segunda-feira, 1 de junho de 2020

Um conto de Antônio Paixão !

O Expresso Vida apresenta um conto escrito pelo poeta Antônio Paixão.

A leitura atenta mostra claramente a triste situação que as cabeças que pensam estão analisando, ainda que de modo humurístico, o desgoverno implantado pelo Capitão de Xiririca, que por acaso, é o presidente da República.

Boa leitura




"o aniversário do poeta

Depois de se recuperar do consumo de todo um tonel de vinho de São Roque em companhia de Beppe Molisano, por ocasião do aniversário do Poeta, António Paixão nos envia o seguinte conto:
O aniversário do Poeta.
Aproximou-se mais um meu aniversário, uma efeméride que continuamente me surpreende deprimido e desalegre, como consequência de minha triste existência. Neste final de abril de 2020, todavia, sempre que não me encontrava entorpecido pelo meu retiro voluntário no tonel de vinho de São Roque, no interior do Estado de São Paulo, o meu estado de espírito tornou-se particularmente lúgubre, penoso e sombrio. Assim, tenho buscado a imersão total no bálsamo de uva, com poucos momentos de sobriedade, para me esquecer dos tristes momentos em que a pandemia devassa a saúde do povo brasileiro e um desgoverno melífluo destrói o futuro do País.
As notícias que acompanho pelo telefone celular, sempre que vou ao banheiro, agravam minha depressão. Num destes momentos, em meados de abril, lembrei-me que, durante meu isolamento voluntário, tive apenas uma visita de um sapo falante, a qual relatei no conto “Diálogo com o Sapo” e uma aprazível visão de minha muito amada Dulcinéia, numa lagartixa na parede da cantina, que me proporcionou a inspiração para o poema “Venus Pugnax”, expressão latina para Vênus Combativa.
Foi então que me ocorreu a vontade de ter companhia para o dia primeiro de maio, data dedicada aos trabalhadores, quando celebraria o meu aniversário. Lembrei-me imediatamente de meu amigo, o Beppe Molisano, um italiano de Nápoles homiziado, não se sabe bem por que motivo (e ninguém tem coragem de perguntar-lhe o porquê), no bairro da Mooca, em São Paulo. Beppe, como é sabido por todos nos círculos mais decadentes, esquálidos e ignóbeis da Paulicéia, é um infame cantautor, poeta, ajudante de pedreiro, peixeiro, cozinheiro e putanheiro de minha aproximada idade, que trabalha apenas quando forçado pela mais amarga necessidade. Ele se define com pouca modéstia como um polímato renascentista.
Na privacidade do meu banheiro, liguei para o Beppe, que me respondeu naquele bonito sotaque musical da língua napolitana enriquecido pela cadência do dialeto da Mooca, que o faz soar como o falecido cantautor Adoniran Barbosa, de saudosa memória. “Buongiorno, grande giornalista e poeta. A que devo l’onore e la felicità do seu telefonema?”, disse-me ele de pronto.

 “Sabe, Beppe, no dia primeiro de maio completarei mais um aniversário. Estou um pouco deprimido com a situação da pandemia e com a política do País, aqui em meu tonel de vinho na cidade de São Roque, e gostaria de convidá-lo para um trago desta preciosa poção que me acolhe, abriga e acalenta. Seria na hora do almoço, lá pelas 13:30 horas e você pode trazer uma quentinha de papel alumínio ou marmita de metal com aquele saboroso bacalhau italiano, que sabe tão bem preparar. Comeríamos dentro do tonel, semi imersos. Venha só, o local não se presta à companhia feminina. Naturalmente, você terá que tomar um banho antes, ainda que não seja um sábado, ahahah”, disse-lhe.

“Ho capito, António”, respondeu-me ele, “você me invita per o seu compleanno em São Roque e eu devo ainda preparar il mio divino Baccalà alla Molisana?”

“Sim”, respondi com aquela infinita paciência que me foi dada por Nossa Senhora de Fátima no meu nascimento. “Mas eu entrarei com quantidades navegáveis deste primoroso vinho que faz a inveja de reis, príncipes, cardeais e juízes corruptos da Lava Jato. Você não irá recusar?”

“Senta, io non sono deprimido. Os michês delle puttane caíram per molto meno della metà. Non ignora que eu sempre preferí a libertà oferecida por uma puttana do que a schiavitù imposta pelo matrimônio. Comunque, va bene. Auguri. Ci sarò”, respondeu e desligou.

No dia e horário combinado, Beppe Molisano chegou à vinícola a bordo de sua Lambretta ano 1969, de cor vermelha Ferrari original, apenas um pouco desbotada, pelo decorrer de meio século de sua fabricação. No bagageiro, trazia duas quentinhas de papel alumínio, talheres e copos de plástico. Como planejaram comer dentro do tonel, colocou também uma pequena toalha de rosto, para poderem limpar a boca e as mãos, se necessário. Tudo no mais alto estilo, de fazer inveja aos protocolos do Vaticano e da Farnesina.

“Bem-vindo, Beppe”, disse-lhe com o meu melhor sorriso jornalístico, aquele que é visível e deliberadamente falso, ao contrário do evangélico, aquele que é falso mas aparentemente sincero, na expectativa de logo poder comer meu almoço de aniversário. “Pode tomar um banho lá no fundo e vir despido para o meu tonel. Mandei colocar mais uma banqueta de pernas altas na posição oposta à minha. Tem também uma pequena bandeja sobre a boia, onde você poderá colocar a sua marmita, o copo e os seus talheres. Farei o mesmo do meu lado”.

Banho tomado, Beppe acomodou-se em sua posição no tonel e foi logo dizendo : “Fiz também um poema para ti. É sobre a situação presente, com a qual tenho familiarità, pois la politica è l’ùnico ambiente onde una puttana se sente à vontade. E de puttane eu tenho vários pós-doutorados, inclusive na Rua Augusta, na Major Sertório, na Rego Freitas, no Jockey Club e noutros centros de excelência de San Paolo”.

“Eu também fiz um poema para si, Beppe, é um esforço ecológico, neste momento em que o desgoverno Bolsonaro tudo destrói no País, inclusive nossas florestas” respondi. Mas logo emendei “de qualquer maneira, estou com fome, vamos logo abrir as quentinhas e provar este seu prato maravilhoso”. Em menos de meia hora, havíamos dado conta do conteúdo das marmitas. “Que delícia; que extraordinário; é único”, comentei. “Sempre acreditei que somente os portugueses soubessem fazer bem o bacalhau, mas você me provou que os italianos não ficam nada atrás”.

“Sai, António”, respondeu-me o Beppe, “o baccalà também é um piatto italiano. Piatto poveiro, come in Portogalo. No norte, no Veneto, fazem alla maniera Vicentina, com cebola e creme de leite. Em Bolonha, fazem o Baccalà mantecato. Em Livorno, na Toscana, fazem o Baccalà a Livornese. È tutto raggionabile, mas nel sud, no Molise, em Campobasso, è una meraviglia”. “Como è feito o Baccalà alla Molisana, Beppe?”, perguntei.

“Bene”, respondeu, “o bacallà deve essere dessalgado de véspera. No giorno seguinte, ele deve essere cortado em piccoli pedaços, empanado com farina di grano duro e passare por uma lieve frittura no óleo d’oliva do Molise ou, na pior hipótese, in quello della Puglia, com bastante aglio picado. Depois, retira-se o baccalà e se coloca pedaços piccoli de berinjela, cebola, tomate, pimentão e brocolli, na mesma panela, por soltanto 4 minutos. Nel forno pré-aquecido, leva-se a mistura do baccalà com le verdure e abbastanza óleo d’oliva, coberto por farina de pane, por cerca de 30 minutos. È pronto.”

“Vamos então ao vinho, Beppe?” “Certo”, respondeu. Depois da degustação de algumas dezenas de copos, o que necessitou a complementação do nível de vinho no tonel por funcionários da vinícola, Beppe observou: “Parece um Sangiovese”. Sem maiores indagações filosóficas, por despiciendas, respondi ter ficado feliz com a sua aprovação e sugeri que passássemos aos poemas, recitando primeiramente aquele feito por Beppe Molisano em minha homenagem:

BOLSONARO MILIZIANO FASCISTA.
Beppe Molisano
Bolsonaro miliziano fascista,
distrugge la foresta,
ammalia le donne,
fulmina la cultura,
ammassa i neri e
uccide i nativi.
È un lunatico terrapiattista
che affonda la salute del popolo,
aiuta i banchieri e diventa
un vero terrorista.
Il Brasile diventa comunista,
per combattere l’ingiustizia.
Dappertutto, per la strada
C’è soltanto un forte urlo:
Bolsonaro, vaffanculo!

“Genial, meu caro Beppe. A Humanidade agradece sua importante colaboração na luta por um mundo melhor, onde sejam respeitados os melhores valores éticos. De minha parte, fico sensibilizado com o seu presente de aniversário, que me ilumina a alma”. “Prego”, respondeu-me Beppe.

“Gostaria agora de declamar o poema que fiz em homenagem à ocasião de nosso encontro. É também sobre o desgoverno pro bono malum de Bolsonaro.Tudo bem?” “Certo”, disse-me Beppe.
A PASSARADA
Por António Paixão
No desgoverno do Cão,
a floresta caiu em destruição.
Incêndios, motosserras e machados.
Outros meios também foram usados.
O que era a vida, virou a morte.
Foi esta a nossa triste sorte.
Nas águas, terras e ar,
nenhum ser sobrou para contar.
Revoltada, foi ela a arara,
quem mandou o pombo convocar
uma manifestação da passarada,
para do mundo chamar a atenção,
para tamanha maldade,
para tamanha devastação.
Nos galhos calcinados,
lá estavam empoleirados
o bem te vi, o colibri, o vivi,
o suiriri e o pitiguari.
Juntas ficaram a rolinha,
o quero-quero, a andorinha e
a risadinha.
Formosos e em atenção perfilaram-se
o carcará, o sabiá, a coruja,
o carapinhé e o falcão.
Com presteza, aproximou-se
o tucano com seu enorme bicão.
Assumiu a presidência o urubu,
quem logo mandou a maritaca se calar,
para depois denunciar
a indecência e a tristeza
dos crimes contra a natureza.
Foi então que, em revoltada canção,
Gorjearam jacu, anu e udu:
“Bolsonaro, chegou a sua hora,
para o bem de todos,
e felicidade geral da Nação,
vá logo embora!
E aproveite para tomar no cu.
“Brillante, Carissimo”, disse-me Beppe. “C’è ancora vino da bere”. “Então vamos terminar com o tonel, que tem mais de onde veio esta maravilha”, respondi empolgado."

 Com os aplausos o Expresso Vida mais uma vez deixa patente a boa literatura expressa pelo poeta e cronista Antonio Paixão.


Roberto J. Pugliese
editor
www.caminhosdolagamar.com.br


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