terça-feira, 1 de outubro de 2013

Histórias de futebol. ( memória nº 26 )


Memórias ( nº 26 )

Lourenço e o futebol

 

Como a maioria dos brasileiros Lourenço nasceu ouvindo falar de futebol e chutando bola. Lembra-se que na primeira infância, residente à Rua Orissanga, próximo à Praça da Árvore, em Mirandópolis, numa tarde de sábado ou domingo, presenciou seu pai assistir pela televisão, a final do campeonato paulista, no qual o São Paulo venceu o Corinthians por 3 gols.

 

Recorda-se que naquela tarde de 1957, Canhoteiro, provavelmente o ponta esquerda melhor que o Brasil já teve, fez um dos gols; que o saudoso Gilmar dos Santos Neves correu atrás dele ou do Maurinho e que ora ia até a sala assistir a televisão, ora voltava para o quintal e chutava bola, no entusiasmo do campeonato que não entendia muito bem.

 

Tem na memória que realmente Canhoteiro foi um grande jogador de futebol, homenageado por Chico Buarque com a letra de uma de suas canções a ele dedicada e também pelo Fagner que repetiu outra homenagem também numa de suas canções.

 

Lourenço certa vez foi ao Sindicato dos Corretores de Imóveis do Estado do Maranhão proferir uma palestra sobre tema de seu conhecimento. No entanto, antes de iniciá-la, fez questão de lembrar de Canhoteiro, saudoso filho de São Luis, tecendo algumas considerações à respeito.

 

Lembra-se bem, que na final da Copa do Mundo de 1958,  estavam em Itanhaém e seu pai, os vizinhos, Cajado e Doc, no portão, com um radinho japonês portátil, em pé, escutavam atentamente aquela final histórica, que o Brasil ganhou por 5 x 2 da Suécia...

 

E por gostar de futebol e torcer para o São Paulo Futebol Clube, sempre quis jogar, participar de peladas e de campeonatos na escola e com os amigos do bairro ou do clube... Mas não deu certo. Sempre foi um péssimo jogador. Ora jogando no gol, ora na condição de médio volante, ora na ponta direita, nunca deu certo. Mas sempre tentou.

 

Mas por gostar tanto da bola se dedicou ao futebol de mesa, guardando até hoje, medalhas e taças que ganhou em diversos campeonatos que disputou durante os anos que se dedicou a essa atividade. Seu time era o Continental, com goleiros que eram caixa de fósforos e os jogadores, tampa de relógio, pintadas de branco, com numeração em vermelho: Atlas, Minúsculo, Laércio, Nestor e Olavo. No ataque, Ciro, Cardoso e Guanabara. Pagão, Locão e  Álvaro... era a formação titular.

 

Jogou muitas partidas com os amigos de Itanhaém e de São Paulo. Com freqüência ia à casa do Giba e do Palu, dois saopaulinos, que conheceu em Itanhaém e construiu grande amizade, jogar, nos sábados à tarde, futebol de botão. A noite, saiam Giba e Lourenço e seguiam ate o auditório da TV Excelsior para ver o movimento da plateia do programa do Chacrinha, na rua Nestor Pestana...

 

Palu àquele tempo residia na rua Avanhandava, numa cobertura esquina com a rua Augusta, onde instalavam a mesa e aproveitavam para espiar as meninas dos apartamentos nas imediações. Eram, já aquele tempo, voyeurs, precoces...

 

Aos treze anos, foi convidado pela revista infanto juvenil, editada pela recém inaugurada Editora Abril, cuja sede era à Rua Álvaro de Carvalho, em São Paulo,  num andar qualquer de um prédio escuro, frio e velho, próximo ao viaduto, para entrevistar José Poy, goleiro do São Paulo Futebol Clube, de quem era fã.

 

A revista Diversões Escolares circulava uma vez por mês. Destinada a jovens, tinha uma sessão chamada “ Os pequenos entrevistam os grandes “e foi aceita a sua proposta para entrevistar o jogador que completara 500 jogos pelo clube.

 

Em dia e hora marcada pelo editor seu pai o levou à editora, que com o jornalista responsável foram ao Estádio do Morumbi, ainda em construção, e lá, após o treino regular, puderam tirar fotografia e promover a entrevista que foi publicada.

 

Noutra ocasião, já adultos, nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1970, o Brasil  iria jogar com o Paraguai no Maracanã. Omir, Gil e Lourenço foram assistir. Recorde mundial de público. Um mundão de gente, com mais de 200 mil pessoas na platéia. Bagunça geral. Logo à entrada, a confusão fez com que, se dispersassem no empurra empurra. Cada um jogado para um canto.

 

Lourenço era magrinho, fino, leve. Praticamente não pisava no chão. Foi impactado pela multidão e ao chegar às arquibancadas, simplesmente jogado. E de fileira em fileira era jogado até que caiu praticamente no colo de uma mulata. Acomodou-se aos seus pés e ficou... Pelé fez o único gol e classificou o Brasil para o campeonato mundial.

Por ser torcedor do time mais querido da cidade, como é chamado o Tricolor do Morumbi, assistiu com os amigos, e organizou um churrasco à sua casa, quando em 1992, teve a primeira decisão, que o São Paulo disputou em Tóquio o título mundial intercontinental.

 

Foi muita alegria. Só torcedores do São Paulo reunidos naquele principio de madrugada e assistiram o tricolor virar o jogo. Campeão mundial.

 

Depois fizeram carreata. Circularam por toda a Gurupi comemorando o primeiro título de  Campeão Interclubes. Reunidos, os torcedores após o jogo, foram à uma festa que estava em andamento no CTG – Centro de Tradições Gauchas e tomaram conta do baile por alguns minutos.

 

Quando o São Paulo estava construindo o estádio do Morumbi, que pelo seu tamanho se transformou no maior estádio particular do mundo, Lourenço e seu irmão ganharam duas cadeiras cativas do pai, também torcedor do clube, que, a sua, agora foi dada ao seu filho. Sua irmã ganhou um título do clube.

 

Interessante que numa disputa da Copa  Libertadores das Américas, provavelmente em 1973, o Clube tinha um jogo marcado para um sábado à noite, no estádio do Pacaembu. Salvador, seu colega de faculdade foi  buscá-lo e chegaram atrasados no espetáculo. Olharam a arquibancada e viram um ponto, vazio e lá sentaram.

 

Jogo já em andamento e no silencio se acomodaram. Gol do São Paulo: Pularam de alegria para comemorar. Estavam na torcida do Independente da Argentina. Foram vaiados. Receberam cascas de laranjas... e permaneceram o resto do jogo bem quietinhos. Final 1x1.

 

Quase quarenta anos após, o São Paulo Futebol Clube foi à Belém disputar uma das eliminatórias da Taça do Brasil. Jogaria com o Independente  de Tucurui. Coincidência, Lourenço estava por lá e soube que Salvador também estava. Encontraram-se e foram assistir: São Paulo ganhou de 1 x 0.

 

Enfim, nas memórias constam guardadas inúmeras lembranças de jogos. Uma delas foi a Seleção Paulista, contra a Seleção da Hungria que jogou no Pacaembu, num domingo à noite e venceu bem. Fora  assisti-lo com o saudoso Palú, recentemente falecido e o Giba, antigo amigo que perdeu o contato. Ambos sãopaulinos.

 

Outro jogo que não esquece, também no Pacaembu, em que o São Paulo enfrentou o Corinthians. Quem o levou foi o padrinho do Correia, seu velho e querido amigo. Todos também são paulinos. E no meio do jogo o padrinho se encrencou com um corintiano e deu uma guarda-chuvada...

 

Acompanhando o tricolor esteve duas vezes no Estádio Santa Cruz, em Ribeirão Preto, uma delas com a sua mulher. São Paulo ganhou uma, com gol de Terto e noutra perdeu. Esteve em Campinas no Brinco de Ouro da  Princesa; no Maracanã onde assistiu uns dois ou três jogos do time; no estádio do Coritiba e na Ressacada do Avaí. No Canindé também esteve. No Morumbi e no Pacaembu incontáveis vezes.

 

Quando cursava Direito na Faculdade Paulista de Direito, da PuC, recorda-se que seu amigo Antonio Roberto, então já formado, atualmente juiz de direito aposentado, o convidou para ser escrivão do Tribunal de Justiça Desportiva da Federação Paulista de Esporte Universitário, FUPE. O amigo era auditor. Como tal, viajou para Vitória e para Belo Horizonte... em campeonatos universitários brasileiros.
 
 
Recorda-se que num outro campeonato brasileiro, que se realizava  em São  Paulo, a seleção gaucha enfrentou a catarinense, no Ibirapuera, num campo de algum clube privado... torceu para os barrigas verdes, mas não teve sucesso.

 

Numa de suas obras jurídica literária, fez questão de inserir na orelha, onde estampa seu currículo, que tem muito orgulho de torcer para o São Paulo Futebol Clube.

 

Enfim, desde que nasceu acompanha o futebol e seu clube de coração. Lembra-se, portanto muito bem do jejum de títulos que o clube passou tendo se dedicado à construção do Morumbi. Mas lembra-se também  do bi e do tri campeonato mundial e têm essas lembranças como fatos, talvez destacado entre os mais importante de sua vida.

 

Quando seu pai faleceu, por iniciativa de seu filho, o caixão foi coberto pela bandeira do São Paulo, clube que ajudou a fundar nos idos de 1935...

 

Enfim, desde que nasceu, o futebol e o S.P. F. C. o acompanha...

 

Roberto J. Pugliese
www.pugliesegomes.com.br
Autor de Direito das Coisas, 2005 - Leud

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