terça-feira, 10 de dezembro de 2013

CORAGEM e AUTO CONFIANÇA. ( MEMÓRIA Nº 42 )


Memória nº 42

Cartório – Pedido de Demissão.

 

Em 1968 não estava indo bem na escola. Reprovara o ano anterior e continuava indo mal, desestimulado e sem disposição para enfrentar os estudos. Num misto de castigo e estímulo, seu pai o colocou no próprio escritório, na Praça Clóvis Bevilacqua, no edifício que depois veio a ser implodido para dar lugar à urbanização que se deu, e começar a aprender um pouco da vida.

 

Estudava pela manhã. Trabalhava à tarde e no final da tarde ia para a escola de datilografia. Lembra-se ainda da tarde que resolveu cabular a escola de datilografia e seu pai foi buscá-lo de surpresa e não o encontrou... à noite perguntou como fora a aula e... Lourenço sustentou a mentira até ser desmentido, envergonhando-se pela fraude mal engendrada.

 

Em 1969 continuou trabalhando no escritório do pai e em 1970, já na Faculdade, foi registrado no cartório. Auxiliar, em pouco tempo, se deu bem e prestou o exame junto à banca da Corregedoria Permanente, logrando êxito e passando a ocupar o cargo de escrevente. Se deu bem na função.

 

Em pouco tempo ganhou prestígio se tornando destaque no grupo de 50 escreventes, formando grande clientela, percebendo elevada remuneração e adquirindo conhecimento jurídico fruto de estudo e dedicação.

 

Segundo apurou anos depois com um ex funcionário da Caixa Econômica Federal, ganhava cerca de 10 vezes mais que um gerente daquela instituição. Isso com apenas 20 anos de idade...

 

O tempo passou e já casado, formado, resolveu advogar. Sair do cartório, até porque o ditador de plantão, General Gaisel, que impusera a reforma do Judiciário através do pacote de abril, oficializara os cartórios brasileiros e desse modo, com a estatização, se tornaria, permanecendo naquele emprego, funcionário público e não queria essa qualificação.

 

Resolveu sair do cartório. Pediu demissão. Entregou uma carta agradecendo o patrão e recebeu outra de recomendação. Isso se deu em Outubro e em Abril do ano seguinte já estava com a carteira de advogado, por ter passado no  exame que se submetera na OAB Sp. Exame escrito e oral.

 

Instalou-se numa sala que comprara antes, ainda à época que era escrevente do 22º cartório de notas, no 17º andar de um prédio ao lado do cartório, na ladeira Tabatinguera, no centro da grande capital paulista, na ilusão de continuar percebendo os mesmos valores que então ganhava na condição de escrevente... Pensara que a clientela que dispunha no cartório seria transferido para suas novas funções.

 

Sua vida mudou radicalmente. Lourenço caiu na dura realidade financeira que não conhecera durante os anos que viveu como notário. E valendo-se do conhecimento e experiência adquirida teve que correr e aprender a sobreviver.

 

E foi vivendo, sobrevivendo, ganhando, perdendo e aprendendo e saboreando as delicias da vida.

Insta salientar que mesmo afastado das notas tabelioas, no entanto, sempre se dedicou ao estudo do Direito Notarial e Registros Públicos, a ponto de escrever e publicar o primeiro livro de doutrina notarial escrito por brasileiro e editado no país. Também ao longo do tempo sempre proferiu palestras e lecionou esse ramo do direito, ainda bastante novel, no mundo jurídico pátrio.
 

Anos depois, já advogado e presidente da OAB, era também professor de Direito Civil, concursado e com cargo público na Faculdade de Filosofia e Ciencias Humanas de Gurupi, mantida pela município, resolveu retornar para o sul do país.

 

Era líder e aplicava essa liderança na Faculdade, impondo e exigindo direitos até então ignorados. Comandou uma greve na instituição e a Fundação mantenedora da Instituição não o via com bons olhos.

 

No dia que apresentou sua carta de demissão do cargo, o presidente da Fundação, leu, olhou, questionou e ouvindo a resposta, quase caiu da cadeira... Sem qualquer exagero.

 

Roberto J. Pugliese


presidente da Comissão de Direito Notarial e Registros Públicos –OAB-Sc

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