sexta-feira, 23 de maio de 2014

Penedo: O restaurante. ( memória nº 88 )


Memória nº 88
Incidente em Penedo e outras histórias.

 

Retornavam de Vitória, Es. Passaram os festejos de primeiro de ano na ilha-capital, estiveram em Guarapari, Penha e nas redondezas passeando.

Foram a procura de um cientista que fabrica vacinas contra diversas doenças e cura outras, inclusive reumatismo, artrose, artrite. As vacinas são enviadas pelo correio e o tratamento que dura aproximadamente 24 meses dá resultado e tem um custo bem barato.

 
 
 

Foram de carro por um caminho alternativo. Evitaram passar pela região metropolitana do Rio e desde Volta Redonda seguiram primeiro pela Rio-Bahia e depois por rodovias estaduais cruzando o sul de Minas Gerais e o pobre e decadente norte carioca. Pousaram na cidade de Anchieta,Es. fundada pelo próprio Santo quando missionário no Brasil Colônia. Lá ele faleceu.

 

Na volta também criaram outra rota alternativa e seguiram por rodovias estaduais bem próximas ao litoral. Sem pressa, no entanto, tiveram que retornar à BR 101, pois a travessia do Rio Paraíba do Sul se faz através de ponte apenas na cidade de Campos, uma grande cidade estrategicamente localizada no centro norte do Rio de Janeiro.

 

Deram uma volta pela cidade e seguiram para Atafona, balneário decadente próximo à foz do Rio Paraíba do Sul, onde o mar está avançando para dentro da cidade. Parte considerável de ruas, praças, avenidas e o pior, prédios e casas uni familiares já foram engolidas, sendo substituídas por água salgada, areia e restos de construções, formando cenário bastante assustador.

 

A cidade está bem judiada. Passaram apenas uma noite e seguiram viagem.

 

Talvez em Atafona ou antes algo não fez bem para Lourenço. Sentiu-se enjoado, com indisposição estomacal bastante acentuada. Em Búzios onde pernoitaram não teve muito interesse em sair da pousada e não jantou bem.

 

No entanto, sem dar importância, no dia seguinte seguiu viagem, atravessou a ponte Rio-Niteroi e foram pousar em Penedo, já bem ao sul, próximo à divisa de Estado de São Paulo e sul de Minas Gerais.

 

Uma cidadezinha colonizada por nórdicos descendentes da Finlândia, Suécia, Dinamarca e Noruega, é um brinco precioso, bem organizada, florida, limpa e ponto turístico de fama internacional.

 

Próxima à Rezende, próspera cidade junto ao Rio Paraíba do Sul, Penedo fica bem ao pé da Serra da Mantiqueira e é o portal de entrada do Parque Nacional de Itatiaia, o primeiro parque nacional criado no país, pelo então ditador Getúlio Vargas.

 

Como não estava bem, Lourenço ao chegar resolveu dormir um pouco antes de sair para jantar. Meio febril e zonzo também cansado pela viagem dirigindo desde Búzios, pegou no sono pesado e acordou já ao anoitecer.

 

- Vamos jantar. Vou pedir uma sopa para mim.

 

Realmente Lourenço não estava bem, pois não costuma tomar sopa. Aliás não gosta. Seu paladar exige outros comensais mais fortes.

 

Estacionaram à frente de um restaurante que ainda estava vazio, já que ainda era bem cedo para que os fregueses aparecessem. Atendidos pelo maitre, o salão vazio, diversos garçons pronto para servi-los, sentaram-se e pediram a sopa, pães e bebidas.

 

Passado um certo tempo chegou o jantar e Lourenço começou a tomar a sopa com bastante prazer, já que era capeletti e estava bem temperada e provavelmente com bastante fome.

 

Uma, duas, talvez na décima garfada, sentiu que o estomago embrulhara de vez. Não teve tempo de avisar a mulher, pedir licença e num golpe rápido, levantou-se e correu para o banheiro.

 

- Hum. Roo. Chu...

 

Eram grunhidos altos que o salão vazio, fazia com que ecoasse por todo o estabelecimento. Vomito interminável. Sopa daquele jantar e outros alimentos que não caíram bem, provavelmente desde a passagem do ano em Vitória.

 

Passados uns cinco minutos de vômito ou, como imaginara, a eternidade infinita, lavou-se, molhou a testa e sentido-se bem, aliás otimamente bem, rumou à mesa, sentou-se e continuou a jantar.

 

Cercado por maitre, garçons e sob o olhar incrédulo da mulher, foi questionado diversas vezes:

 

- Tudo bem senhor ? Tudo bem doutor? ( tudo bem, tudo bem, tudo bem... )

 

(..)

 

Ao saírem, o salão já  estava com bastante fregueses esperando o jantar... e para fechar a noite com chave de ouro, o alarme do carro disparou e demorou alguns longos minutos para que cessasse a sirene intermitente.

- Eu não volto nunca mais nesse restaurante, disse decretando com vergonha e autoridade, Lourença esposa.

Roberto J. Pugliese
Membro da Academia Eldoradense de Letras
Membro da Academia Itanhaense de Letras
Titular da Cadeira nº 35 – Academia São José de Letras

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