terça-feira, 19 de maio de 2020

Viva o MMDC - 23 de Maio de 1932





23 de Maio, data a ser lembrada sempre.

A crise econômica imposta pelo fechamento da bolsa de Nova York em 1929 provocou danos de monta no Brasil, cuja monocultura cafeeira era o esteio das exportações, concentradas para os Estados Unidos, causando pânico às elites financeiras, política e à classe dos ruralistas, então dominantes.



 ( Monumento à Paulo Virgínio na rodovia que leva seu nome no Município de Cunha)

Júlio Prestes de Albuquerque, então governador de São Paulo, foi nesse clima de incerteza vencedor das eleições presidências de 1930 provocando a insatisfação de gaúchos, que sob a liderança de Vargas pegaram as armas e impuseram ao país um governo espúrio, derrubando do cargo o carioca Washington Luiz Pereira de Souza, ex governador dos paulistas.

Para o ditador prevaleceu sua vontade sob a força do chicote. Com a bombacha e as esporas que se habituara nas planícies do sul, não titubeou em empastelar jornais de oposição, nomeou interventores nos Estados cassando os então governadores eleitos e os substituindo por seus asseclas. Num lance ilegítimo e grosseiro amordaçou o povo brasileiro como na práxis própria dos ditadores que se legitimam no poder pela força e não aceitam opiniões contrárias.

O povo paulista não aceitou e foi  para as ruas... Gritaram, pediram a Constituição... e a rebelião tomou vulto incontrolável. Santos, Campinas, Ribeirão Preto, Taubaté tumultuadas pelos gritos e manifestações populares.

Há 88 anos passados, no 23 de maio de 1932, os acadêmicos do Largo de São Francisco saíram as ruas protestando contra o arbítrio do caudilho impondo à São Paulo um interventor, desrespeitando a vontade popular e mantendo o país sem Constituição.

Os paulistas não aceitavam a imposição arbitraria de um gaúcho  castrando a autonomia própria da laboriosa província que, àquela época, já se orgulhava da singular condição de sua próspera industrialização e única exportadora dos grãos que geravam divisas para o pais.

Exigiam o levante contra a ditadura e ao meio da balburdia das passeatas, Márcio, Miraguaia, Dráuzio e Camargo estudantes de direito, foram baleados e mortos por soldados de Getúlio Vargas.

A sigla MMDC ficou gravada, simbolizando a truculência do ditador  e estimulou eclodisse em 9 de julho do mesmo ano a Revolução para se impor o regime democrático suspenso há mais de dois anos.

Alguns Estados prometeram aderir. Mandar tropas e material bélico. As promessas de ajuda não chegaram. Não vieram os soldados nem armas  e, traídos pelos patrícios acovardados, restaram os paulistas lutarem sozinho.

Os operários despiram-se dos uniformes. As mulheres ajudaram nas enfermarias. Crianças, pré adolescentes, transformaram-se em estafetas e auxiliares nas repartições militares.

O povo paulista se levantou. Todos unidos queriam armas para enfrentar o potencial bélico de 350 mil soldados oriundos de outros 20 Estados e do Distrito Federal.

Apenas 35 mil paulistas foram para as trincheiras. Batalhas épicas numa guerra desigual que fez sucumbir após 85 dias de luta o sonho de redemocratização do país.

A epopeia paulista revelou heroísmo e mostrou que igual ao aço, o paulista pode quebrar, mas não se curva.

E a liderança se fez sentir. Perdeu nas armas porem venceu impondo a legalidade. Não se permite esquecer o maior evento épico brasileiro. Tão pouco os heróis anônimos que tombaram pela liberdade.

A Revolução revelou no curto período de seus combates sangrentos a disposição de um povo, que largando seus afazeres e empreendimentos, foi às trincheiras e se submeteu as agruras próprias das batalhas. Revelou a singular organização que é própria da cultura local, que improvisou diante da inferioridade e todas as diversidades inerentes, meios para se impor e revelar o heroísmo de seus soldados.

Revelou enfim que  para trabalhar e produzir a exigência de ordem jurídica é fundamental, e só com a legalidade o paulista poderia voltar a produzir e ser a potencia econômica que se mostra atualmente. A Guerra Paulista continua viva e atual. Não pode ser esquecida. Tão pouco seus heróis anônimos que tombaram por um ideal coletivo, patriótico, libertário.

Daí, a grande avenida que do vale do Anhangabaú parte em direção ao Ibirapuera, na Capital paulista, ter a data que a designa e o pomposo mausoléu guardar cinzas dos que, sob a sombra das 13 listas da bandeira, participaram do histórico episódio.

 Enfim:” és paulista? Ah ! Então tu me compreendes! Trazes, como eu, o luto na tua alma e lâminas de fel no coração”, como conclama o poema.

Roberto J. Pugliese
Editor
Cidadão Cananeense
Membro da Academia São José de Letras.

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