domingo, 16 de fevereiro de 2014

Aventuras no mar. Navegando. ( memória nº 66 )


 
 
Memória nº66
Navegando.
 
Desde criança sempre navegou.
 
O seu gosto por embarcar, navegar, pilotar, esquiar em rio ou mar o levou inclusive a mudar-se de sua querida São Paulo. Não se contetava ir à praia nos finais de semana. Queria estar permanentemente junto de rio, mar, lago. Enfim, queria navegar.
 
Navegar é preciso. Exige muita certeza, precisão e técnica.
 
Recorda-se bem que ao tempo, ainda recém casado, quando frequentava a casa do Fortunato, numa praia perdida e isolada, no Saco de Mamanguá, em Paraty, partiam do porto e assim que dobravam a baia, firmavam uma rota reta em direção de Mamanguá e assim navegavam até, terem visão da praia, já na boca do Fiorde tupiniquim, quando apontavam outra rota e com a precisão indispensável, seguiam até encalharem na porta da casa.
 
Quando residiu em Cananéia certa vez foi à Iguape pelo Lagamar. Convidou o saudoso Ernesto Matheus, conhecedor do Mar Pequeno, e numa tarde saiu para participar de uma audiência no Forum da Comarca vizinha.
 
No Flamingo, a  lanchinha de 13 pés, com duas maletas, uma com os documentos para a audiência e outra com os trajes indispensáveis para a solenidade judiciária, em pouco mais de uma hora venceram os aproximadamente 40 km. de Cananéia à Iguape.
 
Aportou no Mercado Municipal, onde se vestiu no banheiro e seguiu para o Forum.
 
(...)
 
Meia hora depois estavam retornando.
 
Assim que escaparam das vistas da cidade, Lourenço praticamente despiu-se e prosseguiu de cuecas até aproximar-se de Cananéia.
 
Passeio inesquecível. Tão inesquecível quanto ao que juntamente com Antenor e o inesquecível Gil, fizeram, descendo num bote salva-vidas de inflar, o Camarão, movido por um motor dois tempos, 7,5 hp., durante praticamente um dia inteiro, de Registro a Iguape.
 
Àquele tempo ainda navegava no aludido trajeto um pequeno barco da FEPASA, que parava de sítio em sítio e lugarejos para levar e entregar pessoas e mercadorias. Fazia a linha uma vez por semana entre Registro e Iguape.
 
O Rio Ribeira com suas curvas foi o cenário que os três passaram aquele sábado ensolarado. De tempo em tempo um ou dois mergulhava e acompanhava o barco, com o motor desligado, descendo mansamente pela força do rio.
 
Paisagem pitoresca. Rio bem largo e de correnteza. Fazendas de gado, de arroz, de bananas e de chá ao longo das margens nas proximidades de Registro. Barrancos e despraiados faziam do Ribeira um leito largo a maioria das vezes e ora estreito. Casas humildes e pobrezinhas de pequenos agricultores descendentes de japoneses eram vistas com frequência. Crianças davam até logo quando passavam ao largo das fazendas.
 
Passaram por Jaire e Baicó, povoados isolados pertencentes à  Iguape, mas não pararam. Dia ensolarado, quente, inesquecível.
 
Por volta das 18 horas chegaram a Iguape. Não havia a barragem do Valo Grande e assim encostaram próximo onde existe atualmente a passarela que liga ao Rocio. Desmontaram o barco, ensacaram, tiraram o motor, procuraram um transporte e duas horas depois chegavam no Hotel em Registro onde pernoitaram à véspera para que pudessem sair cedo.
 
Noutra ocasião, recém-casados, Lourenço e seus amigos Antenor, Lourenço, Lotti, Fortunato e mais uns quinze ou vinte casais alugaram o único hotel que existia na Ilha Grande. Na Vila do Abraão passaram o revellion de 1977.
 
Naquele tempo o famigerado presídio da Ilha Grande, onde ilustres personagens da história recente estiveram hospedado, estava ativo e numa das madrugadas daquela inesquecível semana de férias, alguns presos fugiram e os policiais determinaram que o bote salva-vidas que Lourenço levara, que se encontrava encalhado na praia próximo ao hotel, fosse recolhido, para evitar que ajudasse na  fuga.
 
No escuro, pois não havia energia elétrica pública, apenas o motor particular do hotel, com lanterna e ajuda de alguns hóspedes, o bote foi recolhido ...
 
Por ter essa paixão por mar e navegação, se entusiasmou e adquiriu um pequeno sítio na Ilha do Cardoso, em Cananéia. Um trato, na Enseada da Baleia, com 300 metros ao longo do Canal de Ararapira e igual metragem para o Mar Grosso, tendo nos lados, uns 60 metros.
 
Lá pretendia erguer um pequeno rancho.

Certa vez, levou três mudas de casuarinas, das quatros que adquirira na Barra da Tijuca, no Rio e junto com seu filho e mulher plantaram em pontos daquele imóvel.
 
O tempo passou, a área foi vendida e as árvores se transformam em floresta. Ao longo dos trinta anos que se seguiram, as três mudas se transformaram num bosque de casuarina.
 
Naquele tempo, ia com frequência à ilha. Ora no Marujá, ora na Enseada da Baleia onde tinha o sítio, ora no Ariri, a vila paulista mais ao sul do Estado e mesmo em Ararapira, em frente ao Ariri, no Estado do Paraná,que ainda era habitada.
 
Certa vez, num quinze de novembro qualquer, dia da campanha nacional de vacinação, retornava do Marujá para Cananéia, quando o tempo virou.
 
Céu limpo. Vento forte. Mar encrespado e revolto.
Não teve dúvida. Não pensou duas vezes.
 
Aportou na ilha da Casca, uma pequena ilhota com duas construções, onde a USP naquele tempo mantinha um centro de pesquisa e  fazenda experimental de criação de ostras e, decidido ficou por lá.
 
- Vamos pernoitar por aqui. Amanhã com o tempo bom seguimos.
 
Enfrentar a baia de Trapandé, ele, mulher e o filho pequeno seria um risco enorme... O Flamingo era uma lancha pequena e frágil para mar aberto e revolto.
 
Estavam aguardando o anoitecer, por volta das 18 horas naquela tarde ensolarada, Tritão, a lancha da base do Parque Estadual passou ao largo da ilha e parou diante do chamado dos três.
 
(...)
 
O Flamingo, a lancha da família, voltou rebocada e os três no Tritão, que retornava depois de ter servido de transporte para os técnicos da Secretaria da Saúde que foram vacinar os ribeirinhos que habitavam os igarapés, ilhas e remansos do sul de Cananéia.
 
Com a segurança que o barco oferece enfrentaram as ondas fortes e o vento até chegarem no Porto Bacharel no centro de Cananeia.
 
Noutra oportunidade, após um carnaval que haviam passado em Ilhabela, Lourenço, com a nora, filho e mulher foram passar dois dias no Marujá.
 
Na ida, o compadre Aroldo os levou numa de suas escunas e na volta, os trouxe num barquinho de alumínio.
 
Estavam próximo a Ilha da Casca quando o mar virou. O tempo fechou. Vento e chuva. Banho geral.
 
Com a experiência Aroldo cortou por um furado e adentrou na baia de Trapandé, porém, percebeu que não daria para enfrentar a tormenta. Chuva forte de verão. Tempestade com raios e pingos grossos. Vento muito forte encrespou o mar. Com dificuldade manobrou driblando a força da natureza muito brava naquela tarde escura e aportou num barranco em frente a casa do Cardoso.
 
Um pequeno e muito pobre rancho de dois cômodos.
 
Lourenço debaixo da tempestade, enquanto se ajudavam a tirar as tralhas e amarrar o barco, praticamente invadiu a casinha e pediu abrigo, sendo muito bem recebido pelo caiçara hospitaleiro.
 
Duas horas depois o sol voltou, tudo se acalmou e seguiram viagem. Chegando a Cananéia perceberam que havia embarcações viradas, casas destelhadas, antenas de TV espalhadas com arvores jogadas pelos leitos das ruas...
 
Enfim, não faltam histórias. Boas lembranças de aventuras no mar, em rios, lagos e praias.
 
Roberto J. Pugliese
Membro da Academia Eldoradense de Letras
Membro da Academia Itanhaense de Letras
Titular da Cadeira nº 35 – Academia São José de Letras  

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