sábado, 19 de abril de 2014

Os indígenas e o chefe dos advogados. ( memória nº81 )


Memórias nº 81.

Indígenas – Ilha do Bananal

 

Os pais de Lourenço vinham de Belém. Aproveitaram para ir à Manaus e estavam retornando. A viagem pela Belem-Brasília além cansativa e perigosa, para um casal de velhos, que já eram seus pais, provocava preocupação para todos os familiares. Na ida foram diretos: São Paulo-Belém. Na volta pararam em Gurupi para descansar alguns dias.

Feriado de finados decidiu visitar a Ilha do Bananal, distante alguns quilômetros, mas próximo o suficiente para irem e voltarem no mesmo dia.

Como sempre, sol, calor, dia azul, alegre... Pela manhã seguiram para Formoso do Araguaia. Depois de um café, continuou em direção à maior ilha fluvial do mundo.

Lembra-se que após a cidade, andaram cerca de 50 km. numa rodovia atravessando um enorme banhado, onde há um imenso projeto de cultivo de arroz a perder de vista. Ao longo da estrada, um projeto de rodovia, então sem pavimentação, milhares de jacaré descansando sob sol. Impressionante. Impossível estacionar na rodovia dada a quantidade desses animais se expondo ao sol.

Por volta das 13 horas estacionaram às margens do rio Javaé. Não muito profundo, atravessaram à pé, com água pelas coxas. Ingressaram na ilha, que nessa parte, é território indígena. É sede de aldeia administrada pela FUNAI.

Os pais, a mulher e o filho foram adentrando pela aldeia.Lourenço precavido assim que chegou naquele território bem povoado de nativos, foi direto à sede da autarquia, se apresentou e pediu autorização para visitar. Perguntou se poderia filmar e se todos poderiam transitar livremente. Questionou se havia alguma restrição.

O funcionário, deitado numa rede, sem muita atenção e comportamento digno de autoridade federal, disse que não havia restrição alguma e liberou  a todos para circularem pela reserva indígena.

Passeio interessante. Diálogo com alguns indígenas. Ingresso em algumas ocas. Visão de plantio, antena parabólica, crianças com corujas amarradas à semelhança de cães encoleirados... Visitação muito pitoresca por quase duas horas sob o sol forte da Amazônia legal.

Filmaram tudo. Indígenas homens, mulheres, crianças, gay. Ocas, sistema de abastecimento de água e transmissão de eletricidade. Animais domesticados... Havia pasto, plantação, trator, jipe. Lourenço pai, ao lado de um velho índio. Lourença mãe, Lourença esposa com algumas indígenas...Tudo arquivado na mesma fita que havia filmado o trajeto e os incontáveis jacarés e aves coloridas.

Decidiram ir embora. Os pais se anteciparam e foram em direção ao Javaé para atravessarem. Lourenço filho e a mãe foram em direção a uma cachoeira, distante uns duzentos ou trezentos metros banharem-se. Lourenço aguardando nas margens do rio, percebeu u'a movimentação diferente dos indígenas quando.

- Dr. queira acompanhar, disse um jovem índio, indicando a sede da FUNAi, onde Lourenço negociara a visitação com o servidor federal quando chegaram.

(...)

Na salinha do pequeno prédio federal cerca de dez ou doze indígenas expuseram educadamente que não poderia ter filmado e que iam ficar com a filmadora...

No calor do ambiente apertado, cheio de gente e inúmeros argumentos trocados, soube da proibição de filmar.

(...)

Muita negociação, Lourenço convenceu a todos que entregaria a fita, mas que não sabia abrir o recipiente próprio para tira-la. Apenas Lourenço filho, então com doze anos de idade, magrinho, mirrado, aparentando até menos idade. Queria ludibriar a todos e sair com a máquina e as filmagens.

Diante disso os indígenas confabularam e determinaram que um indiozinho, talvez da mesma idade, fosse buscar Lourenço filho. Um adulto seria covarde se fizesse essa função, segundo foi esclarecido posteriormente. (!!!)

O menino chegou, acompanhado do menino-índio e percebeu o que acontecia e tentou abrir o recipiente que guardava a fita e mostrou não conseguir. Após diversas tentativas e percebendo que Lourenço disfarçara mandar abrir conseguiu e tirou a peça e entregou ao pai.

Era a fita simplesmente ou a máquina que seriam incinerados.

Não teve acordo. Decidiram que ficariam com a fita e, por conhecerem Lourenço e saberem que era chefe dos advogados e defendia indígenas e direitos humanos, iriam se reunir com outras tribos em Dezembro e, se tudo fosse acertado, iriam à Gurupi levar a fita para apagar o que fora gravado na aldeia e devolver.

- Índios conhecem Chefe de Advogados que defende índios e direitos humanos. A gente acredita no Doutor e faz acordo.

(...)

Sem a fita retornaram.

Em Formoso do Araguaia foram à delegacia de policia e lavraram uma ocorrência policial, já que a fita tinha imagens da família e poderia ter destino incontrolável. Ademais haviam sido ludibriados pelo funcionário que permitira o proibido. E sumira da aldeia. Permitira a filmagem e não ficara para dar a solução.

Após o final de semana, na segunda feira imediata, assim que saiu de casa, Lourenço foi à sede da FUNAI em Gurupi, agencia principal da autarquia no Tocantins. Para sua surpresa, assim que chegou à sala de espera já estavam os indígenas aguardando para serem atendidos. Foram reclamar do funcionário assim como Lourenço fora para o mesmo fim.

(...)

Passou o tempo. De quando em vez, encontrava-se por acaso, numa das movimentadas ruas da cidade, ou numa das agencias bancárias, ou na farmácia, enfim, de tempo em tempo, encontrava-se perdido com um ou outro indígena daquela aldeia. Conversavam e era avisado que logo teria uma resposta sobre a fita.

- Final Dezembro índios do Bananal  reúnem para decidir fita.

E assim aconteceu: Num entardecer de janeiro, estava só, em sua casa, quando um indígena chegou e disse que viera apagar a fita, conforme combinara, pois o Conselho das Tribos assim decidira.

E por mais de meia hora apagaram as filmagens da aldeia e Lourenço recuperou a fita que ficara em poder dos indígenas.

O funcionário da aldeia foi transferido para o sul do Pará...dada as incontáveis reclamações.

Merece registro também que a amizade de Lourenço com os indígenas do Bananal fez com que recebesse convite para ir à ECO 92, pois o grupo de índios tinha uma passagem a mais e gostariam que o CHEFE DOS ADVOGADOS os acompanhasse.

Roberto J. Pugliese
www.pugliesegomes.com.br
autor de Terrenos de Marinha e Seus Acrescidos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário