sábado, 4 de outubro de 2014

Colégio Arquidiocesano de São Paulo.( memórias nº102 )


Memórias nº 102

Recordações dos tempos do ginásio.

 

O Colégio Arquidiocesano de São Paulo da congregação dos Irmãos Maristas, situado num imponente prédio próximo à Igreja da Saúde, à Avenida Domingos de Moraes, foi marcante na formação de Lourenço.
 
 
 


 Símbolo Maior: Edifício Altino Arantes.

Ingressou no 4º ano primário, cursou o Admissão, ou 5º ano Primário, por não ter conseguido ingressar direto no Ginásio e cursou todo o Segundo Grau até sair para ingressar no Colegial no Instituto Mackenzie, no qual matriculou-se no Curso Clássico, então existente,diferenciado do Curso Científico, com enfoques distintos.  Nessa época, talvez 1959, conheceu Correa, e logo a seguir Antenor, cujas amizades ainda cultiva com alegria e saudades. Lá se vão mais de cinquenta anos.

 

Correa torcedor do São Paulo Futebol Clube muitas vezes o levou ao Pacaembu para assistirem jogos, junto com o seu tio e padrinho Pedro, também são paulino. Certa vez assistiam na arquibancada do velho Pacaembu, ao tempo da charmosa Concha Acústica, uma peleja entre o tricolor e o Esporte Clube Corinthians e por muito pouco o tio Pedro não foi às vias de fato com um torcedor adversário. Discussão feia que Lourenço nunca esqueceu.

 

Correa morava perto de sua casa. Uns três ou quatro quarteirões separavam as duas residências. Lourenço na Senna Madureira e Correa na Professor Frontino Guimarães, uma alameda frondosa, sem saída, onde costumavam jogar futebol num larginho... Também jogavam taca.

 

Na casa do amigo, por longos anos, Lourenço participou de campeonatos de botão, o tradicional futebol de mesa, tão jogado pelas crianças e jovens daqueles anos. Havia o  “quartão”  nos baixos, espécie de dispensa  ou porão, onde entre bicicletas, brinquedos e um montão de trecos da família, as paredes eram enfeitadas por fotografias de cavalos e de charretes.

 

Correa chegou a convida-lo para irem  à Sociedade Paulista de Trote, assistirem corridas que à época eram aos domingos e quintas feiras à noite. Porém nunca cumpriu a promessa. E nem irá cumprir, porque a entidade fechou. O Dr. René, o pai do amigo, cientista na área veterinária, era proprietário de um laboratório veterinário e dava assistência a equinos e outros animais. Recorda-se que o laboratório era então numa casa nas proximidades. Uma pequena casa à Rua Joaquim Távora, que se transformou num complexo de proporções ímpares instalado na região metropolitana da capital.

 

Eram sócios do Tênis Clube Paulista e chegaram a ir juntos algumas vezes. Passavam o dia por lá. O pai de Lourenço levava e voltavam à pé, no final da tarde.  Caminhavam desde à rua Nilo na Aclimação e sem muita pressa, galgavam a rua do Paraíso, a íngreme subida em direção à fábrica de cervejas e seguiam pela avenida Domingos de Moraes...

 

Correa  era sócio do Hotel Miami do Sul, erguido nas proximidades da Cama de Anchieta, na Praia dos Sonhos, em Itanhaém. Mas chegou a hospedar-se em algumas oportunidades durante algumas semanas durante as férias escolares na casa de Lourenço.

 

Ao tempo que Lourenço residiu junto à Vila Clementino, à hoje movimentadíssima avenida Senna Madureira,  era apenas projeto em construção, pois uma das vias àquela época não havia sido pavimentada. Nos dias de chuva, aproveitava a lama e a enxurrada para construir barragens.

 
 
 
 Estádio Paulo Machado de Carvalho em construção. Durante 10 anos foi o maior do país.

Recorda-se que eram suas vizinhas duas gêmeas que vieram de Lins: Lúcia e Lígia, que ficavam na janela vendo os jogos de futebol que praticavam no quintal existente nos fundos da casa. Tem bem vivo na mente quando numa tarde de algum dia de novembro, sua mãe saiu da cozinha e disse para a criançada que brincava no quintal:

 

- Mataram o presidente Kennedy.

 

As meninas, que acompanhavam o movimento do quintal, falaram qualquer coisa e desapareceram...

 

Próximo a sua casa havia uma biblioteca pública municipal, na qual com certa frequência Lourenço ia estudar geografia política ou história, fugindo das aulas de física, matemática, biologia e outras chatices, ministradas no Colégio. Na biblioteca viajava nos seus pensamentos lendo mapas e atlas do Pe. Geraldo Azevedo ou livros didáticos da história de São Paulo e do Brasil. Também nas imediações havia o Museu Lasar Segall que visitou algumas vezes.

 

Entre o Arqui, abreviação carinhosa do  Colégio referida pelos seus quase três mil alunos,  e a biblioteca da Senna Madureira, residia   Antenor, um dos filhos de uma família bem grande. Maria Cristina, Gil, Roberto, Geraldo, Maria Helena eram os irmãos do amigo... Eram de Araraquara e sócios do Ipê Clube. O pai ao tempo que estudavam juntos era  presidente do Conselho Federal de Farmácia e pessoa de muito respeito e autoridade. A família residia numa vila, junto à Rua Diogo de Faria, próximo ao Liceu Pasteur.

 

Não acompanhavam futebol. Eram fãs de basquete e recorda-se bem que àquela época Amauri, Sucar e outros grandes jogadores despontavam. Lembra-se bem que muitas vezes assistiu Roberto, Gil e o Antenor batendo bola nas quadras do Arqui.

 

Foi na casa do Antenor, na sala de visita que Lourenço começou a se simpatizar com o novo ritmo musical que tomava conta do mundo: A bossa nova. Lá manteve contato com Manfredo Fest, Paulinho Nogueira, Ed Lincoln e outros tantos através de long plays dos irmãos do amigo.

 

Quando o então presidente Charles De Gaulle esteve no Brasil  foi ao Liceu Pasteur, colégio de origem francesa, situado nas imediações, entre a casa da família Landgraf e de Lourenço. O  professor Meyer, então era o diretor,por coincidência, o pai de seu amigo, Alexandre, que morava em Santana, bairro bem longe, na zona norte da Capital, que também frequentava Itanhaém. Lourenço ainda  priva da amizade do velho amigo, cuja mãe e alguns tios participaram ativamente da Revolução de 1932. Coincidência também que Lourença, sua mulher, quando criança, residindo também no bairro de Santana, foi aluna da mãe do Alexandre, quando estudou no colégio de freiras na qual dona Guiomar era professora.

 

Numa grande capital, então com seus cinco ou seis milhões de habitantes chama atenção essas coincidências.

 

Antenor, Correa e Lourenço sempre iam ao Liceu Pasteur ver as meninas que frequentavam aquele colégio que era misto. Meninos e meninas juntos na mesma escola e na mesma sala, situação rara e invejada. Com frequência razoável deixavam de lado as aulas maçantes de física, química, biologia e principalmente matemática e gazeteavam nos arredores do Liceu Pasteur ou do Colégio Rosário, também nas imediações, pertencente à freiras onde só estudavam meninas.

 
 

 

 


 

Lourenço recorda-se que foi na capela do Colégio Arquidiocesano que foi Crismado por um dos bispos auxiliares da diocese de São Paulo e que certa vez, junto com todos os professores e alunos convocados para a solenidade oficial, ficou perfilado por horas no pátio interno, junto à gruta de Nossa Senhora de Fátima,  aguardando o presidente Janio Quadros que fora visitar o irmão Amandino, seu ex professor e conferir-lhe a Ordem do Cruzeiro do Sul...

 

O Presidente da República estudara no Colégio do Carmo à época que Lourenço Pai também estudou e foram alunos do referido Irmão Marista, bem velhinho ao tempo dos estudos de Lourenço. Um velhinho que já estava aposentado e não mais lecionava.

 
 Colégio Arquidiocesano de São Paulo

Interessante e inesquecível, talvez para todos que estudaram por anos em Colégio Marista é a comemoração do dia 6 de junho. No mundo inteiro há festividades nesses estabelecimentos de ensino em homenagem ao fundador da congregação, o hoje santificado Marcelino Champangnat. Nesta data era feriado escolar, com diversas atividades esportivas, culturais e de laser, com presença obrigatória e alta frequência de professores e convidados.

 

Também uma vez por ano o Colégio promovia excursão à Chácara dos Maristas, situada junto a uma das represas, próximo à via Anchieta. Lembra-se que Antenor  ficava bem atento aos bichos engaiolados criados pelos Irmãos e caseiros daquela chácara. Também se entretinha com as plantações existentes.

 

No mês de Junho ou Julho também anualmente era promovida uma festa caipira, com uma fogueira que era acesa no pateo interno, com altura considerável. Barraquinhas,danças típicas, sorteios e todo o fuzuê típico desse evento tradicional. 
 

Estudou durante quatro anos com  Antenor. Eram colegas de classe e geralmente iam juntos de castigo, por uma ou por outra razão pertinente. Lembra-se bem que entre os professores havia o Sebastião que falava com sotaque nordestino  e lecionava português;  o Serafim, cujo filho também estudava por lá era professor de geografia e todas as tardes havia aula de religião. Foi aluno do Irmão Leão, do Irmão Francisco Dematé, tio de um rapaz que anos depois foi seu aluno em Joinville; também do irmão Getúlio e Irmão Aristides. Irmão Caetano e irmão Isidoro também eram professores...

 

O professor Hudson, de educação física, esteve com Lourenço em 2005. Ao lançar o Direito das Coisas, livro que compilou as aulas que lecionou na Faculdade, fez questão de procurar seus professores e convidar para a sessão de autógrafos, e o velho Hudson foi localizado e compareceu com a mulher. Foi um acontecimento à parte, já que muitos dos convidados haviam sido seus alunos, inclusive seu irmão, que ao tempo do colégio, teve muita participação e estreitara amizade com o professor. Carlos Lourenço então aplicado desportista era ginasta e bastante dedicado nos estudos e na prática esportiva.

 

O professor Bragato, outro professor daquela época, com deficiência visual, usava  elevado grau nos seus óculos e perceptível a dificuldade que tinha para visualizar longe. Quando terminavam as aulas no Arqui  tinha que tomar às pressas condução para o Cambuci, bairro mais ao centro da Capital, onde lecionava no Colégio Glória, também dos Maristas.

 

O ônibus  que o conduzia para as aulas da noite se assemelhava ao que Lourenço tomava as vezes para sua casa. Branco com alguma tonalidade rosa ou vermelha desbotada, ambos talvez da mesma empresa, seguiam destinos diferentes: Um seguia a avenida em direção à Lins de Vasconcelos e de lá, Aclimação e Cambuci e outro, virava para a Vila Clementino e seguia em diração do Ibirapuera.

 

Não foram poucas as vezes que Lourenço induziu o professor ao equivoco, fazendo com que ao perceber o engano ficasse abatido e nervoso, buscando descer e trocar de condução... Lourenço provavelmente encontrava nessa situação a forma de vingar-se das aulas e exposições de fotossínteses, Mendel e outros temas bem distantes de seu interesse. Aulas de biologia que também não gostava...

 

Próximo ao colégio havia uma pequeníssima bodega de um turco que vendia esfihas abertas e cigarros avulsos para as crianças que fumavam escondidos.

 

São inúmeras as histórias e as recordações que guarda com muito carinho e saudades do colégio e de seus colegas daqueles anos que seguiram até 1965. Sem preocupação e no desfrute de uma cidade então elegante e promissora, onde todos os dias o guarda civil, com o seu tradicional terno azul marinho e luvas e chapéu branco, com educação e galhardia ajudava os alunos atravessarem as duas pistas da Avenida Domingos de Moraes, cujo canteiro central era destinado aos bondes.

 

Bons tempos ! Bons tempos distantes e inesquecíveis.

Roberto J. Pugliese
Titular da cadeira nº 35 da Academia São José de Letras.
Consultor da Comissão de Direito Notarial e Registros Públicos do Conselho Federal da OAB.  
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário