sábado, 19 de janeiro de 2013

Aposentadoria injusta e compulsória revela ingratidão.

Discurso de despedida.
 
( Texto lido no altar mor da pequena igreja de São João Baptista, em  Cananéia, na festa de despedida do Pe. João XXX, quando de sua aposentadoria compulsória, durante à Santa Missa celebrada em sua homenagem pelo RV. Bispo Diocesano de Registro. )
 
 
Reverendíssimo  Senhor Bispo Diocesano,
Reverendíssimo Pe. João XXX
Caros irmãos em Cristo,
 
 
Aprendi muito vivendo em Cananéia, como profissional e como ser humano e ainda valho-me da rica e singular experiência que tenho com seus filhos naturais e com os que iguais a mim, a adotaram como berço.
 
No entanto, destaco entre tantos e tantos conhecimentos que adquiri nesses trinta anos de intimidade com este povo, ter conquistado a rica amizade de João XXX, o pároco que aqui já estava há um qüinqüênio quando em 1976 o conheci. Tem sido para mim, ao longo desse convívio, um mestre. Meu grande professor e catedrático da cadeira pertinente aos assuntos da vida, justiça social e amor aos pobres.
 
Homem dedicado ao Evangelho soube difundir a verdadeira palavra de Cristo, enfrentando com freqüência castas de poderosos que tradicionalmente extraiam proveito injusto da boa fé do inocente povo cananeense. Não raras vezes, isolado e desacreditado, soube tornar-se paradigma de coragem e perseverança, sem medir esforços, valendo-se dos parcos meios de que sempre dispôs.
 
Enfrentando a covarde oposição dos que perdiam privilégios e ludibriavam a opinião pública, nunca deixou de ouvir e tomar para si, o clamor daqueles que pediam desesperados a distribuição da verdadeira justiça social coletiva ou a defesa de direitos mínimos de cidadãos ultrajados historicamente pelo poder político e econômico.
 
Sem qualquer receio de desagradar a quem quer que fosse, não desistiu nunca, advogando a causa dos injustiçados, dos excluídos e de todos aqueles que lhe bateram a porta. Não há nestes últimos  anos, um único clamor por justiça, que não tenha a frente,  o combativo Padre João XXX. Assumiu e liderou movimentos de pescadores, esteio da economia tradicional local, com o objetivo de libertá-los da escrava situação imposta por agiotas atravessadores inescrupulosos, travestidos de empresários.
 
Enfrentou a politicagem histórica de grupos cuja meta sempre fora integrar a administração pública para obter vantagens pessoais e coletivas, através de  verdadeira escravidão econômica, da exploração da pobreza e do autoritarismo espalhado pela periferia, sítios e praias distantes. Tornou-se o bastião da libertação dos oprimidos deste bucólico paraíso.
 
Transformou o púlpito sagrado da Igreja de S. João Baptista na tribuna das denuncias daqueles que não tinham voz, e fez das capelas isoladas nas ilhas e no seio da floresta atlântica, fortalezas vivas na defesa de mínimos direitos dos humildes caiçaras, a quem sempre dedicou todo seu esforço.
 
Mas a atuação do Padre João XXX  não se restringiu a edificação de trincheiras jurídicas em defesa dos isolados ilhéus. Durante sua abençoada estada à frente da paróquia, soube difundir a cultura da preservação ambiental, mostrando nas entrelinhas da Bíblia Sagrada, a indispensável harmonia entre os seres humanos e os demais seres vivos. Revelou a importância econômica do meio ambiente sustentável.
 
O vigário não deixou de lado os esquecidos descendentes dos quilombolas do Mandira, nem tão pouco os renegados guaranis, que hoje habitam a Ilha do Cardoso. Esses grupos diferenciados, assim como as diversas colônias de rurículas e pescadores dos aglomerados  isolados, sempre estiveram agendados no rol de suas infindáveis preocupações.Cotidianamente visitava as comunidades distantes, conclamando-as ao postulado legítimo de escolas, postos de saúde, estradas... enfim, orientando-os na sua formação cidadã e cristã.
 
Merecida, pois a honraria conferida pela Câmara Municipal, que lhe homenageou com  a invejável cidadania Cananeense, dando-lhe o status da naturalidade, por ser de merecida justiça igualá-lo ao não menos ilustre Monsenhor Barroso,criador do Museu de Arte Sacra de São Paulo, honrado filho destas ilhas,onde nasceu  nos idos de 1.700. Cananéia é o seu lar. Sua família é o povo cristão desse arquipélago. Esse foi o destino que ao longo da sua trajetória  escolheu e construiu. Essa é a sua fortuna.Fiel ao Evangelho de Mateus 6:19 a 21, não ajuntou para si tesouros na Terra, mas sim nos Céus.
 
 Holandês de nascimento deixou em definitivo o requinte e o conforto da Europa glamurosa, para cuidar carinhosamente dos sofridos brasileiros esquecidos do  Vale do Ribeira. Largou o afeto e o  calor de sua família natural, para adotar os cananeenses como verdadeiros filhos  e irmãos de sangue.
 
Fiel aos compromissos assumidos diante dos pergaminhos dogmáticos da Igreja Católica manteve-se, tal qual São Francisco de Assis  nos limites da pobreza e comiseração, que se lhe impôs os votos jurados.Puro de coração e não afeito a coisas materiais, não se preocupou com os dias da velhice, confiando na tutela vitalícia da entidade religiosa que integra, respeita e valoriza com suas preces e sermões.
 
Agora, porém, padecendo de males que insistem em debilitar seu vigor físico, mas que nem de longe atingem seu pétreo vigor espiritual, ao invés do indispensável socorro, sofre ainda mais diante da aposentadoria compulsória que lhe foi oferecida.
 
Abandonam o grande capitão.Tiram da condução de seu amado rebanho, o pastor  que por quase quatro décadas conduziu amorosamente suas ovelhas, pregando a verdadeira justiça, perseguida incansavelmente por Jesus.
 
Essa é a despedida que se lhe impõe os doutos do templo. Mas esta decisão, porém, limita-se somente a entrega do cargo que lhe foi confiado e por décadas soube exemplarmente exerce-lo. Nada mais que a aposentadoria que se lhe impõe, debitada pela fragilidade de sua saúde física.
 
Mas é a despedida de quem jamais partirá. De quem nunca irá embora. Tiram-lhe o cajado, mas o rebanho permanecerá fiel ao seu dedicado pastor. Pois assim como em Atos 17:24, as escrituras sagradas nos ensinam  que ”Deus não mora em templos feitos por mão humanas”, podemos afirmar com certeza que  Deus mora sim, no coração de pessoas como o Padre João XXX, esteja ele no templo da Igreja de São João Batista  ou num casebre de pau-a-pique de um sitio qualquer de sua querida Cananéia..
 
Esteja  o Padre João XXX onde estiver, é certo que seu coração estará vivo, como os nossos, pulsando como o afortunado solo destas ilhas. Pulsando historicamente na lembrança inesquecível desse caloroso povo. Afinal, os bons frutos de sua semeadura ao longo de tantos anos multiplicam-se dia a dia.
 
 Pela primeira vez na historia desta secular cidade, o povo humilde da periferia tem vez e vós, graças ao trabalho incansável deste dedicado seguidor do apostolo Paulo.   
 
Em meu nome pessoal e do Edgar Jaci Teixeira e nossas famílias, emocionado, peço a todos que aplaudam o incansável pastor de todos nós.
 
Viva o Padre João.
 
Roberto J. Pugliese
( Texto elaborado em conjunto com o saudoso Edegar Jacy Teixeira )

Nenhum comentário:

Postar um comentário