sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

CAMPANHA PARA VEREANÇA. ( memória nº 50)


Memória nº50
Campanha para Vereador.
Praia dos Foles Grande, Cambriu, Pereirinha...

 

A campanha para o cargo de vereador à Câmara da cidade mais velha do país se iniciara. Por coerência não transferiu o título de nenhum parente ou amigo e tentaria eleger-se apenas com o convencimento de eleitores em optar pelo novo.

 

Elaborou propostas e saiu à campo.

 

Quase que diariamente por volta das 16 horas, às vezes um pouco antes, outras mais tarde, ia à algum bairro urbano da ilha, ou no Porto de Cubatão ou Itapitangui fazer visitas.

 

Às vezes, na sua lancha Flamingo iam até um lugar próximo, sempre  acompanhado de seu escudeiro, piloto, amigo e compadre Aroldo Xavier. Recorda-se bem que num final de tarde foi com companheiro Edgar Mafuz até o Pereirinha fazer algumas visitas. Nessa Aroldo não foi.

 

Apoitaram e atolaram o barco e foram à algumas casinhas de caiçaras. Primeiro no Pereirinha  depois no Itacurussá à pé, pela praia. Atravessaram o  pequeno rio numa canoa. Na volta, a filha de um eleitor foi leva-los vestida em trajes sumários... (???)

 

O pai mandará atravessá-los de canoa o pequeno ribeirão Pereque e ela, de baby doll, seguiu com os dois pela praia naquele principio de noite e final de tarde.

 

Noutra ocasião, Lourenço foi com Guerra, o engenheiro recém formado, militante do MDB incumbido de tirar fotos para os títulos de novos eleitores e Marcos Gama, o candidato à prefeito pela sublegenda do MDB III, ao Marujá e demais aglomerados existentes no sul da ilha do Cardoso. Lembra-se bem que por volta das 16 horas, famintos entraram numa casinha na Enseada da Baleia e lhes foi oferecido café com ova de tainha: Um banquete inesquecível. Muito delicioso.

 

Naquela mesma tarde, na Enseada da Baleia, o já falecido Antonio Malaquias os recebeu e pediu que dessem madeiramento para reconstruir a capela que se encontrava em estado precário de conservação, sugerindo que levariam pelo menos 7 ou 8 votos. Não celebraram o acordo. Por coerência não vendiam os votos.

 

No Pontal do Sul, na casa de Feliciano, o líder da última ponta sul paulista naquela extremidade fronteira ao Paraná, Lourenço ouviu que gostaria que a Prefeitura fizesse algumas caixas d’água para armazenar água de chuva, pois o abastecimento era muito precário. De fato, eram pocilgas de águas verdes, fétidas e sujas que abasteciam a comunidade. Águas contaminadas para aqueles caiçaras paulistas do fim do Estado.

 

Nessas visitas às comunidades distantes Lourenço sempre procurava o professor ou professora para trocar ideias e cada vez sentia-se encorajado a não medir esforços para  vencer as eleições  e mudar aquela realidade de extrema carência, na qual, caiçaras esquecidos eram socialmente desassistidos de praticamente tudo... Sentia-se na obrigação de fazer verdadeira revolução social em prol dos caiçaras esquecidos naquelas ilhas.

 

Num domingo foi com o Zé Maria, seu sócio na banca Caravela, e o Aroldo até o Marujá. Lá, este permaneceu jogando futebol e visitando amigos. Eles seguiram para o Cambriu à pé...

 

Seguiram pelas praias e costões. Seguiram por trilhas, subidas, descidas e praias... Caminharam aproximadamente 3 horas sem parar, esforçando-se para chegarem a tempo de encontrar o povo reunido para a palestra, previamente marcada com o líder  Armando Cuba. Calculou mal o trajeto, a distancia, o esforço e  chegaram atrasados, encontrando apenas a família do amigo. Nem a professora que cedera o salãozinho da escola rural estava por lá.

 

Retornaram. Na volta, iam parando nas casinhas de caiçaras que havia pelo caminho. Ora na beira do mar, ora um tanto atrás da praia, ora próximo às trilhas. Iam caminhando pelas praias: Foles Grandes, Laje... Inúmeras praias semi-habitadas por famílias tradicionais. Atravessavam os pequenos ribeirões, subiam morros, desciam às praias e seguiam de volta ao Marujá para encontrar com Aroldo e retornarem à Cananeia.

 

Numa das praias Lourenço viu uma choupana habitada e dirigiu-se à ela enquanto o seu sócio fora banhar-se para livrar do suor e refrescar-se um pouco.

 

Batera palmas e aos costumes foi adentrando num corredor semi aberto, coberto por folhas de diversas plantações: Um túnel sombreado pelo maracujá e outras frutas trançadas... quando se deparou com o dono da casa e assustou-se.

 

Sem deixar perceber que se apavorara com a fisionomia do caiçara, com aspecto deplorável pelo câncer exposto em seu rosto, coberto de bolotas penduradas, estendeu a mão e fez sua pregação.

 

A campanha para à Câmara de Cananéia foi bem pitoresca e cheia de imprevistos... muito interessante.

 

Lourenço viveu aqueles meses intensamente. Correu muito. Falou muito. Buscou os votos para eleger-se, porém não foram suficientes, sendo declarado primeiro suplente. Faltaram-lhe apenas 7 votos.

 

Importante registrar que a Camara daquela época tinha 9 assentos e, pela legenda, três ficaram com a oposição, o MDB de Lourenço e os demais, com a Arena, da situação. Colocou-se em quarto lugar no seu partido e 5º no computo geral. Mesmo residindo em Cananéia há menos de 1 ano. Sentiu-se vitorioso e em Abril assumiu sua cadeira numa curta temporada de quatro meses.

 

Roberto J. Pugliese
www.pugliesegomes.com.br
presidente da Comissão de Direito Notarial e Registros Públicos –OAB-Sc

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