sábado, 15 de março de 2014

O xixi do ditador. ( memórias nº075)


Memória nº 75

A balsa e o ditador.

 

Voltavam para casa. Foram à São Francisco do Sul. Passaram uma semana na cidade passeando e aproveitara para lavrar a escritura de uma propriedade que comprara em Itanhaém, e assim evitava de recolher o imposto de transmissão, visto que dada a promulgação da Constituição Federal, o município não criara o referido imposto.

 

Retornavam costeando, via Antonina e a histórica Serra da Graciosa, de forma a evitar o trafego intenso e  pesado, em pista única das Rodovias Federais. Atravessaram de balsa já existente entre o porto de Laranjeiras, na ilha de São Francisco e a vila da Glória e seguiram para Itapoá e de lá, para Guaratuba.

 

Era uma tarde ensolarada de domingo por volta de novembro ou dezembro de 1988, quando encostaram na fila do ferry boat de Guaratuba e perceberam uma certa movimentação estranha: Polícia Federal e outros guardas-costas fortemente armados e um automóvel com aparência de ser blindado.

 

Ingressaram na embarcação, que atravessava com meia carga, quando se apercebeu que estava navegando com o ex-ditador deposto, residente em Guaratuba, Generalíssimo Alfredo Stroessner, fortemente armado.

 

Percebeu que corria elevado risco com a família, pois recém abrigado no país, à época eram muitas as pessoas que, inimigos do regime que implantara por longos anos, pretendiam matá-lo e aquela embarcação no meio da baia de Guaratuba seria uma presa fácil.

 

Chegaram ao porto e seguiram viagem. O ditador e seu séquito de dois carros-guardas além do próprio à frente e Lourenço atrás, seguido por outros que também seguiam para o norte em direção à Paranaguá.

 

A rodovia que liga direto à Paranaguá estava em obras e, todos que seguiam aquele caminho tiveram que adentrar numa estradinha de terra que daquela atingia a outra rodovia que segue por dentro, quase paralela à primeira. Ou em diagonal.

 

O ditador ia à frente... E ninguém conseguia ultrapassa-lo. De repente para o seu carro, primeiro da fila e os dos seguranças, impedindo que os demais ultrapassassem. Era um caminho estreito e os automóveis pararam no meio de forma a impedir qualquer ultrapassagem.

 

O truculento general ao vivo e a cores pula do veículo, vai próximo ao barranco, à beira daquele caminho improvisado, cercado de jagunços paraguaios considerados seguranças e de policiais federais, empunhando armas em direção aos automóveis e, sem qualquer pudor, abre sua calça e urina. Sem o mínimo respeito para aqueles que se encontravam nos veículos aguardando, homens, mulheres, crianças, famílias, o generalíssimo não se acanhou: fez xixi perante toda a plateia.

 

A seguir, retorna ao veículo, com os mesmos passos largos e pose arrogante da ida e parte. Partem ditador e seus seguranças brasileiros e paraguaios.

 

(...)

 

A noite já em  Itanhaem Lourenço assiste reportagem na  tv  que o ex ditador tomara um avião particular em Paranaguá e seguira para Brasília, onde se submeteria a um tratamento de saúde, pois a excessiva umidade do litoral paranaense não estava fazendo bem.

 

Arrogante e autoritário, mesmo no exílio, o ex ditador talvez ainda pensasse estar na republicazinha que dominara cruelmente durante várias décadas. Mantinha-se prepotente e arrogante, não se importando com quem quer que fosse.

 

Roberto J. Pugliese
titular da cadeira nº 38 da Academia São José de Letras.

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