sexta-feira, 6 de setembro de 2013

CICATRIZES ! ( 22a. memória )


( 22ª. Memória ) Cicatrizes –

 

Não são poucas as cicatrizes que se adquirem durante a vida. Algumas rasgam a alma. Ferem o espírito e a cicatrização se torna bem difícil. Algumas ocasiões abrem o corte e precisam de novos curativos.

 

Outras agridem o corpo. Lourenço tem essas marcas. Uma delas imperceptível até para os mais atentos. Seu braço direito é mais curto que o esquerdo.

 

Segundo presunção de médicos que analisaram o fato, a conclusão é que ao nascer, provavelmente ainda na maternidade, sofreu uma queda e veio a quebrar o bracinho. Não sabia se expressar. Apenas chorava. Pela lógica, era submetido a remédios para os ouvidos ou cólicas e... Os ossos do braço se cicatrizaram, restaurando-se com certa facilidade, pois tinha dias de vida. Restou, entretanto, um tanto torto, provocando pequena diferença de tamanho, mas sem qualquer problema. Ao chegar à idade adulta, tendo percebido o defeito, optou em deixar como se encontrava.

 

Seu braço direito não estica para cima. Se for trocar uma lâmpada no teto, por exemplo, tem certa dificuldade. No mais, não atrapalha, apenas tem que ajustar, nas camisas de mangas compridas, às circunstancias personalíssimas em razão da diferença de tamanho de um para outro braço.

 

A diferença descobriu por volta dos 14 anos ao ser matriculado numa academia de ginástica. Jorge Amaral, o gigante da cesta de natal, percebeu a dificuldade. O pai levou ao médico.

 

Interessante que se submeteu à diversos exames, inclusive um no qual ficou deitado e um aparelho suspenso o fotografava. Intrigado, então garoto ainda, questionou ao profissional que manobrava o aparelho, se havia perigo de despencar sobre o paciente toda a aparelhagem. O técnico de plano respondeu que nunca ocorrera e que era tudo muito bem preso.

 

Alguns segundos após a resposta tudo caiu. E só não atingiu Lourenço, pois não estava acomodado no ponto certo da cama, de modo que os aparelhos caíram ao seu lado, desmoralizando a certeza imposta pelo técnico.

 

Aos cinco anos lembra-se que caiu da escada. Desceu rolando todos os degraus e machucou a sobrancelha. Tem uma pequena marca do acidente, mesmo tendo ocorrido há quase sessenta anos passados.  Lembra-se que isso ocorreu na casa que morava no bairro do Cambuci, próximo à avenida Lins de Vasconcelos, junto a Caixa d’água, em São Paulo.

 

Noutra ocasião, na casa de sua avó Conceição, saiu correndo da sala de visitas em direção à cozinha, por um corredor que existia. Sua avó vinha saindo da sala de jantar com uma travessa de macarrão  que espatifou no rosto causando corte e dores. Foi numa de suas bochechas, bem próximo à vista.

 

Uma de suas tias o levou até a farmácia que fez o curativo básico e resolveu o problema. A cicatriz mínima ainda existe no seu rosto e não é perceptível.

 

Lourenço lembra-se também que iria arrancar um dente. Tinha 8 anos e estava com medo. Seu pai estava jantando e falou para ir buscar refrigerante na vendinha do seu Alberto, vizinha da casa onde moravam. Recorda-se que estava matutando como arrumar uma desculpa para não ir ao dentista...

 

Residia em Mirandópolis, próximo à Praça da Árvore. Há menos de 30 metros da esquina da Avenida Jabaquara, onde havia uma filial da Drogasil, rede de drogarias que à época se espalhava por toda cidade.

 

O armazém do seu Alberto era vizinho de parede no lado oposto. Voltando da vendinha, correndo, tropeçou, caiu, e cortou um dos dedos. Fundo. Feio. Acabou o jantar.

 

Sangrava bastante. Seu pai lavava seu dedo na torneira do tanque e o sangue não estancava. Preocupação com o tendão. Não sabia o que era e qual era o problema, mas percebia a preocupação geral.

 

Foram a farmácia que não se atreveu fazer curativo, pois o corte era fundo e, como previsto pelos pais, poderia ter pego o tendão.Seu pai o levou ao hospital à rua Santa Cruz, próximo da residência, nas imediações da Igreja da Saúde, do quartel da Guarda Civil que então existia e prestava bons serviços à sociedade paulistana.

 

O Hospital não tinha médicos... Seguiram  em direção à cidade. Iriam para o pronto socorro do 1º Distrito Policial. Iam pela avenida Domingos de Moraes e ao cruzarem com a avenida Senna Madureira, avistaram um pequeno pronto socorro. Lá pararam e foram atendidos.

 

Lourenço lembra-se bem que um pano azul impedia ver trabalharem com os apetrechos no seu dedo. Anestesia, injeção, costuras, limpezas... enfim, um monte de atos e situações que não imaginara para evitar a extração do dente.

Problema resolvido. Não restou seqüelas. Apenas a cicatriz dos nove pontos que lhe impôs o acidente. Uma semana depois talvez, ou duas, extraiu os pontos. E a seguir, foi ao dentista cuja sessão fora remarcada.

 

Marca interessante é a que tem numa das pernas. Com 4 ou 5 anos de idade, Dr. Lefebvre, médico da família, cujo consultório era no Centro Novo, à rua Barão de Itapetininga ou 7 de Abril, aos costumes de então, ia à residência de seus pacientes. E assim fez para aplicar a vacina Salk, contra a paralisia infantil. Ele e seus irmãos foram vacinados, cuja aplicação consistia numa pequena ampola que era raspada na perna da criança e cortando, introduzia-se no sangue ou na derme o liquido imunizatório... Sobra até hoje a marquinha.

 

Lourenço guarda até hoje as marcas desses pequenos acidentes. Tem ainda duas outras decorrentes da operação cirúrgica a que foi submetido e ficaram. Marcas que não tem muita importância, apenas assinalam lembranças de tempos de sua história.

 

Na alma as mais profundas são as deixadas pela ausência de seus amigos e entes queridos. Essas não cicatrizam. As ausências de seus avôs, tios, primos... Essas não serão cicatrizadas.

 

Roberto J. Pugliese
www.pugliesegomes.com.br
presidente da Comissão de Direito Notarial e Registros Públicos –OAB-Sc

 
( Acima, da esquerda para direita, Lourenço, Lúcia e Eduardo, seus irmãos, à época que lhes foi aplicada a Vacina Salk, por volta de 1956... ) ( Importante: nota-se a preferencia pelo São Paulo Futebol Clube, que até hoje é o clube do coração de Lourenço e outros 17 milhões de brasileiros )
 

Um comentário:

  1. Lembranças, é bom lembrar . . . a vida é feita de muitas lembranças, ,algumas boas e outras não tão boas, mas que juntas formam o mosaico de nossas vidas!!

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