segunda-feira, 21 de abril de 2014

1949 da Era Cristã. ( memórias nº82 )


Memória nº 82
Vivendo e apreendendo para que a história não se repita.

 

Foi durante a madrugada fria da cidade de São Paulo quase em 1950, às vésperas do tradicional dia do pendura  que ele nasceu. Asdrubal da Cunha já era o prefeito que administrava do Palácio das Indústrias; Adhemar de Barros sucedera o Embaixador Macedo Soares e governava o povo paulista no seu gabinete nos Campos Elísios e aquela quarta feira tipicamente de inverno tinha estampada no Diário da Noite, entre outras notícias, que La Vie en Rose, cantada por Edith Piaf, através dos discos de cera de carnaúba, 78”  rotações por minuto, tornara-se sucesso internacional. Inclusive no Brasil.

 

Num Citroen, 1946, preto, com paralamas laterais fora da carroceria, estribos expostos e o simbolo da tradicional marca em v sobreposto ao contrário no frontespicio do radiador, sua mãe, fora levada pelo pai às vésperas para a Maternidade São Paulo, nas emidiações do espigão da já aristocrática avenida Paulista, na qual então circulavam bondes elétricos, cujos trilhos eram ladeados por paralelepípedos que a par de enfeitar o solo, acrescentando charme ao elegante logradouro serviam para evitar a erosão do asfalto, provocada pela trepidação do transito daqueles coletivos.






 

 

No alto da Bela Vista, bairro suis generis, no qual, de um lado, mansões pertencentes à rica elite industrial e aos prestigiados fazendeiros de café habitavam, convivendo harmoniosamente Matarazzo’s e Lunardelli’s,  e de outro, mais ao norte, nos baixios do charco, ao redor da Igreja da Achiropita , nas proximidades do que alguns anos depois seria aberto o túnel, a avenida e a praça, o mesmo bairro da Bela Vista era palco de bodegas  populares, cercados de cortiços, no qual, italianos, também em harmonia às transformações sociais que se iniciavam, estavam cedendo suas casas para chegantes que contribuiam para que a cidade já alcansasse mais de um milhão de almas.

 

Nos páteos da aduana, no porto de Santos, importada pelo Deputado Federal Ortiz Monteiro,aguardavam emboloradas pelo tempo, a fiscalização severa de seus opositores, as inúmeras caixas com  aparelhagem da futura TV Paulista. No ano seguinte, a TV Tupi, canal 3, a pioneira na América Latina, pertencente ao poderoso Assis Chateaubriand, sem qualquer fiscalização desembarcou e subiu a serra, sendo solenemente inaugurada com a presença do presidente da república Getúlio Vargas, do Cardeal Motta e da graciosa menina Hebe Camargo, entre tantas autoridades e artistas, dois antes da concorrente que chegara primeiro.

 
 
 
 
 

São Paulo era símbolo de progresso, riqueza e desenvolvimento.A cultura e a organização social paulista já começava a provocar ciumes. Dispunha de dinheiro, mas o poder político a submetia a tragédia dos incompetentes, provocando o inconformismo, que outrora levou às trincheiras milhares de patricios pela Constituição.

 

Próximo à elegancia da avenida Paulista, o Pacaembu, estádio municipal, inaugurado em 1940 era então o maior do país. A Atlantida no Rio e a Vera Cruz  em São Paulo, disputavam musicais  em preto e branco,  ao som do Bando da Lua e da Orquesta Tabajara,   para exibirem nas  grandiosas salas dispostas ao longo das avenidas São João,  Ipiranga e redondezas, chanchadas estreladas por Mazaropi, Carlito, Grande Otelo, Virginia Lane, Dorinha Durval e valioso elenco. 

 

A cidade era calma, elegante, com o povo educado, desconhecendo a violencia e a multidão estúpida dos anos seguintes. Poucos automoveis pelas ruas  arborizadas em que retangulos de gelo  de cinco quilos eram pelas manhãs, deixados nas calçadas por serem raras as geladeiras domésticas, juntamente com o pão em filão e o leite, envasado em garrafas típicas com gargalo e a boca largas. Alguns também recebiam exemplares dos concorridos A Gazeta, Folha da Manhã e Diário Popular. Bucólico o  cenário da paulicea então ainda romantica e européia, com garbosos guardas-civis que circulavam equilibrados em bicicletas pintadas de preto e branco, de paletó e gravata, cacetetes, chapeus e luvas brancas, contrastando com o azul escuro de seus trajes.

A Via Anchieta ainda não fora totalmente concluída, mas o Hospital das Clínicas já se tornara a menina dos olhos de todos brasileiros. Essa era a síntise de uma cidade, de um povo e do estado federado que renascia com a democracia recém implantada em 1945.Nesse quadro épico, quase perdido no tempo, ele veio à luz.

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Mirrado, magrinho e bem pequeno, com peso e tamanho ínfimos, logo se recuperou da pressa de ter nascido com apenas oito meses. Mas chorava muito.

 

- Doi o ouvido, dizia um. É dor de barriga, dizia outro. Chama o médico... e a criança chorava dia e noite. Não mamava no peito, comia pouco e chorava muito. Vamos levar à benzedeira, profetizava alguem experiente. E o menino chorava.

 - É o frio... - É o barulho... - Ele quer colo... cada um que via, ou ouvia, dava sua contribuição.

(...)

 

Nunca foi um desportista. Não era de fazer força, usar da violencia ou praticar qualquer atividade esportiva. Jogava futebol, talvez por ser brasileiro e igual aos demais patrícios, gostar do esporte bretão. Era péssimo jogador. Muito ruim, nas peladas informais ia para o gol. No Arquidiocesano, onde estudou por cinco ou seis anos, era o suplente do timinho da sala de aula.

 

Percebia que ao repor as bolas que eventualmente agarrava, pois era frangueiro, mesmo sendo destro, a sua direção seguia sempre à esquerda. Nos raros jogos de volei,  a situação se repetia. Não dava muita importancia, mesmo intrigado, pois praticar esporte era tão ruim como ter que comer fígado ou palmito no almoço e sopa de aveia no jantar... Só por obrigação.

 






 
Comia pouco. Magro, muito magro, também não se desenvolvia, sendo bem menor que outras crianças de sua idade. Preocupados seus pais consultaram médicos para ver como resolver a inapetencia e o crescimento. Não havia remédio: Emunsão de Escote, Óleo de Fígado de Bacalhau, cálcio Genol, Biotonico Fontoura e outras bogagens da época. ( Não existia Vitasai ) Magro, pequeno, fracote... era palco de gozação de parceiros maldosos ou amigos próximos. Uma caricatura nariguda, esquálida que mal parava em pé.

 

Certo dia, foi decretado que iria para academia de ginástica. Coisa rara por volta de 1963. Luxo para poucos que gostavam de praticar esporte. Castigo para ele.

 

Na avenida Santo Amaro, próximo à rua Verbo Divino, no primeiro andar de um sobrado sujo e decadente, sobre uma loja qualquer, Mário Amaral, o conhecido protagonista do Gigante Amaral, das populares cestas de natal, tinha um dos raros estabelecimentos no genero e lá que foi matriculado para a prática de exercícios duas vezes por semana.

 

Um salão escuro, amplo, com aparelhos fixos no solo e nas paredes, cuja pintura desgastada pelos anos, mostravam um cenário triste, que mais parecia uma das salas de torturas descritas por Dante, nos epísódios de sua maior obra.

 

- Horrível.

 

Levantar peso, correr, esticar a perna, fazer flexões, competir com outros jovens mais encorpados,  suar, suar, suar... Ginástica assim e assada. Deitar naquele chão empoeirado, sujar as mãos, abraçar e se agarrar ao parceiro do lado...( Tanta coisa melhor para se fazer – ou nada fazer.)

 

- Que merda. (? ) ( ! )

 

Não sabia se questionava a trágica situação de sua vida ou a aceitava pacientemente.

 

Não sabia como resolver a cina trágica de estudar química, física, matémática, sair cedo enfrentando ônibus sujo e fedido para ir, debaixo de chuva fina para escola e ainda ser obrigado a fazer ginástica... Como resolver o problema que o atormentava. (? ) Era a gota d’água para o copo daquele adolescente imberbe.

 

Numa daquelas tarde, no salão sombrio da academia, o professor Amaral pediu que chamasse seu pai. Urgente. E assim foi feito.
 
 
 
 

 

- Seu filho tem um problema no braço. Veja: Não estica. O esquerdo é normal.

 

Mexe daqui, mexe dali, levanta, estica, põe para lá, põe para cá e foram para o médico.

 

Dr.Aleixo, o ortopedista  que o examinou entendeu recomendar  alguns exames no Hospital Santa Catarina, onde atletas de clubes de futebol, se tratavam, dada a alta especialidade no assunto e equipamentos de primeira linha ali instalados.

 

Foram vários exames. Num deles,  deitado numa cama de ferro, iria ser fotografado ou algo assim, percebeu que sobre seu corpo, alguns centimetros acima, uma caixa de ferro pesada, suspensa por cabos e fios, poderia cair e falou com o médico a respeito.

 

- Não se preocupe menino. Isso nunca aconteceu... é bem fixo e preso. Vou ligar tudo, e descer o cabo para passar pelo seu ombro. Fique tranquilo.

 

O médico deu as costas e a aparelhagem caiu, fazendo um estrondo e assustando a todos... mas sem machuca-lo, pois a peça se espatifou rente à sua cabeça e ombro esquerdo. Coisas do destino.

 

(...)

 

Conclusão do ortopedista: Seu filho ao nascer deve ter quebrado o bracinho. Ou um familiar o pegou de mal jeito ou no hospital alguma enfermeira, ou caiu do berço... enfim, talvez a babá ou a madrinha ou alguém por descuido quebrou com poucos dias de vida e, por não saber se expressar, o braço foi sedimentado naturalmente, porém torto, dando esse defeito, que é imperceptível...

 

Assim, por longos meses, num passado já distante, Lourenço chorara no colo da avó Conceição, ora nos braços da tia Leta, ou nos seios de sua mãe. Ora receitavam chá para prender, ou leite para soltar, ou pingavam óleo no ouvido esquerdo, ou alcool no ouvido direito...e nada do choro parar.

 

Chorava sozinho no berço, nos braços do pai, do tio, do avô e numa angustiante injustiça irreparável, com o bracinho quebrado, se mostrava um nenezinho chato...  E sendo mínima a diferença comparado com o braço esquerdo, ninguém percebia que o antebraço, junto ao ombro direito se atrofiara alguns poucos centímetros e, a dificuldade para esticá-lo, não fora  notada por ele ou por qualquer adulto.

 

Enfim, a receita foi curta e horrivel: - Operar não vale a pena. Melhor praticar esportes. Jogar tenis, por exemplo... disse o médico na sua sabedoria. O exercício nessa idade deve ajudar.

 

- Veja os braços da Maria Esther Bueno !

 

Com raquetes novas que ganhara de seu avô, todo fardado à carater, tentou duas partidas, porém... Tentou pingue -pongue, menos exaustivo... porém...


 
 

Porém a cidade cresceu, extrapolou os próprios limites, subiu a serra de Mairiporã, atravessou a serra dos Cristais, se expandiu por todos os lados.

 

O planalto de Piratinga se transformou na mais vibrante metrópole do sul do planeta. O berço de Bartira, generosamente, sem destinção acolheu aqueles que a procuraram para melhor saber, melhor viver, melhor expor suas qualificações ignoradas noutros cantos. São mais de dez milhões de almas laboriosas.

 Chegaram ao longo do tempo os cabeças chatas, os olhos puxados, os gordos, os altos, os pobres, os famintos, os mansos e os perseguidos. Vieram todos que queriam ajuda. São Paulo inchou.

A Bela Vista se tornou o Bexiga dos teatros, da gastronoomia, dos menestréis e amigos da noite. Sede de Escolas de Samba, ponto de malandros, palco da boemia moderna. A Avenida Paulista transformou-se no coração financeiro do país, mandando para longe os industriais e os plantadores de cana, soja, acuçar  e o canal 05, do deputado passou para as Organizações Vitor Costa e foi engolido pelas Organizações Globo. O estádio do Pacaembu perdeu a charmosa concha acústica em desuso e virou Paulo Machado de Carvalho. Já não é mais  há longa data o maior.

 

As academias de ginásticas  se espalharam pelas esquinas; os poucos carros do pós guerra, agora se congestionam disputando espaço entre sete milhões que transitam diuturnamente na cidade que não dorme. A chanchada cedeu lugar para o cinema novo e foi se atualizando. As salas de exibições, desde ha tempos bem seletivas, se esconderam nos shoppíngs e tudo mudou. As novelas das televisões invadiram os lares graciosamente e as raras salas de cinema que ficaram nas avenidas, transformaram-se em igrejas ou faculdades.

 








 

Enfim, Lourenço desistiu do tenis e limitou-se a jogar futebol. Sim, jogar futebol: O popular futebol de mesa, numa tentativa menos cansativa  para desenvolver o braço curto. Mas não deu certo. E guarda com sabedoria a lição: Sua neta, que irá nascer em breve, se tiver crises de choro, não arriscará seja a herdeira injustiçada e será melhor observada, pois poderá seguindo o exemplo do avô, ter um dos seus bracinhos quebrados por algum descuido ou travessuras ( bla, bla, bla ... o resto todos já leram. )

 
Roberto J. Pugliese
Membro da Academia Eldoradense de Letras
Membro da Academia Itanhaense de Letras
Titular da Cadeira nº 35 – Academia São José de Letras

2 comentários:

  1. Puxa, relembrei de tanta coisa! Sinal dos tempos que também já passei. Gostei!!!

    Mara M. de Andréa

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