimentos...

 

Tambaú, no interior paulista, distante de Gurupi, aproximadamente 1.000 km para prestar depoimentos num inquérito que estava envolvido fulano de tal, conhecido por Luiz Barbudo, radialista que mudara de Itanhaém para lá.

 

Problema sério.

 

Sem dinheiro e sem saber o que fazer, decidiu não dar atenção e aguardar eventualmente intimação por precatória, inclusive para saber o que se tratava. Recorda-se que a fama do Luiz Barbudo em Itanhaém não era boa no que diz respeito a cumprir obrigações financeiras e que advogara para ele em algum caso sem muita relevância.

 

Tempos depois quando a situação econômica própria melhorou, resolveu ligar para a mesma delegacia de polícia pois não fora intimado oficialmente e questionou o que se passara e se teria mesmo que ir prestar os esclarecimentos, sendo informado que tudo já se resolvera e que estava arquivado o inquérito.

 

Momentos difíceis e preocupantes de um tempo que passou e permanece na memória. Momentos preocupantes que ajudaram criar o branco de sua barba e rarear seus cabelos.

 

Collor traíra o país.
 
 


 
O tempo passou e Lourenço coordenou, já na condição de presidente da OAB em seu primeiro mandato, a primeira passeata no Estado do Tocantins para provocar o impedimento daquele presidente sem vergonha.
 
 
 


 

Roberto J. Pugliese
( Foi presidente por dois mandatos da OAB-TO-Gurupi )

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