quinta-feira, 24 de julho de 2014

Lourenço, menor púbere. ( memória nº 96 )


Memória nº 96

Maria José, Dedé, Pelé e outras lembranças.

 

Por volta de 1960 quando residia à Rua Senna Madureira, 566, na Vila Clementino, estudava no Arquidiocesano de São Paulo e não estava, como sempre, indo bem nos estudos. Talvez tenha ficado de segunda época ou qualquer outro incidente que o obrigou permanecer na cidade durante uma semana, ficando com seu pai e Maria José, a empregada. Permaneceria em São Paulo estudando.

 

Recorda-se bem: era negra, bonita, alta, quase mulata, ou uma bela mulata, quase negra,  com traços bantos, que a tornavam bonita de rosto, com boca larga coberta de belos dentes e  covinha numa das bochechas, com sotaque bem forte do interior paulista. Seus olhos castanhos escuros eram bem vivos e amendoados. Tinha algo interessante nas suas formas e modo de ser  que a fazia atraente e charmosa. Muito atenciosa era querida pelas crianças da casa. Enfeitiçara Lourenço.

 

Costumava usar vestidos bem colados ao  corpo, demonstrando seus contornos, com a exuberante bunda sempre salientada no conjunto. Seus decotes, nem sempre eram generosos, mas permitia a Lourenço ter a noção do que estava por detrás daquele ornamento, já que não costumava usar sutiens ou qualquer outra proteção, permitindo em certos lances a visão de seios, pequenos, duros e pontudos.  Tetas menos escuras contrastavam com o colorido do corpo.

 

Maria José tinha as pernas bem feitas e suas coxas bem torneadas que davam o encanto necessário para fomentar a imaginação imatura e bem prodigiosa. A negra provocava inconscientemente o pequeno fã. Atrás daquele corpo provocador, sempre que podia, ficava próximo levando papo, jogando conversa fora, numa tentativa, quase que absurda, de conquistar a mulata desejada.

 

A moça, meio menina, meio mulher, meio mulata, meio morena, aguçava a imaginação, provocando Lourenço, pelo timbre da voz, pelo balanço de seu andar, pelo modo de olhar, pelo todo, pelo tudo. Uma doce formosura que enfeitiçara o menino.

 

Corria final 1959 talvez. Ela com seus vinte anos, não mais, transformou em premio o castigo que fora aplicado ao garoto que não pode viajar. O castigo virara prêmio. Na sua precocidade achava-se suficientemente gente, com os seus dez ou onze anos, para se revelar e poder possuí-la. ( louca imaginação do imberbe )

 

A semana inteira, durante o dia, ele e ela a sós na casa vazia de mãe, irmãos e do pai que só chegava à noite era o ambiente propício para que pudesse revelar-se homem. Desejo não lhe faltava.

 

Lourenço não desgrudava. Não a deixava sossegada. A seguia e perseguia. Subia, descia e acompanhava a menina pela casa toda.  E conversa daqui, conversa dali, encosta de lá, passava mão descuidadamente, encocha acolá e, quando se deram conta,  numa tarde ensolarada, conseguiu.

 

A mulata de saia rodada e camiseta branca fora lavar o quintal. Molhada pelo esguicho deixava marcas visíveis dos mamilos endurecidos e seios semi grudados na roupa. Rosto e pernas em sopas. Molhação recíproca, zoeira geral, brincadeiras e água para todo o lado. De repente, se viram seminus. Ela só de calcinha toda molhada e ele, audaciosamente já pelado foram para o chuveiro.  Juntos terminaram a tarde ensolarada num banho longo, prazeroso e inesquecível.

 

Dedé aconteceu depois. Não era tão alta. Branca, bem clara, gordinha, de cabelos curtos, era delicada, atenciosa. Muito querida, provocava em Lourenço sensações  que conhecera com Maria José. De Minas, trazia consigo o linguajar inconfundível de Pocinhos do Rio Verde, de onde viera. 

 

Sutilmente, despretensiosa, era maliciosa o bastante para deixar Lourenço envolvido pelo sua cadencia, formas e beleza brejeira. Trocavam olhares sem inibição. Seduziam-se reciprocamente pelos  olhares gulosos.  Quase se comiam pelos olhos...E aos poucos foram se aproximando. Tornaram-se mais íntimos. Amigos. Desejosos. Não conseguiam disfarçar as intenções.

 

Ela nos seus exuberantes 25 anos talvez. Um pouco mais. Ele, com menos de treze, ainda morava na mesma rua e queria conhecer o mundo, começando pela Dedé que o encantava. Fetiche de pele e cheiro. Química pura muito perigosa.

 

O tempo passava e por mais que planejassem o momento desejado não acontecia. Até que o destino conspirou favoravelmente aos interesses dissimulados de ambos: Numa noite qualquer, na quebrada da Rua Botucatu, encontraram-se por acaso e seguiram juntos até um beco. O por acaso, daquele acaso, que se tornou um caso, se repetiu algumas vezes... Sempre no mesmo beco.

 

Com Pelé foi diferente. Era uma negrinha retinta. Bem pretinha. Gordinha, toda durinha, com peitinhos durinhos e pequenos, tinha um bumbum roliço e transparecia admitir qualquer bagunça. Era do Mato Grosso, onde morava com  a família dos tios de Lourenço que vieram passar o natal em Itanhaém, na casa dos avós, na Praia dos Sonhos.

 

Com ela, Lourenço e seu primo mais velho e já experiente, aproveitavam a movimentação da casa, a ausência dos primos, dos tios e com a permissibilidade admitida, revezavam-se nas investidas quase diárias.

 

As brincadeiras eram tão interessantes que Lourenço largava seus amigos do Iate Clube, pegava sua bicicleta e desde a Prainha ia visitar os primos, tios e avós, cuja casa era à Rua Santos, na outra ponta da Praia dos Sonhos, quase que diariamente só para não perder Pelé de vista.

 

Outra lembrança é da quase prima Lourença Renata. Filha de um irmão de sua avó materna.  Lourença já  era mulher, adulta e ele ainda criança, tinha por ela algo que sentia e não sabia explicar. As vezes, no silencio da imensidão do nada, quando iam na piscininha de Anchieta, no Cibratel, nadavam juntos e se faziam presentes. Era agarra-agarra, beliscões, agrados, afagos, mergulhos, braçadas. Conversinha ao pé do ouvido, beijinhos e amasso meio confuso e desajeitado de quem não sabe mas finge que sabe, entre uma quase mulher e uma criança. (...)

 

Outra quase prima também de II grau, igualmente mais velha e bem bonita que também provocava sentimentos especiais era Lourença Clélia, que morava em Curitiba e pouco se viam. Certa vez, ela e a família passaram alguns dias em Itanhaém na casa da Prainha e Lourenço quase se apaixonou... Só restaram lembranças.

 

Paixão impossível se for considerado que a prima já passava dos dezoito anos e Lourenço era apenas um pirralho com menos de dez anos. Paixão meio platônica, meio safada, meio esquisita. Nada mais que isso.

 

Essas recordações ficaram. Elas se foram. Não sabe o destino. Apenas guarda as boas e inesquecíveis recordações. E elucubrações fantasiosas trancadas a sete chaves.

 

 

 Roberto J. Pugliese
Membro da Academia Eldoradense de Letras
Membro da Academia Itanhaense de Letras
Titular da Cadeira nº 35 – Academia São José de Letras

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