sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Preso foge: Cananéia em pânico. ( memória 23 )


Memória 23ª.
Preso fugiu descalso. Sumiu.

 

O novo delegado de polícia de Cananéia estava realmente interessado em colocar ordem na cidade. Com todo o fôlego estava cercando traficantes e grileiros. Sem trégua perseguia a bandidagem no município que à época tinha menos de 7 mil almas...

Para evitar suspeitas, tinha por hábito, ao inquirir algum preso, chamar um dos 4 advogados da cidade para assistir a sessão e assim evitar que pairassem dúvidas a respeito da observação da lei processual, notadamente no que tange a violação de direitos humanos. Vale lembrar que 1983 vivíamos ainda os anos de chumbo.

Numa dessas sessões, numa tarde ensolarada, Lourenço foi chamado para esse fim. Mesmo sendo perto, fechou o gabinete, avisou a recepcionista e se dirigiu à  Delegacia de Polícia.

Para quem não conhece a cidade merece descrever o lugar: Ao lado do cemitério municipal,  à época era situada no mesmo quarteirão da sede da prefeitura municipal. Em frente um grande descampado. Um vazio. Seguindo após o cemitério havia o campo de futebol e depois mato, mangue e trilhas em direção ao Mar Pequeno de Cubatão.

O prédio da Delegacia de Policia, padrão no Estado de Sâo Paulo, tinha algumas salas dispostas de frente para a rua e numa de suas extremidades era a sala do delegado, onde se dava a sessão. Nos fundos era o abrigo da Polícia Militar e o presídio.

Só havia uma porta na frente para entrar no prédio.

O delegado na presença de Lourenço interrogava o preso. Para a solenidade, a autoridade retirava as algemas, de forma a evitar maior constrangimento. Atitude que refletia bem o interesse em manter o indiciado de forma digna e sem humilhação.

Os três sentados a mesa principal. Ao lado, dedilhando uma Reminton semi enferrujada, o escrivão do plantão. Também atrás de outra mesinha.

Durante os trabalhos algum policial compareceu à sala e falou qualquer coisa ao delegado que, desculpando-se, pediu licença ao advogado e disse que já retornava. Seguiram os três: O escrivão, o policial que dera o recado e o delegado de polícia.

Na sala permaneceu Lourenço e o preso, que se encontrava de chinelo de dedos. Passado alguns minutos, o preso levantou-se e deu alguns passos para lá, outros para cá, analisou bem o lugar, o corredor que seria a saída numa fuga e, deixou transparecer sua idéia em fugir. Na solidão de ambos, o preso, não escondia a expectativa de fuga.

( Ele irá fugir !!!) Pensava o advogado. Desconfiava da trama, dado os gestos salientes do miliante.

E sem mais outra cerimônia, num dado momento, largou a sandálias num canto, como se estivesse cansado de calçá-las, deu mais uma volta na sala e zarpou a toda velocidade.  Um cometa. Azogue. Bólido... um Chico Landi ou Fittipaldi, já um consagrado corredor àquela época.

Na posição que Lourenço se encontrava poderia ter passado o pé, de modo a derrubar o fujão e evitar a fuga. No entanto, ponderou que não era sua obrigação arrumar encrenca dessa ordem e deixou que o preso fugisse.

Após o delinqüente sair da sala, gritou: - Fugiu... o preso fugiu, pega...

E a correria foi total. Geral... todos policiais saíram correndo.

Passado alguns minutos, sessão encerrada, já sem mais o que fazer na Depol, foi embora. Despediu-se de Eider Castor, o jovem delegado de polícia, que meio sem graça, o dispensou... Resolveu ir até o centro da cidade e numa das ruelas históricas, cruzou com a sua mulher que vinha de carro também e lhe chamou atenção com os faróis. Parou do lado e ouviu:

- Lourenço, tome cuidado.!  Fugiu um preso perigoso da delegacia há pouco tempo atrás. A cidade inteira está comentando. Cuidado.

Não fazia cinco minutos que tudo ocorrera e sua mulher já fora avisada. Na velha Cananéia dos anos LXXX a voz anônima do diz que diz era bem mais célere do que a atual internet.

E nesse diz que diz, ao tempo que foi vereador naquela Estância Balneária, o Prefeito nomeara Pedro, sub prefeito do distrito do Ariri.

Pedrão como era conhecido era truculento e bruto e fora cabo eleitoral que ajudara eleger Walter Menck, o prefeito que vencera o pleito. Agora o semi  analfabeto estava a serviço do prefeito e de grileiros. Um homem da Arena, partido da Ditadura e do prefeito municipal.

No município, assim também espalhado por todo o Ribeira, eram centenas de grileiros que ameaçavam os humildes caiçaras daqueles sítios perdidos. Em Cananéia, a área continental sul, quase isolada, tinha dezenas de grileiros ocupando sítios de humildes moradores tradicionais.

Lourenço à época vereador pelo PMDB, partido político que se opunha à ditadura, da tribuna da Câmara, sempre atacava o prefeito e ao seu braço direito no sul do municipio, o temido Pedrão. Atacava com acusações de suas ameaças, violências e serviços escusos à serviço de grileiros, invasores de terras e todos os desserviços prestados à comunidade.

Todas as sessões Lourenço pedia a palavra para denunciar os grileiros e as ações do Pedrão, que amedrontava todo o Ariri. Não perdoava e aproveitava para fazer a ligação entre o jagunço e o prefeito... Demonstrava a falta de condições morais e intelectuais do jagunço para ser sub-prefeito do distrito perdido na divisa do Paraná.

Numa tarde recebeu um recado: - Pedrão mandou avisar que irá te matar.

Lourenço então jovem advogado, vereador, com um filho com menos de 4 anos de idade para criar, pensou que não poderia se acanhar e recuar, mas teria que se previnir e foi à delegacia, pedir ao seu amigo delegado que chamasse o Pedrão para que pessoalmente pudessem por as diferenças em dia.

Eider o jovem delegado de polícia, entendeu e ainda afiançou que tiraria do capanga do prefeito arma de fogo que portasse e não devolveria... Mandou recado. Chamou o sub-prefeito para conversar. Não disse o que e com quem, apenas mandou chamar.

O Ariri até hoje é um lugar isolado. A estrada é um atoleiro que nem sempre permite que automóveis cheguem à vila do Ariri, distante 60 km. do centro de Cananéia. Barco leva mais de 4 horas, dependendo da maré e do vento... Enfim, havia um único telefone instalado na sub-prefeitura.

Oportuno lembrar que de 1983 aos tempos de hoje, pouco mudou. Nada de especial e o Ariri e os bairros adjacentes continuam isolados por terra e por mar.

O delegado marcara uma data qualquer, que não se recorda, aproveitando a vinda do Pedrão ao centro para prestar contas ao prefeito, para a conferencia, que seria no prédio da Delegacia de Polícia.

No entanto essa reunião não chegou a se realizar. Por coincidência, um telex de Curitiba, informava o delegado que deveria prender e levar para o Paraná o sub-prefeito, pois fora condenado pela prática de  crime contra a vida de alguém... Estava foragido, mas as denuncias de Lourenço foram publicadas na imprensa regional e acabou chegando às autoridades paranaenses e veio a ordem: Prender o Pedrão.

E foi o que ocorreu.

O fato foi um prato cheio para que Lourenço continuasse atacando o prefeito e seus asseclas, desmoralizando-o por estar assessorado por capangas assassinos. Por bandidos que estavam cumprindo penas. Por analfabetos, semi letrados, bandidos assassinos...

Passados alguns meses ficou sabendo: Pedrão fora assassinado no presídio onde se encontrava. Brigara e outro presidiário o matou.

Lourenço se recorda também que anos depois ao chegar em seu escritório em Itanhaém, onde então residia, soube por meio da recepcionista que vários presos fugiram da Delegacia na madrugada.

A Delegacia de Polícia e a cadeia pública eram no mesmo quarteirão do escritório, que era o mais próximo do prédio e também do Forum da Justiça.

Mais tarde, ao encontrar seu parceiro de escritório, Dr. Gomes, hoje Juiz
Federal, pai do atual prefeito da cidade, soube que logo cedinho, quando chegara ao escritório fora abordado por um sujeito que pediu para entrar.

O sujeito era um dos presidiários que fugira e foi ao escritório pedir abrigo. Por outras palavras, provocou um problemão para o advogado, que de um lado, não poderia dedar a presença do delinqüente, dada a situação ética firmada entre o profissional e o preso e, de outro, ter que omitir das autoridades que estava abrigando um presidiário em fuga.

Enfim, soube que ainda pela manhã, deu carona ao fujão até Suarão, um bairro distante uns 5 ou 6 km. do centro da cidade... e se livrou do ABACAXI.

Para encerrar, insta salientar que Lourenço não trabalha na área criminal, mas tem nas gavetas de sua memória esses episódios, vividos nas raras oportunidades que atuou nesse campo do direito...

Roberto J. Pugliese
www.pugliesegomes.com.br
Membro da Academia Eldoradense de Letras
Membro da Academia Itanhaense de Letras
Titular da Cadeira nº 35 – Academia São José de Letras
Autor de Terrenos de Marinha e seus Acrescidos, Letras Jurídicas
Autor de Direitos das Coisas, Leud

Nenhum comentário:

Postar um comentário