domingo, 12 de outubro de 2014

Palmerópolis, Gurupi, Joinville... ( memórias nº 103 )


Calha a fiveleta e outros pitorescos. ( memória nº103 )

 

Lourenço foi contratado para lecionar na FAFICH, escola de nível superior com sede em Gurupi, Tocantins e posteriormente, participou de concurso público e saiu-se vencedor assumindo a cadeira de Direito Civil para lecionar Direito das Coisas. Disputou a vaga com três outros candidatos.

 

A Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas mantida pela Fundação Educacional de Gurupi, FEG, pertencente ao Município atualmente integra a Universidade do Estado do Tocantins.

 

Àquela época Mundinho era professor de psicologia e presidente da fundação mantenedora e ocorreu movimento grevista dos professores na busca de melhores condições de trabalho, inclusive aumento salarial e outros direitos.

 

As assembleias dos professores grevistas se davam dentro da faculdade numa sala de aula com a presença de Mundinho, que agia na condição de professor grevista e fora da sala, como patrão titular da caneta que comandava a FEG.

 

Certo dia Lourenço combinou com os demais professores que iria agredir com palavras a presença do professor que agia contra os grevistas e permanecia no ambiente criando constrangimentos. Disse que iria desmoraliza-lo e que estaria posicionado bem longe e caso ele levantasse para tirar satisfações ou agredi-lo, os demais professores estariam atentos para segura-lo, evitando o confronto físico.

 

Lourenço discursou.

 

Pediu a palavra e aos professores falou que o Mundinho era um sujeito sem vergonha que agia nos bastidores contra aos interesses gerais e permanecia no seio dos grevistas ouvindo tudo, levando noticias ao prefeito municipal e que no fundo era um dedo duro.

 

- O professor se tivesse vergonha na cara, se fosse homem de bem, não estaria aqui...

 

Não aconteceu nada. O presidente da FEG permaneceu imóvel e como se não tivesse ocorrido nada, não se atreveu a responder ou a se defender. A solução foi decidida por proposta de Lourenço.

 

- Já que o professor Mundinho é um Calabar e não vai cair fora, doravante meu escritório passa a ser a sede do Movimento Grevista e lá, não permitirei a sua entrada.

 

(... )

 

Em Joinville Lourenço também lecionou Direito das Coisas por quinze anos. Também durante um ano, quando Lourenço Júnior foi aluno do 2º ano, lecionou Direito Constitucional. Durante esse período que esteve na Faculdade de Direito de Joinville, entidade particular de ensino superior, lecionou Direito Ambiental e Direito Notarial em cursos paralelos.

 

Como professor de Direito Civil por anos seguidos foi convidado a orientar alunos em monografias de Trabalhos de Conclusão de Curso. Por ano seguia em torno de sete alunos, chegando a orientar dez alunos em alguns anos. Nessas ocasiões, como professor orientador participava da banca examinadora e recorda-se de pitorescos dos mais variados.

 

Numa delas o aluno houvera colado o trabalho inteiro. Pegara da internet e simplesmente colara sem ter noção do que estava falando, lendo ou explicando, aliás muito mal explicado. O aluno copiara o trabalho.

 

Lourenço questionou:

 

O que vem a ser calha a fiveleta? E o aluno mudo disse não saber o que se tratava. Então um dos integrantes da banca mostrou a todos que era um termo posto no trabalho e que revelava o quanto o aluno desconhecia pois não fizera o trabalho, não fora o autor da obra.O mesmo professor que integrava a banca examinadora mostrou a fonte da cola que o aluno fizera, desmoralizando-o publicamente.

 

Noutra ocasião o aluno desconcentrado por não saber responder as perguntas, diante da família que assistia a sessão solene, foi inquirido e revelou-se merecedor da reprovação, até porque a autoria do trabalho fora comprovadamente revelada ser de outrem, por se tratar de cópia.

 

Lourenço, o presidente da mesa, levantou-se e começou a discursar e sem saber como decretar a reprovação, pois o aluno estava na presença dos filhos, esposa, mãe. Lourenço não parava de falar e enrolar, sem ir ao ponto certo. Numa das orações, foi interrompido pelo professor Mauro, outro integrante da mesa, que pediu licença e a palavra, concedida por Lourenço, e estampou firme e em bom som:

 

- O senhor está reprovado. Colou. Não é o autor do trabalho. (...)

 

Em seguida Lourenço declarou encerrada a sessão.

 

Lourenço também lecionou na Faculdade Paulista de Direito, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Por dois anos foi assistente do titular de Introdução à Ciência do Direito, professor Franco Montoro, então Senador da República. E por dois anos lecionou na Faculdade de Direito da cidade de Jaraguá do Sul, onde fora contratado para lecionar Direito das Coisas.

 

Com frequência Lourenço tem proferido palestras abordando temas jurídicos e políticos. Tem viajado bastante com esse fim.

 

Certa vez, à época que era presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em Gurupi e professor de Direito das Coisas, na Fafich, foi convidado à ministrar palestra abordando direitos humanos na cidade de Palmerópolis, distante quase 300 km.
 
 
 
 


 

A palestra seria numa solenidade do Lions Clube à noite, em um sábado qualquer, que coincidia com algum festejo local. Palmerópolis é uma pequena cidade no sul do Tocantins, e àquele tempo, a estrada de terra, sem sinalização fazia com que a viagem fosse cansativa e demorada.

 

Lourenço chegou no meio da tarde acompanhado de seu amigo Lourival, advogado que também trabalhava no seu escritório. Uma vez hospedados no único hotel da cidade, após descansarem um pouco, aprontaram-se e seguiram de terno à pé para o local do evento.

 

Ambos traziam às mãos algum livro ou código e foram abordados no caminho por um casal que respeitosamente questionou:

 

- Os senhores são os novos pastores que foram transferidos para cá?

 

Em pleno sábado ao anoitecer, dois desconhecidos caminhando à pé pela cidade, trajando paletó e gravata, com livros nas mãos... Só poderiam ser ministros religiosos caminhando para o culto do final de semana.

 

Roberto J. Pugliese
Consultor Nacional da Comissão de Direito Notarial e Registral do Conselho Federal da OAB.

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