sábado, 12 de dezembro de 2015

A Alma ou Lama ? ( até quando ? )


Brasil de lama.

O Expresso Vida foi brindado com o texto muito consciente e
bem elaborado revelando num estilo sarcástico a triste
realidade contemporânea do país.

 

De autoria do professor Fernando Pinheiro Pedro, o artigo
é  fruto da indignação dos críticos. E a crítica é dever da
 inteligencia.

 

Vejamos:

A LAMA DA SAMARCO É A LAMA DO BRASIL

( Antonio Fernando Pinheiro Pedro  é advogado (USP), jornalista e consultor ambiental.
 Sócio diretor do escritório
Pinheiro Pedro Advogados. Integrante do Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional,
membro da Comissão 
de Direito Ambiental do Instituto dos Advogados Brasileiros – IAB e da Comissão Nacional de Direito
 Ambiental do Conselho Federal da
Ordem dos Advogados do Brasil – OAB.  É  Editor- Chefe do Portal Ambiente Legal, do Mural
 Eletrônico DAZIBAO
 e responsável p
elo blog The Eagle View.)

 

 

A lama da SAMARCO, mineradora controlada pela VALE
e BHP Bilinton,
atingiu o litoral e, agora,  tinge o Oceano Atlântico...

 

No caminho, da barragem rompida até o mar,  a lama da SAMARCO
enlameou paisagens,
vilas, cidades, rios, vales, corpos...

 

Também enlameou governos, órgãos de regulação e fiscalização, políticas
públicas,  partidos
políticos, políticos de carreira, políticos sem carreira, políticos sem partido,  
causas ambientais,
 ambientalistas sem causa, imagens corporativas, currículos profissionais,
mídias midiáticas,
midiáticos sem mídia, autoridades e credibilidades. 

 

A lama da SAMARCO é a lama do Brasil.

 

A lama da SAMARCO matou pessoas, matou animais, liquidou ecossistemas,

destruiu floras,
 riscou do mapa famílias, propriedades, pequenas e grandes economias.
Enxovalhou a vida nos
estuários e corais.

 

A Bacia do Rio Doce  é a quinta maior bacia hidrográfica brasileira,
 abrange dois Estados
 (Minas Gerais e Espírito Santo) e tem tamanho equivalente a vários
 países da europa
(área de 83.400 km²). Esse mundo todo desagua no Oceano Atlântico.  
No entanto, essa
grandeza territorial revelou-se administrada por pigmeus.

 

A lama da SAMARCO revelou o quanto pode ser pernicioso o financiamento
privado
de campanhas
 eleitorais. A vida de crianças, velhos, pais e mães de família - foi
sepultada pelo
silêncio cúmplice
de lideranças políticas que não poderiam - até mesmo pela posição
que ocupam
 no cenário nacional - se calar, e mesmo assim covardemente o fizeram.

 

A lama da SAMARCO revelou a incompetência nacional - a falta de
profissionalismo
público e privado. A grande arrogância de gente muito pequena.

Restou uma sensação de absoluta impunidade no ar... e de desesperança

e desamparo,
na lama.

 

Como velho profissional, tenho a sensação, que percebo ser partilhada por outro
experiente
profissional com o qual já trabalhei - o biólogo Mário Moscatelli, que tudo o que
fizemos e ainda
 fazemos, em prol da melhoria da performance na resolução de crises ambientais,
não é registrado
 pelas gerações de profissionais que se seguem.

Estaríamos diante de uma geração de seres absolutamente incapazes

de aprender com a
 experiência passada, com a experiência alheia e até mesmo com a
própria? Se positiva a
 resposta, não há outra classificação possível - quando essa incapacidade
causa tamanha
tragédia:
 idiotas, desmemoriados, arrogantes e incompetentes!

 

Enquanto isso, afundam na lama da SAMARCO as economias pessoais,
economias locais,
economias regionais, circuitos econômicos e a macroeconomia de toda
uma bacia -
até mesmo
do litoral.

 

O judiciário mostrou, também, a que veio: para nada!

Lenta, hesitante, despreparada, desaparelhada - a justiça, mais uma vez,

tardou,
 tarda e falha.
 Magistrados, promotores, procuradores e advogados se engalfinham sem
nada resolver.
 Pouco contribuiram, até agora, para a "Administração da Justiça" - como reza a
Constituição.

Multas, valores, tempo, modo e condições de cumprimento de obrigações...

passíveis de
serem emergencialmente acertados, quando a pluma de poluição ainda
estava circunscrita às
primeiras cidades mineiras, houveram que esperar fins de semana, feriados,

expedientes forenses,
 disponibilização de helicópteros, entrevistas na mídia... e, como a lama da
SAMARCO, d
esaguaram no oceano, afogando a credibilidade do direito ambiental brasileiro... 

 

A engenharia nacional, da mesma forma que o Direito, protagonizou outro
papelão. Bóias
de contenção de óleo apostas para conter coluna de lama, como mostrado
em fotos e vídeos
na TV, deveria ser caso para processo administrativo no Conselho Regional de
 Engenharia... 

 

A ausência de planos eficazes de contingência, de emergência, de defesa civil, de
resgate de
 fauna, inctiofauna, flora,  prevenção e proteção de fontes e mananciais,
revelou algo já
 sentido
na última copa do mundo: só tiramos onda... mas, quando o jogo é pra
valer, tomamos
 de sete...

 

Tomamos de goleada da poluição e dos poluidores. E vamos dar a eles o
premio da
impunidade.

 

Quanto aos mortos - ainda desaparecidos - permanecerão na cova
quilométrica,
vermelha e
cimentada, que só será removida por britadeira, após a seca.

 

A lama da SAMARCO é a lama que nos cobre a todos de vergonha neste brasil.
Um Brasil
 cujos governos matam, por incúria, cinquenta e seis mil pessoas por ano, vítimas
da criminalidade,
enquanto seus militantes imbecis reclamam do fato de pessoas de bem se
solidarizarem
cento e vinte e nove mortos no atentado de Paris...  Um Brasil que nos faz chorar,
a todos, pelos
danos ambientais ocorridos com o desastre de Mariana, enquanto verbas - que
deveriam ser
 dedicadas ao socorro das vítimas - pagam manifestação de solidariedade
 às
mineradoras
envolvidas na lama, na própria Mariana, com apoio de autoridades locais.
Um Brasil
que assiste a
eventos carregados de pompa, egocentrismos e vaidades, lotarem resorts e
centros
de convenções,
com gente perfumada e engravatada, deslumbrada consigo própria, para
falar de meio
 ambiente... sem que sequer um desses "míseros" janotas pisem na lama,
para estender a
mão a uma vítima do desastre - e ainda consigam fazê-lo com coragem e
competência.
Um Brasil que forma profissionais, que querem ganhar dinheiro com direito,
engenharia
e gestão ambiental, sem procurar, antes, pelo menos aprender a trabalhar...

 

Os portugueses acreditavam, ao direcionarem o esgoto das cidades coloniais
para os rios,
que invariavelmente passavam "nos fundos" das casas, que "a água a tudo lava, a
tudo leva"... e o resultado todos nós testemunhamos hoje.

 

A lama, porém, nada lava, nada leva - só atola, afoga, conspurca e abodega.

 

A lama da SAMARCO não é causa, é resultado do rompimento das barragens
da
imoralidade,
 com a liberação de todo tipo de rejeitos, que hoje ocupam o cenário nacional e
contaminam
 o ambiente no Brasil.

 

Como disse outro velho amigo e professor, antropologo Mauro Cherobin, o
Rio Doce prova o amargo de nossa triste realidade.

 

A lama da SAMARCO é a lama do Brasil: o estado da arte do grande
desastre.”

Que pena que a triste realidade que estamos vivendo se
 coaduna perfeitamente com o que o professor Fernando
elaborou. Até quando?

 

Temos que mudar. Mudar tudo. Reformar o país. Estamos
saturados de tudo que estamos vendo, vivendo,
sofrendo e vivenciando...

 

Roberto J. Pugliese
Cidadão cananeense.
Membro da Academia Eldoradense de Letras, de Eldorado, Sp.
Membro da Academia Itanhaense de Letras, de Itanhaém, Sp.

Nenhum comentário:

Postar um comentário