quarta-feira, 3 de abril de 2013

Memória nº 06 - Sertório.


Memória 6
Sertório, o nome da ponte.

Foi em julho de 1953 que ele foi à Itanhaém pela primeira vez. Criança restaram vagas lembranças, mas recorda-se que hospedou-se na Vivenda Eloá, durante quinze ou trinta dias, casa que seu pai alugara.

Próxima à praia dos Sonhos, da Prainha, da rua Benedito Calixto onde então,à época fazia esquina, vizinha da residencia da família do conhecido Sertório. Todas as ruas sem calçamento. Na Vila, apenas a ladeira que do larginho então existente, posteriormente chamado Praça Pio XII, subia para a Praça Coronel Narcisio de Andrade, centro principal, no qual o Palácio da Condessa de Vimieiros abrigava no térreo a guarnição da então Força Pública e a cadeia e nos altos a Cãmara de Vereadores e noutro canto a Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Sequer a estátua de Anchieta fora erguida. Um campanário arenoso fingindo tratar-se da praça principal.

A energia elétrica àquela época acabava à meia noite.  O municipio, com apenas cinco mil habitantes, abrangia extenso território que principiava em Peruíbe e Mongaguá, então bairros distantes da sede. Não havia rodovia. O trem da Sorocabana  ou trafegar pela Praia Grande eram os únicos acessos. Talvez barco.

Sertório, um autentico caiçara, na cor, no falar, na calma e na certeza da providencia divina que o assistia, vivia num barraco com a mulher e infinidade de filhos.Uma posse meio bagunçada, que depois foi vendida para a construção de um sobrado.

Era barqueiro, como outros tantos à época, que no muque, à remo, atravessava do Porto Novo até ao despraiado existente, do outro lado do rio Itanhaém, próximo ao Hotel Pollastrini. O Anatóle, filho de um russo fugido da revolução bolchevista; Henrique Liberek, um marinheiro polones que foi esquecido no porto de Santos; Thiago, um introspectivo militar aposentado eram também barqueiros que faziam a mesma travessia, com barcos à motor. Pernambuco, um caricato nordestino, cheio de lenços, anéis e muito fantasiado era também barqueiro que atravessava o mesmo rio valendo-se de seus braços.

O Porto Novo era um barranco arenoso onde esses pequenos barcos encalhavam, próximo ao então existente Bar Santo Antonio, que posteriormente deu origem ao Itanhaém Iate Clube, junto a rua que tinha esse nome e foi alterado para Sebastião das Dores, em homenagem ao líder dos pescadores da Prainha... que também se aventurava no mar valendo-se do remo e da força física.

O Porto Novo à beira do Rio Itanhaém estava situado onde hoje é o frontespício da ex Colonia de Férias do Banco da América, então em construção. Junto à Alameda beira rio, que não estava construida.

Recorda-se que certa madrugada daquele Julho a chuva torrencial arrazadora desabou e destruiu parte do barraco que Sertório vivia. Sem alternativa, na escuridão da noite e no meio da tempestade, abrigaram-se no terraçõ da Vivenda Eloá. No dia seguinte, lembra-se que sua mãe providenciou comida para toda a família. Ajudou com roupas secas aquele multidão de pessoas desabrigadas.

Enfim, recorda-se que naquele Julho de quase sessenta anos passados, ( Estamos em Março ) no final da tarde, ficava deitado na rede com seu saudoso avô, olhando as nuvens se movimentarem e ouvindo histórias do Pedro Malazartes. Saudades.

Sertório hoje é o nome da ponte que liga a Vila, à Praia dos Sonhos. Justa homenagem a quem por anos atravessou o rio com seu pequeno barco à remo.

Distante da saudosa Itanhaém, guarda muitas e muitas lembranças  dos anos que frequentou e viveu na histórica cidade. Lembranças da infancia, da adolescencia, da juventude, da vida muito bem vivida na querida Conceição de Itanhaém.

Roberto J. Pugliese
www.pugliesegomes.com.br
membro da ACADEMIA ITANHAENSE DE LETRAS
membro da ACADEMIA ELDORADENSE DE LETRAS

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