Carta revelando e justificando o voto para presidente e demais cargos.
Meu amigo,
Quem conhece minha origem na pujante cidade de São Paulo,
conhece a minha infância, adolescência e juventude, sabe que a minha família
sempre viveu confortavelmente do trabalho do meu pai e sem esbanjar, sempre com
carro na garagem, escola particular,
plano de saúde e residindo em bairros elegantes de classe média alta...
Frequentávamos o Tennis Clube, as sociais do Morumbi e
por contestar o regime, também sabe que fui expulso do Círculo Militar, porém
reintegrado em seguida. A casa na praia era pé na areia, tivemos barcos,
lanchas e fomos sócios do sofisticado e cobiçado Iate Clube. Nossos amigos eram
bem colocados na sociedade e nunca precisamos das autoridades para sobreviver
bem, com dignidade e privilégios.
Solteiro, pelo trabalho, já era proprietário de sítio
produzindo chá e abacaxi, apartamento com porteiro, elevador, três dormitórios
acarpetados à 6 quadras da elegante Av. Paulista, carimbando a condição de
privilegiado no país de miseráveis. Tive vários escritórios e lecionei ao longo
de toda a vida e até hoje ainda me incomodo trabalhando, a despeito dos 77
anos, vivendo de renda que construí e me permite frequentar hotéis e
restaurantes bons e dar ao luxo de morar numa modesta chácara em Joinville.
Minha aposentadoria é simbólica e vergonhosa.
Enfim, sem faltar ao respeito nunca chamamos meu pai de
Senhor e dispensando liturgias e cerimonias, também sabe que sou Católico e
sigo a linha de Don Pedro Casaldaliga, Don Paulo Evaristo Arns, Pe. João XXX e sacerdotes
que integram as lições da Teologia da Libertação.
Não preciso do Poder Público, vivo bem, pago meu plano de
saúde posso passear boa parte do tempo. Mas voto convicto na esquerda, porque
busco um país justo, menos desigual, e que tenha governo que atenda a todos que
precisam dele se valer para sobreviver com menos injustiça e minimamente digno. Que olhe aos que precisam estudar, que
precisam de assistência social, assistência médica, moram nas ruas, nas
favelas, nos becos e palafitas.
Portanto, voto pelos meus amigos caiçaras com quem
convivo desde que nasci; pelos pescadores, pelos negros pobres, pelos que
precisam de creche; pelos meus irmãos indígenas e quilombolas. Voto na esquerda
pelos os bastardos da riqueza do Brasil. Pelos que trabalham, constroem o luxo
de outros e não se livram da própria fome. Voto pela cultura, pelas letras,
pelo cinema nacional, pelas universidades e ensino fundamental, postos de saúde
e remédios para quem precisa. Voto em que defenderá a Petrobrás, o Banco do
Brasil e as empresas públicas, minerais, petróleo, meio ambiente e todo
patrimônio singular e incomensurável do país. Voto para termos médicos em todos
os cantos perdidos e ilhas longínquas e professores preparados.
Não é suficiente ser caridoso, mas agir com firmeza
combatendo através do voto consciente em representantes que olhem para os
vulneráveis, pobres, doentes e para que o Brasil, realmente, se torne um país
menos injusto. Que não volte para o mapa
da fome e tenha emprego para todos que desejam trabalhar.
Enfim, votarei na esquerda e no Lula, confiante de estar
cumprindo meu dever político, social e cívico. Votarei, como sempre votei, na
esquerda em defesas daqueles que, iguais à você, não sabem gritar e pedir
justiça. E conto com sua consciência para que também cumpra o seu dever em
defesa de um país melhor.
Abraços, Roberto
Editor