quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Figueirópolis, Dueré... São Paulo Campeão.! ( memória nº 46)


Memória nº46
Passeios rurais.

 

O recém-criado Estado do Tocantins no início dos anos noventa era praticamente desabitado, com a população de gado vacum cinco vez superior a humana. O Estado era essencialmente rural, com incontáveis fazendas abertas e em formação. Poucas eram as rodovias asfaltadas e o progresso estava localizado ao longo da Belém Brasília, a BR 153, Bernardo Sayão, que de norte a sul corta o Estado.

 

Nesse quadro Lourenço e sua família não conseguiram se adaptar perfeitamente, visto que todos, desde ao nascimento sempre estiveram junto à orla atlântica, ao pé da Serra do Mar, convivendo com a Mata Atlântica e levando vida urbana, distante do ambiente rural.

 

Manguezais, verde e colorido de ipês roxo e amarelo, elevações, restingas, areia e ar melado de sal é o ambiente que a família sempre vivera e durante certo tempo se distanciou indo residir no Tocantins.

 

No entanto o povo tocantinense muito acolhedor e receptivo sempre foi sedutor e cativou Lourenço e a família com o carinho que dedicaram a todos, desde que chegaram e durante o tempo que por lá permaneceram.

 

Daí, vira e mexe, eram convidados à alguma festa à realizar-se numa fazenda aqui ou acolá. E numa delas, recorda-se que foi num domingo, em Figueirópolis, data que Bragantino e São Paulo disputariam a partida final do campeonato brasileiro de futebol que levaria o campeão a disputar a Copa Libertadores da América.

 

Nesse Dezembro de 1990 foram passar o dia na fazenda dos pais do Henrique, amigo e parceiro, grande companheiro das jornadas políticas da OAB, cuja presidência da Subsecção de Gurupi, Lourenço liderava, com a participação e descentralização de poderes e administração.

 

O passeio e o convívio com aqueles familiares do amigo fora  ótimo e, por falta de outras condições, a partir das 16 horas, recorda-se que junto com Lourenço Jr., ouviu o jogo de futebol no rádio de seu automóvel e comemoraram juntos o campeonato que o time de seus corações ganhara... Aquele campeonato levou o São Paulo Futebol Clube à ser campeão da Copa Libertadora das Américas e posteriormente ao título mundial interclube.

 

Outra oportunidade, pitoresca e interessante, se deu quando foi com seu velho amigo Delmar Simões, ex-prefeito de Pariquera Açu, à época de sua vereança em Cananéia, visitar uma fazenda da família de suas alunas, cujo pai tinha interesse em vender.

 

Delmar que estava por lá em busca de terra para investir aproveitou para participar do passeio.

 

As meninas eram alunas na FAFICH, instituição que Lourenço lecionava e a fazenda era em Dueré, uma pequena cidade no meio do nada, bem longe de qualquer ponto de referencia.

 

Num sábado de manhã passaram na república que uma das meninas residia em Gurupi e de lá seguiram até Duere, situada há quase 100 km., por estrada de chão batido, onde pegaram a irmã e de lá seguiram sempre em direção oeste, mais algumas horas, por um caminho bem precário, catalogado como rodovia estadual que mais parecia  trilha de tropeiro...

 

Não havia posto de gasolina, empório, povoação. Não havia nada, apenas capoeiras e cerrado, sem qualquer indício de pessoas habitando por lá. Nem gado...

 

Com as dificuldades que esses caminhos rurais apresentam, sem placas indicativas nas encruzilhadas ou pontes seguras, rodaram até chegar à uma clareira, onde havia duas ou três cabanas de plástico preto, à beira de um córrego, sem qualquer indício de  mínima estrutura.

 

Lá, o pai e o irmão das meninas os aguardavam.

 

Papo daqui e dali, foram rodar, à pé, nas imediações enquanto o pai  preparava o almoço, que Lourenço imaginava tratar-se de churrasco, prato comum na região, dada a quantidade de gado e gaúchos.

 

Não havia nada por lá. Nada: Luz elétrica, telefone, construção hábil para abrigar os fazendeiros e peões, boi, bezerro, vaca, cavalos, máquinas, plantações. Nada. Apenas um lugar cheio de mato, caracterizado por cerrado, uma clareira e algumas barracas de plásticas bem precárias.

 

O almoço foi servido. Eram seis pessoas e havia apenas 3 pratos e talheres insuficientes para todos. A comida era arroz e frango feito poucos minutos antes. Havia também uma ou duas canecas de lata, muito comum na região, com água, do córrego. Não havia banheiro, torneira e a precariedade pitoresca era total.

 

Como se livrar do almoço sem ofender aos gentis fazendeiros? Não haviam parado em padaria, lanchonete, empório... Desde que acompanhado de uma delas, partiram de Gurupi.Falar que estava sem fome não poderia... e apelou para um mal estar estomacal.

 

Enquanto se furtou à comilança ofertada, seu amigo Delmar não se fez de rogado e papou todo o banquete que lhe fora oferecido... Degustou caprichadamente valendo-se do prato e talher dividido com os anfitriões.

 

A seguir retornaram.

 

No meio do caminho, um tatu atravessou a estrada, sugerindo que parassem para que o rapaz que também estava no carro, descesse, corresse atrás e caçasse o bicho. Apavorado, o tatu se cagou todo e foi solto.

 

Enfim, por volta das 17 horas, chegaram de volta e Delmar, balançando um dos ombros e a cabeça, tique nervoso combinado com cacoete que  mantinha há anos, contou detalhadamente a história para Lourença, a esposa, que os aguardava para jantar ...

 

A história inesquecível foi palco de muita gozação entre os amigos mais chegados durante muito tempo e, fantasiosamente transmitida por Delmar aos amigos comuns do Vale do Ribeira.

 

Roberto J. Pugliese
www.pugliesegomes.com.br
presidente da Comissão de Direito Notarial e Registros Públicos –OAB-Sc

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