quarta-feira, 18 de abril de 2012

Triste lembranças de tempos recentes -

A noite escura



Muita coisa continua em
sigilo e é natural que a sociedade cobre do governo a verdade dessa "noche
oscura" da vida nacional.


Deve ser um problema com o
nome: "Comissão da Verdade". E também de número: sete pessoas. Não
creio que haja sete caras no mundo que tenham o mesmo conceito de e sobre a
verdade. Sempre prevaleceu a verdade de cada um, o assim é se lhe parece, de
Pirandelo. Daí a dificuldade de dona Dilma nomear os membros que examinarão
atos e fatos criminosos do período ditatorial.


Cada um de nós tem engasgado na
garganta um detalhe daquele tempo. Alguns são sabidos, há documentos, fotos,
textos e depoimentos bastante divulgados. Muita coisa, porém, continua em
sigilo e é natural que a sociedade cobre do governo a verdade dessa "noche
oscura" da vida nacional.


Pessoalmente, gostaria de
comprovar um episódio que até hoje não sei se é verdadeiro, mas revelador da
repressão naquele tempo. Certa noite, um oficial da Aeronáutica e dois soldados
saíram da Base Aérea do Galeão numa kombi para apanhar oito inimigos do regime.
Todos na zona sul da cidade. Já quase madrugada, o oficial decidiu voltar ao
Galeão com os oito subversivos que constavam na lista que recebera de seus
superiores.


Na altura da praça Mauá, ele
resolveu contar os presos dentro da kombi e viu que só conseguira apanhar sete.
Não podia se apresentar ao comando sem os oito detidos. Naquela hora e lugar,
não havia ninguém nas ruas, mas ouviu o barulho de uma banca de jornais abrindo
na esquina da rua São Bento para receber os primeiros exemplares. Encostou a
kombi e mandou que o dono da banca, um italiano de 45 anos, recém-chegado ao
Brasil, entrasse no carro.


Pouco depois, entregava no Galeão
os oito subversivos, que foram jogados no mar, perto de Itaipu. Carimbaram em
cima da lista que lhe haviam dado: "Recebido".

Carlos Heitor Cony

O autor do texto é membro da Academia Brasileira de Letras desde 2000. Sua carreira no jornalismo começou em 1952 no "Jornal do Brasil". É autor de 15 romances e
diversas adaptações de clássicos. = fonte Renap - Rede Nacional de Advogados Populares )

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