quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A pedra, a gasolina e o chicletes. ( memória nº 51 )


Memória nº 51
Acidentes e incidentes presenciados e sofridos.



Miracatu é um dos maiores municípios do Estado de São Paulo, cuja sede é uma pequena cidade espremida entre às margens da Br116 e o rio Juquiá, fundada por franceses,  outrora integrando a zona rural da vizinha Iguape, bem pobrezinha, com apenas um hotelzinho ou dois, ambos meia boca, adequados apenas para viajantes e num deles, situado à avenida Evaristo S. Leite, a  principal, é que passaram aquela noite inesquecível.

 

Na manhã seguinte seguiram viajem retornando à Itanhaém.

 

Vinham de Cananéia quando o carro engasgou, falhou e parou. Na escuridão da noite do domingo que ameaçava chuva, Lourenço percebeu que estava sem gasolina. Há uns três ou quatro quilômetros da cidade, após várias tentativas, pediu que a mulher e o filho, com seis ou sete anos, descessem e também ajudassem a pedir socorro.

 

Parados no acostamento, a rodovia à época com pista simples, tinha, como sempre teve, trafego intenso nos dois sentidos, com os carros, ônibus e caminhões  ofuscando com os faróis, sem apiedarem-se e manifestarem-se solidários ao drama. Ninguém dava atenção aos três. Além dos motores dos veículos que transitavam, ouvia-se cachorros das imediações latindo incessantemente.

 

Passavam em alta velocidade sem que se importassem com a mulher e o filho ao lado e ele abanando pedindo ajuda. O tempo passava e ninguém dava atenção... até que um parou alguns metros adiante.

 

Saíram três homens feitos, o motorista com um revolver a mão indicando para Lourenço que fora ao encontro, que diante da arma, levantou as mãos, assustado e preocupado com a mulher e o filho.

 

- O que está acontecendo?

 

- Preciso de ajuda, estou sem gasolina...

 

Após rápida explicação o motorista disse que ao invés de ceder gasolina ou dar carona até o próximo posto, que em razão do horário poderia já estar fechado, tinha uma corda e poderia rebocar.

 

Meia hora depois o Chevette estava guarnecido num posto de serviço movimentado, situado a  frente da principal avenida, do outro lado da pista... Pelo menos teriam onde passar a noite com segurança. Estavam na cidade.

 

Agradecido, Lourenço presenteou o benfeitor com o pacote de camarão que estava levando para casa, anotando o seu nome e endereço, ciente que  se tratava de   jornalista de A Gazeta e que talvez um dia pudesse retribuir a atenção.

 

Dormiu intrigado com o problema que ocorrera. Abastecera o carro antes de sair e teria combustível para rodar quinhentos quilômetros aproximadamente.

 

Pela manhã, logo cedo, um mecânico que olhou daqui e dali fez  testes, perguntas e com a experiência dos doutos e sabidos dos próprios ofícios, diagnosticou ter um furo no condutor, um estreito tubo, fino e longo, que sob o assoalho do automóvel, leva o combustível do tanque para o motor.

 

Sem recursos e em razão da pressa, mascou um gomo de chicletes Adans, até que tornando-se borracha impermeável,  o fixou no furinho que ficou sedimentado, recomendando que tomasse as providencias ao chegar em casa.

 

A gasolina esgotara-se há cento e trinta quilômetros do posto onde abastecera em Cananéia antes de iniciar a viagem. Lembrou-se que nas imediações de São Paulo Bagre, o bairro rural próximo à cidade, uma pedra repicara e batera forte no assoalho do automóvel e ali, provavelmente ocasionara o furo.  Àquele tempo a estrada da ponte, ainda sem denominação não era pavimentada. De lá em diante, parte da gasolina chupada pela bomba era jogada fora ao passar pelo orifício.

 

Noutra ocasião, recorda-se que retornava da Ilha Comprida onde fora passar o dia. Passara as duas balsas:  uma daquela ilha para Iguape e a outra, de Iguape para o continente, onde depois foi erguida a  suntuosa ponte dos Engenhos,  um Opala imprima alta velocidade, incompatível para a estrada cheia de barro e lama, sem pavimentação e a forte chuva que caia.

 

A estrada era um sabão escorregadiço...

 

Mais cuidadoso permitiu que o mesmo ultrapassasse e continuou viajando ao ritmo que podia seguir com segurança. Não chegava a perde-lo  de vista, mas cada vez se distanciava mais do motorista irresponsável.

 

Já estavam na BR116, próximo ao inicio da Serra do Cafezal, a pista ainda única para os dois sentidos, quando viu à sua frente, numa curva, o mesmo Opala perder a direção, atravessar a rodovia e atingir um barranco após o acostamento, próximo a uma curva fechada, no pé da serra.

 

Como outros que pararam para socorrê-lo, Lourenço contornou a curva e parou, estacionando no acostamento para sinalizar aos veículos que vinham em direção contrária para tomarem cuidados porque o automóvel acidentado estava parte enfiado no morro, parte no acostamento e parte na pista, podendo causar outros acidentes... E quem descia a serra não tinha visão do acidente. Ademais a chuva sendo forte, não permitiria uma freada com eficiência.

 

Noutra ocasião, também na estrada que une a BR116 à Iguape, então sem pavimentação, percebia que a despeito da chuva forte e toda lama que dava insegurança aos veículos, um jeep imprimia velocidade bem superior a boa razão. Seguiam em direção à São Paulo, e como previsto, ao ultrapassar a ponte do rio Peroupava onde a estrada entorna à direita, o automóvel não teve como fazer a curva e seguiu direto, caindo no charco existente.

 

Lourenço parou e percebeu que saíram três ou quatro homens, sem qualquer arranhão.

 

- Alguém se machucou? Levaria algum machucado para o pronto socorro.

 

Ninguém se machucara e pediram para ajudar tirar o auto que se encontrava há uns 3 metros de distancia da estrada num charco alagado... Meio afundado, meio atolado.

 

Lourenço foi embora sem dar satisfação ou ajuda, colaborando para o  destino que impôs de modo cruel o aprendizado ao motorista irresponsável.

 

Enfim, recorda-se também da sua primeira ida à Iguape. Fora com a namorada à Ilha Comprida num domingo ensolarado e após o banho de mar, almoço, retornavam à São Paulo.

 

Duas balsas, e 70 km. de estrada sem pavimentação com pouco movimento, que unia o porto dos Engenhos à Biguá, no entroncamento com a Br 116, então com uma única pista nos dois sentidos e muito bem movimentada.

 

Para quem da rodovia federal segue para Iguape, no alto da serra que serve de divisa com o município de Miracatu se tem uma visão muito bonita e ampla. Abaixo, a partir do pé da serra, vê-se nitidamente a baixada, rios, córregos e gamboas em quantidade. É o Despraiado, com fazendas de bananas e maracujás.

 

Estavam na subida dessa serra, no leito antigo, estreito, precário e com incontáveis pedras, quando percebeu que um dos pneus de trás furara...

 

Lourenço não deu bola. Pensou em seguir, com cuidado e bem vagarosamente até a pequena Vila São José ou Biguá, onde provavelmente encontraria um borracheiro, evitando o transtorno na subida da serra, sem acostamento, isolado, com riscos imprevisíveis.

 

E assim fez. Só que, na inexperiência, não sabia que a camara ficara toda moída, o pneu rasgado e a roda esfacelada, provocando elevado prejuízo econômico, com a substituição de todas essas peças.

 

Concluindo, suas andanças pelo Vale do Ribeira desde mil e novecentos e qualquer coisa, no volante ou de carona, tem muitas e muitas histórias pitorescas inesquecíveis.

 

Histórias inesquecíveis sempre ao volante de seus automóveis...

 

Roberto J. Pugliese
www.pugliesegomes.com.br
presidente da Comissão de Direito Notarial e Registros Públicos –OAB-Sc
Membro da Academia Eldoradense de Letras
Membro da Academia Itanhaense de Letras
Titular da Cadeira nº 35 – Academia São José de Letras
Autor de Terrenos de Marinha e seus Acrescidos, Letras Jurídicas
Autor de Direitos das Coisas, Leud
Sócio do Instituto dos Advogados  de Santa Catarina

 

 

 

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