sábado, 16 de março de 2013

UM DIA NA VIDA DE BRASILINO

Cinqüenta e dois anos: Nada mudou !

No distante outono de 1961 foi publicado o brevete,
com poucas páginas, de edição própria do autor, que à época e
ntão denunciava a todos, a existência do imperialismo na economia brasileira.

Pouco mudou.

Quem por curiosidade ler o texto abaixo, poderá observar que o
 Brasil, tão rico em sua natureza dadivosa, continua servindo de sítio
altamente lucrativo para o primeiro mundo e refletir e ponderar que os anos
duros impostos pelos militares, não serviu para promover a
independência econômica do povo e da Nação, mas acentuou
ainda mais a dependência financeira do país.

Leiem o texto do saudoso Paulo Guilherme Martins. É curto e
vale bem à pena.

Um dia na vida de Brasilino.

 

 

PAULO GUILHERME MARTINS

“Não existe imperialismo
no Brasil”
Carlos Lacerda
na “Tribuna da Imprensa”

 

“Essa história de impe-
rialismo não passa de inven-
ção de falsos nacionalistas
que pretendem impedir o
progresso da nação.”

( “O Estado de São Paulo”  )

 

 

Não sei se você conhece o Brasilino!? Mas isso não importa...

Brasilino – é um homem qualquer, que mora num apartamento

qualquer, numa cidade qualquer... Situemo-lo em Santos, por exemplo.

 

Brasilino, como todo o bom burguês, começa o dia acordando; sim,porque o operário, este, levanta-se ainda dormindo a fim de chegar a tempo aoserviço.

 

Brasilino acorda e aperta o botão da campainha à cabeceira da cama,campainha essa que soa na copa; porem soa, consumindo energia – energia que é da Light, e, assim, o Brasilino inicia o seu dia pagando dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.

 

Mas Brasilino não pensa nisso e começa o seu dia, feliz!

Abre-se a porta. É Marta, a criada, que entra com o café da manhã: café, leite, pão, manteiga, um pouco de geleia e o jornal – “O Estado de SãoPaulo”. – Brasilino, como todo o bom burguês, lê somente a boa imprensa – achamada sadia.

 

Enquanto lê as notícias, toma a sua primeira refeição.

 

Brasilino não sabe que o leite, que bebe, é originário de uma vaca que foi alimentada com farelo REFINAZIL, da “Refinações de Milho do Brazil” (Brasil com Z), que é americana, e que a farinha com a qual foi feito o pão é originária do “MoinhoSantista”, que não é santista e sim inglês.

 

 Assim, para tomar o seu café da manhã, Brasilino tem que pagar dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO. Mas,Brasilino nem sabe disso... e toma o seu café, bem feliz!

 

Terminado o café, Brasilino acende o seu primeiro cigarro: Minister,ou Hollywood, um desses da “Cia. Souza Cruz”, que não é do Sr. Souza e muito menos do Sr. Cruz, mas, sim, da “British, American Tobacco Co.”, o “trust”anglo-americano do fumo. E assim, para fumar seu cigarrinho, Brasilino paga dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO. Mas Brasilino nem pensa nisso e saboreia seu cigarrinho, feliz... feliz...

 

Em seguida, Brasilino vai ao quarto de banho, fazer a sua

toilette : acende o aquecedor de gás- gás que é da City e, portanto, do grupo Light, e,enquanto a água aquece, toma da escova de dentes, marca “TEK”, da “Johnson& Johnson do Brasil” (que é americana), e da pasta dentifrícia “KOLYNOS”, com clorofila, da “Whitehall Laboratories of New York” e, assim, para escovar osdentes, Brasilino paga dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIROS...

 

Mas Brasilino nem pensa nisso...

 

Brasilino não sabe bem o que é clorofila e está certo de que, quando entrou na farmácia e escolheu essa pasta, o fez livremente; ignora que sua vontade foi condicionada pelas custosas campanhas de promoção de vendas,feitas através da imprensa, do rádio e da televisão e que, da mesma forma como ele escolhe sua pasta de dentes, escolhe, também, o seu candidato à Presidênciada República.

 

Em seguida, Brasilino vai fazer a barba: toma do pincel, feito com fiosde Nylon, da “Rhodia” – que é francesa – enche-o com creme de barbear“Williams”, que é americano. Ensaboado o rosto, Brasilino toma seu aparelho“Gillette”, munido com lâminas “Gillette”, ambos da “Gillette Safety Razor doBrazil”, e, feliz, vai raspando a face, pois nem pensa que, para fazer sua barba,tem que pagar dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO...

 

Terminada a barba, Brasilino entra no banheiro, envolvendo o corpo com a espuma acariciadora de um desses sabonetes, “Lever” ou “Palmolive”,um desses cuja espuma acaricia o corpo de 9, entre 10 estrelas de Hollywood. E assim, até para tomar seu banho, Brasilino tem que pagar dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.

 

Após o banho, Brasilino enxuga-se com uma toalha felpuda da“Fiação da Lapa”, que também não é da Lapa porque é Suíça e, a seguir, passa pelo corpo talco “Johnson”, da “Johnson & Johnson do Brasil”.

 

E... começa a vestir-se.

 

Acontece, então, uma tragédia! Cai um botão da camisa do Brasilino. Ele toca novamente a campainha, e Marta corre a socorrer o nosso herói, munindo-se de agulha e linha. Dentro de poucos instantes, ao ver Marta cortar alinha com os dentes, depois de preso o botão, Brasilino sente-se novamente feliz.

 

Feliz porque ele não sabe que Marta, a criada, para pregar o botão, usou alinha marca “Corrente” da “Cia. Brasileira de Linhas para Coser”, que é inglesa e que, até para pregar um botão, Brasilino tem de pagar dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.

 

Já vestido, Brasilino despede-se de Marta, avisando que não virá almoçar nem jantar, pois irá a São Paulo, a negócios... – Sai, bate a porta, toma o elevador, que é “Schindler”, da “Schindler do Brasil”, que é suíça, e movido por força fornecida pela Light, e chega ao pavimento térreo. Dá bom dia ao zelador e toma o seu automóvel “Volkswagen”, fabricado pela “Volkswagen do Brasil”, que é alemã, rodando sobre pneus “Firestone”, da “Firestone do Brasil” que é americana, acionado por gasolina refinada pela “Petrobrás”, mas distribuída pela “Esso Standard do Brasil”, que é americana.

 

Até para usar a gasolina, refinadapela Petrobrás, Brasilino paga dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO!  Ele não sabe que os brasileiros têm capacidade para refinar o petróleo e produzir a gasolina, mas não a têm para a “difícil” tarefa de distribuí-la e que, para esse serviço – a simples distribuição – as companhias distribuidoras (Esso–Shell–Gulf–Texaco, etc.) ganham muito mais que a Petrobrás.  Mas Brasilino ignoratudo isso... e Brasilino é feliz!

 

Pouco depois, Brasilino encontra-se na Via Anchieta, dirigindo-se a São Paulo. Ao passar por Cubatão e ao ver a Refinaria Presidente Bernardes, põe-se a pensar: “Porcaria essa Petrobrás! agora que a gasolina é nacional, custa cinco vezes mais.” – Sim, porque Brasilino não reflete que a gasolina custa, agora, muito mais, por um motivo muito simples: ao tempo em que a gasolina era importada, o dólar custava Cr$ 18,72 e, atualmente, para a importação de óleo bruto, custa Cr$ 200,00. – Não sabe, também, que o dólar está caro porque é escasso, e é escasso devido à procura, e a procura é muito grande, porque os dólares obtidos com a exportação brasileira, mal dão para fazer face às remessas de

Royalties e dividendos do CAPITAL ESTRANGEIRO.

 

A irritação do nosso herói, contudo, logo desaparece, pois a algumas centenas de metros à frente, Brasilino vê surgirem os dutos da Light e uma grande tabuleta com os seguintes dizeres: LIGHT AND POWER, a maior usinahidrelétrica da América do Sul – 1.200.000 KW. – Aí, Brasilino exulta e monologa com entusiasmo – “Isto sim! A Light! A Light! A Light que fez a grandeza de SãoPaulo.” Sim, porque Brasilino confunde Light com Energia.

 

Ele não sabe que o que fez a grandeza de São Paulo não foi a Cia. Light e sim a Energia e que, se a Energia não pertencesse à Light, São Paulo seria dez vezes maior, ou o Brasil dez vezes menos miserável.

 

O interessante é que Brasilino nunca perguntou, a si mesmo, que seria da Inglaterra se não existissem as Lights pelo mundo.

 

Brasilino prossegue a viagem e, logo mais, atinge o altiplano, onde vê descortinar-se o panorama grandioso do progresso industrial, que ele julga ser do Brasil: “Volkswagen do Brasil” – “Mercedes Benz do Brasil” – “WillysOverland do Brasil” – “General Motors do Brasil” – “Rolls Royce do Brasil” –“Cia. Brasileira de Peças de Automóveis” – “Simca do Brasil” – “Plásticos do Brasil” e inúmeras outras “do Brasil” e “brasileiras”, mas todas elas ESTRANGEIRAS.

 

Brasilino, afinal, chega a São Paulo. Estaciona o seu carro em uma das ruas do centro e, a pé, alcança a Rua Líbero Badaró, para concluir um negócio. Brasilino recorda-se de que Líbero Badaró foi um homem que, ao ser assassinado, exclamou: “Morre um liberal, mas não morre a Liberdade!” E Brasilino conclui: “Que sujeito burro! Que interessa a Liberdade para um homem que já morreu!?”

 

Enquanto assim pensa, Brasilino chega aos escritórios da “Crescinco,

Cia. de Investimentos”, pertencente ao Sr. Rockefeller.

 

Brasilino sente-seorgulhoso de emprestar o seu dinheiro a um dos homens mais ricos do mundo, mas que, para financiar as suas indústrias, prefere usar o dinheiro dos

próprios brasileiros, atraindo-os com a vantagem de juros de 2% ao mês e livre de imposto de renda. Brasilino não sabe que, entre o dia em que ele entregou o dinheiro e o dia em que esse mesmo dinheiro lhe foi devolvido, a desvalorização da moeda foi de 4% ao mês e assim , ele está menos rico, pois esse juro e mais os lucros da Cia. Investidora terão, forçosamente, de ser acrescentados ao custo das utilidades, saindo, consequentemente, da própria pele do Brasilino.

 

MasBrasilino não sabe disso e recebe o seu dinheiro e os juros, feliz!

 

Liquidado o negócio, Brasilino vai almoçar. – Entra num restaurante onde lhe é servido, como antepasto: frios da “Armour do Brasil”, que é americana, Margarina “Clay-Bon”, de “Anderson Clayton” que é americana, toma uma “Coca-Cola” e saboreia um prato de massa, preparado com farinha do“Moinho Paulista”, que é inglês, e, depois, come um filé com fritas, cuja carne foi fornecida pelo “Frigorífico Wilson” e as batatas foram fritas com óleo “Mazola”,da “Refinações de Milho Brazil” (Brazil com Z). Como sobremesa, comeu um pudim feito com “Maizena Duryea” também da “Refinações de Milho Brazil” e,assim, até para comer, Brasilino tem que pagar dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO. Após o almoço, Brasilino passeia pela cidade, a fim de fazer hora para o cinema, gastando a sola do sapato com saltos de borracha “GoodYear”, pagando, até para andar, dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.

 

Brasilino entra no Cine Metro, onde passa a tarde, deliciando-se comum filme, que é americano e, para passar algumas horas distraídas, Brasilino paga dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.

 

Ao sair do Cinema, Brasilino sente uma leve indisposição; entra numa farmácia e toma um “Alka-Seltzer”. E, assim, até para prevenir uma indigestão, Brasilino precisa pagar dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.

 

Toma novamente o seu carro e volta para Santos. Chegando à casa,faz novamente a sua toilette , liga o rádio de cabeceira, marca “G.E.” da “General Electric do Brasil”, e deita-se sobre um colchão de espuma de borracha“Foamex” da “Firestone do Brasil” e repousa a cabeça, sobre um travesseiro do mesmo material, dormindo, feliz, o sono da inocência.

Não sei porque, mas a história do Brasilino traz sempre, à mente,aquelas magníficas palavras do Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os pobres de espírito porque será deles o reino dos céus.”

 

Mas uma coisa jamais será do Brasilino: O REINO EM SUA PRÓPRIA TERRA.

 

Por isso, leitor, se alguém lhe disser que não existe imperialismo econômico, no Brasil, é porque está ENGANADO, ou porque ESTÁ ENGANANDO VOCÊ.
Santos, Outono de 1961

(Publicação em jornais, revistas, rádio, televisão, ou em fascículos para distribuição gratuita, autorizada pelo autor, desde que reproduzida na íntegra.)

 O Expresso Vida recomenda a leitura.

 Enfim, fica patente que a dependência ao capital estrangeiro e a exploração do povo brasileiro e das riquezas do país daquele tempo à esta data aumentaram: Antes não havia a privatização de portos, de escolas, de presídio, de estradas e telefonia... hoje, essas e outras privatizações foram entregues a empresas alienígenas, cuja sede desconhecemos.

 Há poucos anos atrás a base de lançamentos de foguetes brasileiros, a melhor localizada no mundo, dada a posição estratégica, quase, por muito pouco, não foi cedida aos americanos que a gerenciariam nos termos de um verdadeiro protetorado, à semelhança de Guantanamo.

 Houve tentativas de alienação de empresas tradicionais federais, como o Banco do Brasil S.A. e a Petrobras...

 Infelizmente passamos por tantos e tantos problemas e dissabores, mas nada mudou.

 Daquele distante outono aos dias de hoje,já chegamos ao 52 deles e nada se alterou no quadro sócio econômico do Brasil...

 Roberto J. Pugliese
Membro da Academia Itanhaense de Letras
Membro da Academia Eldoradense de Letras
Autor de Terrenos de Marinha e seus Acrescidos.
pugliese@pugliesegomes.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário