terça-feira, 23 de junho de 2020

Travessia - crônica do professor Sérgio Sérvulo da Cunha

O Expresso Vida apresenta a crônica de ilustrado professor de direito, integrante dos quadros eméritos do Conselho Federal, Conselho Seccional de Sâo Paulo, Diretoria da Subseção de Santos da OAB, cujo curriculo e láureas são de riqueza extraordinária.

Boa leitura.

  
                                     

"12 de JUnho  -

  Travessia

A voz do meu amigo, ao telefone, deixa transparecer extrema irritação. Eu a percebo, e, nos meus pensamentos, analiso.
Da nossaexpectativa de vida jamais fez partealgo como o sorrateiro e invisível coronavirus. Nossos medos, por isso, estavam insulados dentro do possível (do que julgávavamos possível). Também não se incluía aí, como concebível, a insanidadede algumas lideranças e segmentosinfluentes.
Porque este é o óbvio ululante: quanto menos dure a quarentena, tanto mais irá durar a pandemia; e quanto mais durar a pandemia, maior a duração do isolamento: 2 + 2 = 4. Vejam que, tendo relaxado um exitoso isolamento, a Alemanha acaba de recuar, dado o recrudescimento da epidemia.
Aos estudiosos de ética costuma ser apresentado, como problema teórico, o chamado “dilema do bote”.  Quando vários náufragos se empilham num bote salva-vidas, o mais forte impede que suba, nele, um jovem: seu peso colocaria em risco a vida de todos. E se abre uma discussão: porque não atirar à água os feridos e os idosos?
Mas não estamos, agora, diante de um dilema: reabrir nossos negócios, ou fechar as portas. Estamos condenados, antes, a atravessar esse deserto.A realidade do deserto é aspereza, falta de ar e de alimento, penúria do corpo e da alma.
Mas, se não deixamos de ser humanos, temos dentro de nós, para essa travessia, os atributos da humanidade: a razão e a solidariedade. Elas nos acordam para os fios com que se tece a trama da vida, para o vínculo entre a desordem cósmica e a desordem social. Não permitamos que a irracionalidade contamine a nossa humanidade. A Constituição (art. 196) diz que a saúde é direito de todos, e é dever do Estado reduzir os riscos de doenças. Há dinheiro suficiente, no tesouro da União, para socorrer os desempregados, as micro e pequenas empresas. E o governo  disponibilizou, aos bancos, muitas vezes mais do que aos vulneráveis. Já sabíamos da desigualdade, que acreditávamos, entretanto, fazer parte do normal. Mas não éramos capazes de medir seu custo em vidas humanas, agora revelado na política suicida dos farsantes governamentais.
Ao horror do virus, somam-se o fatalismo criminoso, a insensibilidade moral e o oportunismo. O coronavirus mata, o bolsonavirus esfola."

Roberto J.Pugliese
editor
advogado remido
Titular da cadeira nº 35 da Academia São José de Letras



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