28 fevereiro 2022

Uma Semana que Revolucionou as Artes

 

 São Paulo mudou as artes brasileiras

 

No mes de Fevereiro São Paulo e o Brasil comemorou cem anos da realização da Semana da Arte de 1922, evento que durou apenas tres dias na elegante cidade quase-europeia que já se projetava como metrópole. 

 

A intelectualidade paulistana querendo revolucionar as artes brasileiras, dando um colorido brasileiro, aproveitou o ano do centenário da independência, para mostrar a todos, que os brasileiros sabiam desenvolver a própria expressão cultural típica e não mais atrelada as linhas de outros continentes. Mostrou que a arte brasileira, verdadeiramente nacional, não era a propalada por outros cantos do país, especialmente, aquela dita e imposta pelos intelectuais da capital federal, que se limitavam a copiar linhas  desenhadas e escritas no velho mundo.

 

Até o trajar dos intelectuais da época foram criticados, de modo que o grupo dessas mudanças, também entendeu que ao invés de cartolas ou colarinhos duros, o traje típico deveria ser tropical, distante e distinto das roupagens cheia de panos dos europeus.


COmo sempre São Paulo saiu à frente.


O evento renovador se deu à noite de 13 de fevereiro, uma segunda feira, no saguão do elegante e então recém inaugurado Teatro Municipal.

 

Várias pinturas e esculturas provocaram reações de espanto e repúdio.Graça Aranha, proferiu palestra inaugurando o evento. "A emoção estética da Arte Moderna", autor também da obra Canaã, romance regionalista que possuí valor documental. A temática gira em torno da questão da migração alemã  no Estado do Espírito Santo. Após a palestra, um musical encerrou a primeira noite e tudo transcorreu com certa calma, porém a agitação pairava no ar.
 
A cidade se movimentou. Aplausos e vaias nos comentários da paulicea, húmida e ainda da tradicional garoa. Numa cidade ainda mais vila do que a pretendida metrópole, que a elite posava, o evento do modernismo, chocou profundamente a elite tradicional e conservadora. A intelectualidade se dividiu e como era esperado, dias depois, o Rio de Janeiro teceu críticas e desdenhou...


Contam os sabidos que a intenção dos principais organizadores da Semana de 22 era tão somente  realizar o evento numa livraria da cidade; porém  tiveram influência de Graça Aranha, diplomata, que regressara da Europa com ideias futuristas. Ideias que chocaram por transformar o que vinha de lá, por uma produção própria, que espelhasse o Brasil.

  

A literatura apresentada trouxe irritação e  foi ignorada pelo público presente no evento que se deu no dia 15. Naquela noite a confusão aflorou com as apresentações mais abrasileiradas e ritimadas para um país tropical. Vaias se sobressairam e não pouparam Mário de Andrade, Menotti del Picchia, Ronald de Carvalho e demais autores que se manifestaram.


Mas com o choque que a Semana provocou a arte verdadeiramente brasileira, nacionalizada desde a sua criação, encontrou o espaço que precisava para se impor. A intelectualidade paulistana mostrou ao Brasil que a verdadeira arte progressista surgia em Fevereiro de 1922, a partir do Planalto de Piratininga e seria ao longo do tempo respeitada.

 

A importância da Semana pode ser comprovada por todas as expressões artísticas que ocorreram depois daquele fevereiro. Numa análise simples, basta lembrar que se a Bossa Nova nasceu na zona sul da então capital federal, foi em São Paulo que ela evoluiu e partiu para o mundo, deixando de ser um movimento limitado aos bairros burgueses do Rio e, à mesma época, o YE YE YE liderado pelo Rei Roberto Carlos, só se expandiu a partir de São Paulo e invadiu os lares dos jovens de todo país...Chico Buarque, Caetano Veloso ou RIta Lee, são exemplos que frutificaram após a semente deixada naquela Semana.

 

E assim, vale para a literatura, com autores daqui e dali vivenciando através da metrópole o que é o pais, como se deu com Jorge Amado, Guimarães Rosa ou  Fernando de Moraes ou Don Paulo Evaristo Arns.

 

Provavelmente o Festival Literário Internacional de Paraty, o maior evento da atualidade no campo das letras, não viesse encontrar espaço se não fosse a consolidação da literatura brasileira, cujas primeiras linhas se deu na revolução que a Semana fez eclodir.

 

Enfim, a arquitetura e as artes plásticas através de Lasar Segall, Iara Tupinambá ou mesmo  Carybe, entre incontáveis outros ícones dos pincéis, revelam-se como autores da arte modernista brasileira consolidada.


Enfim, sem delongas, o Expresso Vida convida a todos intelectuais, artistas e amantes das expressões culturais que participem durante o ano de 2022, aos eventos que se darão em todo o Estado de São Paulo comemorando tão importante marco cultural. São festas organizadas pela Secretaria de Cultura do Estado, com a parceria efetiva de inúmeros municípios espalhados pelo território paulista, promovendo festivais, exposições, espetáculos e atos culturais em comemoração a Semana da Arte de 1922.

 

 

Roberto J. Pugliese 
editor
www.puglieseadvogados.com.br
titular da cadeira nº 35 da Academia São José de Letras
membro da academia Itanhaénse de Letras
membro da academia Eldoradense de Letras

Nenhum comentário:

Postar um comentário