sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Alcatrazes x Queimada Grande - Duas ilhas paulistas



A silhueta aparece distante, azulada, um pouco indefinida na névoa e maresia. A partir do porto de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, são 35 quilômetros de mar liso e bem comportado. O destino é o Arquipélago dos Alcatrazes cujo pico mais alto, de 316 metros, aos poucos assume dimensões reais e revela o verde da vegetação. Além da ilha principal, de 196 hectares, vão aparecendo as outras 4 ilhotas, 5 lajes e 2 parcéis, que compõem o arquipélago. Todos são porções emersas de montanhas que um dia já foram unidas ao continente, como boa parte das ilhas da região sudeste do país e, entre elas, em especial, a Queimada Grande, de 78 hectares, localizada a 33 km de Itanhaém, no litoral sul paulista.


O isolamento de todo esse relevo costeiro ocorreu 11 mil anos atrás, no fim da última glaciação, quando geleiras derreteram e subiu o nível dos oceanos. Por se tratarem de topos de morros rochosos, tais ilhas não têm praias e exibem encostas bem íngremes. O desembarque difícil funciona como uma barreira de proteção para a fauna residente ou visitante. Muitas espécies evoluíram de maneira diversa do continente até se tornarem únicas, devido a esse confinamento milenar.


Além do acesso difícil e do isolamento, tanto em Alcatrazes como na Queimada Grande, ainda há uma proteção natural extra: as serpentes. Uma espécie exclusiva de jararaca vive em cada localidade, cada uma com veneno distinto. São cobras diferentes entre si e diferentes das espécies continentais. Um bom motivo para o homem nunca ter ocupado essas terras, embora elas tenham servido - e ainda sirvam - de porto de descanso ou abrigo de tempestade, desde a época das caravelas.


É de chamar atenção a densidade de serpentes nas duas ilhas. "No continente, um pesquisador - experiente e com muita sorte - localiza 3 jararacas no mesmo dia. Pesquisei a Juréia, no litoral de São Paulo, durante 5 anos e localizei 5 jararacas. Já em Alcatrazes, é comum capturar 3 a 4 em uma noite enquanto em Queimada Grande as capturas sobem, fácil, para 50 jararacas-ilhoas numa noite", conta Otavio Marques, do Instituto Butantan.


De perto, Alcatrazes impressiona pela imensa quantidade de palmeiras, algumas num precário equilíbrio sobre o solo raso, acumulado nos vãos e escarpas dos picos de pedra. Onde a inclinação é menor e o acúmulo de solo é maior, surge uma mata atlântica densa e exuberante, onde cresce a orquídea endêmica Cattleya guttata. Nas rochas expostas, as escarpas se vestem de bromeliais, entremeados por cactos e uma ou outra rainha-do-abismo (Sinningia insularis), planta endêmica, conhecida apenas ali.


Acima das palmeiras, no alto do céu, em todas as direções, milhares de fragatas (Fregata magnificens) e atobás (Sula leucogaster) planam em silêncio, asas imóveis aproveitando as correntes ascendentes e descendentes. Eventualmente também surgem trinta-réis (Sterna sp). O céu coalhado de aves marinhas é uma vertigem que acompanha os visitantes durante toda a estadia no arquipélago.

Junto ao local de desembarque, a mata se mostra pontilhada de vermelho. Um pouco mais perto, o vermelho ganha o tamanho e a aparência de bexigas de festa infantil: são os machos de fragatas, sentados em seus ninhos, tentando ganhar as fêmeas no papo. Os gravetos não são muito abundantes na ilha e a falta de material obriga os construtores a recorrer ao roubo para completar suas obras. Bastou uma ave sair de seu posto para se alimentar e outra logo dá rasantes sobre o ninho, roubando pedaços de ramos. Os machos mais habilidosos e com papos mais vistosos logo arrumam companheiras com quem, então, passam a dividir os turnos de cuidados com os ovos e filhotes, além da vigilância contra vizinhos ladrões.

À noite, luzes de lanternas se acendem na ilha e no mar. Em terra, especialistas do Instituto Butantan e do Projeto Alcatrazes iluminam cantos escondidos, vasculhando tudo atrás de insetos, aranhas, lacraias, anfíbios, e serpentes. Em pouco tempo comemoram a coleta de várias aranhas caranguejeiras, duas jararacas e uma cobra-coral, todas encontradas na área do acampamento. As cobras são medidas, fazem uma 'doação' de veneno, recebem um chip de identificação e depois são soltas, no rochedo dos ninhais, onde é alta a concentração de lacraias, um de seus alimentos principais.

Dentro d'água, as luzes das lanternas percorrem os costões e corais. Iluminam peixes-voadores, que parecem flutuar no próprio brilho. Mas eles não interessam aos mergulhadores, que estão atrás das tartarugas. Os pesquisadores do Projeto Tartarugas Marinhas (Tamar) vão a Alcatrazes para coletar, avaliar, marcar e depois soltar os animais. "Não dá para pesquisar tartarugas marinhas em um local só", comenta José Henrique Becker, do Tamar. "É preciso juntar informações sobre os diversos locais que elas freqüentam ao longo de suas vidas. Não adianta proteger as desovas e os ninhos, se elas perderem os locais de alimentação e abrigo, morrendo jovens, antes mesmo da reprodução".

Em Alcatrazes e Queimada Grande, as tartarugas marinhas atualmente estão livres do afogamento em redes e em espinhéis, o maior problema causado por atividades humanas, em alto mar. Queimada Grande está dentro de uma Área de Proteção Ambiental, a APA de Cananéia-Iguape-Peruíbe, criada em 1984, e é uma Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) desde 1985. A pesca comercial é proibida. A pesca amadora embarcada e a caça submarina são admitidas, mas nenhuma das duas usa redes. Ainda é permitido o tráfego de barcos de passeio. O desembarque, no entanto, é proibido, e enfaticamente desaconselhado, por causa das jararacas.

A maioria das atividades realizadas em torno da Queimada Grande é de baixo impacto. No entanto, há sinais de estresse entre as tartarugas, cuja população é menor do que em Alcatrazes. E alguns peixes mais visados estão sob pressão, já considerados vulneráveis na lista oficial de espécies ameaçadas de extinção. Entre eles, destacam-se as caranhas (gênero Lutjanus), os badejos (gênero Mycteroperca) e as garoupas (gênero Epinephelus).

Em Alcatrazes, parte da ilha principal e as ilhotas estão legalmente protegidas pela Estação Ecológica Tupinambás, criada pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em 1987 e efetivamente implantada em outubro de 2001. A outra parte da ilha principal tem acesso restrito, controlado pela Marinha do Brasil. Desde os anos 80, o Saco do Funil e algumas lajes passaram a ser alvos de tiro, em exercícios com canhões. Após duras batalhas judiciais - algumas das quais ainda não encerradas - os pesquisadores e ambientalistas, reunidos desde 1989 no Projeto Alcatrazes, conseguiram garantir o acesso para expedições científicas periódicas.

Para os seres marinhos, o arquipélago é zona livre de pesca, de qualquer tipo. O controle da Marinha e do Ibama inibe também os passeios de barco e a visitação de mergulhadores, mesmo para simples observação. Só mesmo a pesquisa é autorizada. Vez por outra aparecem navegadores e pescadores, simulando desconhecer as regras, porém não chegam a perturbar a rotina das mais de 150 espécies de peixes registradas naquelas águas, entre as quais existe pelo menos uma endêmica: a enguia-de-jardim (Heteroconger longissimus), espécie que ocorre no Atântico e tem em Alcatrazes o seu limite mais ao sul, na costa brasileira.

Acima da linha de marés, porém, não é o mesmo sossego. Embora atualmente sejam mais esporádicos, os exercícios de tiro já alteraram a vegetação do Saco do Funil e afastaram as aves que ali faziam seus ninhos, caso dos atobás (antigamente chamados alcatrazes, de onde o nome do arquipélago). A mata alta e densa sofreu com repetidas queimadas, com a abertura de trilhas e a limpeza em torno dos alvos, que são pintados no chão. No lugar da floresta, agora a encosta apresenta uma vegetação mais baixa e aberta. Os projéteis são inertes, sem explosivos, segundo informam documentos da Marinha. Mas no início chegaram a ser usados alguns lotes de munição real, com prazos de validade prestes a vencer. E granadas de fósforo branco, lançadas para iluminar os exercícios noturnos, causa principal dos incêndios lá registrados.

Os impactos ambientais decorrentes das queimadas não são exclusividade do século 20, é bem verdade. Queimada Grande tem esse nome por ter sido sistematicamente incendiada, desde o tempo das caravelas. O fogo era uma forma de combater as serpentes, tidas como praga até pouco tempo atrás e não como um dos tesouros da biodiversidade brasileira (hoje assim reconhecido pela indústria farmacêutica, pois as proteínas do veneno das jararacas têm alto interesse biomédico).

Também há relatos de visitas às ilhas paulistas logo após o descobrimento do Brasil, de navegadores que lá faziam paradas estratégicas, para reforço das provisões, quando coletavam aves e ovos em grande quantidade. Em agosto de 1531, o diário de navegação de Pero Lopes de Souza conta a visita a Alcatrazes, evidenciando uma relação com a natureza muito diversa da atual, como seria de esperar de quem, por um lado, considerava infinitos os recursos das matas brasileiras e, por outro, diariamente media forças com os fenômenos naturais. Diz o diário: "ao meo dia fomos dar com hua ilha... era a cerraçam tamanha que fazia pouca diferença da noite ao dia... e mandei lançar o batel (bote) fora para ir à ilha matar rabiforcados (fragatas) e alcatrazes (atobás), que eram tantos que cobriam a ilha... E matamos tantos rabiforcados e alcatrazes que carregamos o batel delles... Como puz o capitam I na sua nao (nau), tornei a ilha a por lhe fogo. No quarto da modorra nos deu hua trovoada seca do essudoeste, com mui grande vento que nam havia homem, que lhe tivesse o rosto..."


A mesma mudança de vento relatada por Pero Lopes de Souza castigou os barcos dos pesquisadores e jornalistas, na última expedição. O sobe a desce das ondas forçou a uma noite de vigília, apesar da segurança - que os navegadores de 1531 não tinham - de contar com um motor para bombear água para fora do barco e para navegar para longe das pedras, se necessário.
Tempestades à parte, para alterar o curso dessa história de exploração predatória da natureza e traçar um futuro de conservação mais seguro para as ilhas paulistas, os pesquisadores e ambientalistas que trabalham em Alcatrazes e Queimada Grande defendem a criação de dois parques nacionais marinhos. Ambos seriam abertos à visitação controlada, ao turismo de observação e a programas de educação ambiental, além de dar continuidade a projetos de pesquisa.

A campanha pelo Parque Nacional Marinho de Alcatrazes já tem 15 anos e é encabeçada pelos integrantes do Projeto Alcatrazes, atualmente coordenado por Wilson Langeani Filho, que busca estimular a cooperação com a Capitania dos Portos e o diálogo com a Marinha.
A campanha pelo parque da Queimada Grande foi lançada no início de 2004, com apoio da entidade ambientalista Conservação Internacional (CI). Gerou uma reação dos praticantes de caça submarina e pescadores, freqüentadores daquelas águas. Eles montaram, inclusive, algumas organizações não governamentais para brigar contra as restrições de uso da área.
"A pesca praticada em torno da Queimada Grande é esportiva e não de subsistência, portanto a criação do parque não traria problemas sociais", defende Guilherme Dutra, da CI. "Trata-se de uma pesca seletiva, onde só os peixes maiores são capturados. Isso pode parecer sustentável, mas não é, pois os maiores exemplares, para estas espécies de peixe, são justamente os mais aptos para a reprodução", acrescenta.

A maior preocupação é minimizar as pressões sobre os conjuntos, únicos e diferenciados, de espécies de flora e fauna de Alcatrazes e Queimada Grande, laboratórios vivos para quem quer entender a evolução e as adaptações de cada bicho aos recursos disponíveis.
Na Queimada Grande ocorrem duas espécies de morcego e residem ou visitam a ilha mais de 30 espécies de aves. Existem pelo menos 3 anfíbios endêmicos, 3 lagartos, 2 'cobras-cegas' e 2 serpentes, também exclusivas. Mas a ilha é rica mesmo em aranhas, com nada menos do que 70 espécies catalogadas. A ilha principal de Alcatrazes é a terceira em riqueza biológica da América do Sul, atrás apenas de Galápagos, no Equador, e da Ilha Margarida, na Venezuela. É o principal ninhal de fragatas da costa brasileira. E ainda tem espécies sendo descobertas, como uma pequena rã do gênero Cicloramphus, ou a recentemente descrita jararaca-de-Alcatrazes (Bothrops alcatraz).

Como se não bastasse a expressão tão diversificada da vida, a paisagem das duas ilhas é de tirar o fôlego. Do alto dos rochedos, as aves marinhas passam voando, acima e abaixo e tão perto! O vento leva o calor e o cansaço, o sol vai tingindo os rochedos ao longo do dia e as águas transparentes, de um turquesa profundo, convidam a um mergulho. Não há como deixar um cenário desse sem vontade de conservar tudo, exatamente assim, para sempre.

Duas serpentes, dois caminhos
Um ancestral comum deu origem às jararacas endêmicas de Alcatrazes (Bothrops alcatraz) e da Queimada Grande (Bothrops insularis). O isolamento ocorreu 11 mil anos atrás, no final da última glaciação, quando o oceano avançou sobre a costa brasileira e cercou os picos das montanhas, então transformadas em ilhas. O ancestral possivelmente é o mesmo da jararaca continental (Bothrops jararaca). Mas cada uma das espécies evoluiu de forma diferenciada.
Mais do que o relevo ou o clima, o principal fator de diferenciação foi a disponibilidade de presas, conforme explica Otavio Marques, do Instituto Butantan. Não há roedores nas duas ilhas, nem mesmo os camundongos e ratos introduzidos acidentalmente em quase todo o mundo, 'de carona' nas caravelas do passado ou nas cargas de barcos de todo tipo, ainda hoje. Ao contrário das jararacas do continente, portanto, as duas populações ilhadas foram obrigadas a mudar de dieta.
A espécie de Alcatrazes passou a se virar com invertebrados - lacraias, sobretudo - e pequenos anfíbios, alimento das jovens jararacas do continente. Curiosamente, também ficou do tamanho das juvenis, ou seja, virou anã. Um exemplar adulto atinge, no máximo, 50 cm, enquanto a jararaca continental chega a 1,50 m e a jararaca-ilhoa, de Queimada Grande, fica no meio, com até um metro de comprimento. "O interessante é que esta é uma característica geneticamente fixada: se fornecermos roedores à jararaca-de-Alcatrazes, ela até come, mas seus descendentes não aumentam de tamanho, de geração para geração", observa Marques. "Se, ao contrário, dermos só lacraias para as outras jararacas - ilhoa ou continental - elas tendem a ter descendentes cada vez menores, pois o alimento é de menor valor energético".

A jararaca da Queimada Grande também se alimenta de invertebrados e pequenos anfíbios, mas só enquanto jovem. A grande diferença está em sua fase adulta, quando ela apresa principalmente aves. Por isso adaptou-se à vida arborícola - coisa rara entre as jararacas - e desenvolveu um veneno de forte efeito coagulante.
"Estamos testando a eficiência e as diferenças dos venenos dessas jararacas e já verificamos que o da ilhoa jovem é mais ativo em invertebrados e menos em roedores. Quando ela cresce, a composição muda e o veneno se torna muito ativo em aves", conta Fátima Furtado, também do Butantan. Os testes estão apenas iniciando, mas prometem revelar detalhes de alto interesse para as pesquisas biomédicas, porque algumas das proteínas contidas nos venenos são exclusivas e absolutamente novas para a Ciência.


( colaboração Ilhas Paulistas ) ( Dois pesos e duas medidas )


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