domingo, 8 de janeiro de 2012

Ilha das Peças - Berço da natureza e do Paraná.

DEGREDADOS URBANOS -( www.ilhadaspeças.com.br )


Quando o Criador plasmou o litoral paranaense fê-lo com extrema generosidade e cuidado. Talvez faltasse a colocação de algumas molduras nas praias e balneários, porém, nas baías excedeu. Temos a segunda menor faixa litorânea do Brasil. O Piauí ganha de nós, embora também tenha sido agraciado com muita beleza. Cinco Baías constituem o estuário paranaense; Paranaguá, Antonina, Laranjeiras (Guaraqueçaba), Pinheiros e Itupeva, formando em conjunto a mais vasta extensão interior de águas, um verdadeiro Mediterrâneo.

É bom que se diga que, o que se convencionou chamar de Baía de Paranaguá, a segunda maior do Brasil, é um complexo formado por três baías: a de Paranaguá, Antonina (município de Antonina) e Laranjeiras (município de Guaraqueçaba). O primeiro povoado do Paraná foi “Nossa Senhora das Mercês da Cotinga”, formado por volta de 1.560 com a chegada dos “degredados” ou náufragos das expedições realizadas entre 1501 e 1514. Partindo de Cananéia em pequenas embarcações e guiados pelos índios, os portugueses aportaram em Cotinga, permanecendo por quase vinte anos até conquistarem a confiança dos Carijós, quando puderam, então, se instalar, aos poucos, no continente, às margens do rio Taguaré, atual Itiberê. A conquista do estado do Paraná se deu, portanto, através de Paranaguá. A Vila “Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá” foi fundada em 29 de julho de 1648, ainda no “ciclo do ouro”, que não trouxe grandes conseqüências econômicas para a região.

Encontrado em pequena quantidade, apenas nas terras de aluvião e areias monazíticas, o ouro logo se extinguiu, tendo esse ciclo em Paranaguá um brilho fugaz. Além do ciclo do ouro, o da madeira teve enorme destaque. A exportação, através do Porto de Paranaguá, transformara-se na mais importante fonte de lucro. Havia necessidade de madeira para lenha e construção e a via férrea Curitiba-Paranaguá, que começou a funcionar em 1886, consumia material de combustão, Só em 1896 foram exportadas 100 mil peças de dormentes para o Rio de Janeiro. Toda a madeira foi cortada em Superagui, devastada de forma selvagem.

Magníficas matas desapareceram, não só em Superagui, mas em todo o entorno. É uma das regiões de fundamental importância para sustentação da fauna marinha, possuindo restingas, manguezais, grandes áreas de praias desertas, além de diversas trilhas ecológicas. É o maior berçário do Atlântico Sul e o terceiro do mundo, com relação à reserva da biosfera. Possui cerca de 300 km2 de área pontilhada de ilhas, praias, costões, canais e enseadas. Em meio a essa exuberância, pouco conhecida pelos próprios paranaenses, nosso ancoradouro é a Ilha das Peças, a maior da Baía de Paranaguá. Abriga quatro pequenas vilas de pescadores. A maior parte de seu território é deserta, coberta pela Mata Atlântica e manguezais de essencial importância para o ecossistema da região Além das comunidades nativas, nos últimos anos, cerca de 60 forasteiros (degredados urbanos) adquiriram pequenas áreas da ilha, construindo casas, na maioria de alto padrão, obedecendo às regras determinadas pelos órgãos competentes.

Percebendo algumas precariedades de uma das comunidades, o grupo de forasteiros, em grande parte, empresários de Curitiba, liderados por Mauro Bergamini, em parceria com a associação de moradores, criou um projeto de revitalização da ilha, com o propósito maior de oferecer melhor qualidade de vida aos ilhéus e resgatar as boas condições da mesma, em todos os aspectos. Todos os recursos serão angariados dentre o grupo e a execução do projeto ficará a cargo de profissionais especializados nas diferentes áreas do meio ambiente e desenvolvimento humano.

O projeto é audacioso, porém, simples e pretende mostrar ao Brasil e ao mundo que as ações conservacionistas, quando bem engendradas e despojadas de interesses dúbios ou capciosos, dão resultado e enobrecem mentores e receptores. O propósito é transformá-lo em modelo a ser adotado pelas outras comunidades de todo o estuário. A sustentabilidade do projeto se arvora unicamente na preservação da natureza e na qualidade vida dos cidadãos residentes e visitantes. Não haverá lugar para a exploração comercial desenfreada. Além do cumprimento rigoroso dos dispositivos legais, prevalecerá o Estatuto Social da Associação de Moradores e o Estatuto da Ilha, a ser criado por todos os envolvidos, em respeito à Mãe Natureza. A partitura da vida anda tão cheia de carranca que cabe a nós solfejá-la com mais carinho, amor, fidalguia e criatividade, sem esquecer, das alegorias e adereços.

Alfredo Mittelstedt Ambientalista de Berço

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